Crônicas

  • As Obras-Primas de Marlia
    Arnaldo Niskier - 2015-12-28



    Aplausos. Aplausos. Muitos aplausos.
    No Teatro Leblon, na sala que leva o seu nome, o corpo de Marília Pêra 
    repousa no caixão adornado de flores vermelhas e brancas. No rosto, de aparência serena, um esboço de sorriso, como se a diva quisesse agradecer aquela consagração post-mortem.
     
    Foi o crítico e acadêmico Sábato Magaldi quem melhor resumiu a carreira de 
    Marília Pêra: “Todas as suas apresentações foram verdadeiras obras-primas.” Assim ele se referiu aos 24 filmes de que a grande estrela participou, como as 49 novelas da sua longa e consagrada carreira, a última das quais foi “Aquele beijo”, na TV Globo.
     
    Nossa amizade alcançou a glória dos 60 anos. Começou quando a mãe – a 
    também atriz Dinorah Marzulo – levava a pequenina Marília para ter aulas de piano com a professora Elza Usurpator, na Tijuca, onde também estudava a minha irmã, Rachel. A vida nos aproximou algumas vezes. Mais recentemente quando a convidei para uma temporada no Teatro João Caetano, a fim de levar à cena o musical sobre Carmen Miranda, sob a competente direção de Maurício Sherman. Sucesso absoluto! Era a marca de uma atriz completa, predestinada ao êxito, também quando se tratava de canto. Aliás, na ocasião, era comum ouvir-se o comentário de que Marília tinha a voz mais bonita do que a da Carmen.
     
    Lembro do seu sucesso como a professora de “Apareceu a Margarida”, de 
    Roberto Athayde, no Teatro Ipanema. Foi também “Callas” e “Chanel”, lotando 
    teatros de São Paulo, Paris e Rio de Janeiro. No cinema, como bem recordou Cacá Diegues, brilhou em “Pixote” e “Tieta do Agreste”. Estava no ar, na TV Globo, ivendo um papel feito só para ela, no bem humorado seriado “Pé na Cova”, ao lado do seu devotado amigo Miguel Falabella. Quando o abracei, no velório, senti uma forte emoção. Eles se gostavam muito.
     
    Marília nasceu em berço pobre. Filha de pais artistas, começou a trabalhar aos 
    quatro anos de idade, fazendo pontas em peças teatrais. Ia lançar um livro sobre a sua vida em dezembro de 2015. A morte, aos 72 anos, interrompeu os seus planos. Nesse livro, conta aventuras e desventuras, inclusive o seu “horror a certos homens ricos”. Cita muito a palavra fragilidade, como se fosse parte integrante da vida, mas na prática era mulher de grande força interior.
     
    Fomos vizinhos em Ipanema, por dois anos. Posso garantir que ela, ao lado do 
    marido Bruno Faria, transformava-se numa fera na defesa dos seus direitos ou 
    convicções. Valia pagar ingresso para vê-la em reuniões do condomínio. Embora doce no trato, na direção de espetáculos, igualmente, era de um rigor extremo. Coisas do perfeccionismo que acompanhou sempre a sua carreira.
     
    Tinha adoração pelo pai, Manuel Pêra. Tanto que, ao receber a homenagem de 
    ter o seu nome numa sala do Teatro Leblon, a mesma onde aconteceu o velório, escreveu que, para ela, o mais justo seria colocar o nome do pai. Na verdade, uma extraordinária figura humana, que nos fará muita falta.
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