Crônicas

O combate ao racismo
Arnaldo Niskier



O que há de mais singular na formação e no desenvolvimento da literatura afrobrasileira, em comparação com processos similares no resto do mundo, talvez seja o fato de os autores, sobretudo de 1930 em diante, terem a todo instante de declarar a palavra “negro” como instância de afirmação de uma identidade denegada pelo imaginário social hegemônico.
 
Isto ocorreu também nos Estados Unidos, com o New Negro Movement e nos países francófonos com a Négritude, que assumiu a palavra “negro” como enfrentamento ao sentido pejorativo nela alocado. Tal rebaixamento decorre também do estigma que, a partir do discurso bíblico, envolve o signo “negro” no Ocidente. 
 
Desse contexto resulta, no Brasil atual, a grande importância da literatura negra, manifestação artística cujo surgimento está ligado à compreensão do conceito de negro, termo que pode, segundo pesquisadores, nos remeter a duas realidades: tanto à ofensa e à humilhação, quanto à expressão de orgulho. Através da manifestação artística, especialmente da literatura, o negro se liberta da imagem quase sempre estereotipada com que foi apresentado desde sua chegada ao Novo Mundo.  
 
O fato foi amplamente analisado na Flinksampa, por iniciativa do reitor José Vicente, da Faculdade Zumbi dos Palmares, com a participação de membros da Academia Brasileira de Letras.
 
Quando se discute a legitimidade da expressão “poesia negra”, por exemplo, tem-se costumeiramente apontado para temáticas relacionadas ao combate ao racismo e à miséria. Hoje, porém, encontram-se motivos como o amor, o erotismo, a beleza, assim como a aliança entre música e poesia, através do samba, do pagode, maracatu, congada, reggae, entre outras, o que parece coincidir com a avaliação de quem, ao lado da religião, as artes, em geral, e, sobretudo, a poesia, a literatura e o teatro permitem chegar ao homem negro, às ambições e frustrações mais profundas e ao que há de irremediável e irredutível no empobrecimento humano e cultural de uma sociedade que converte a democracia racial em um falso idealismo.
 
Nesse sentido, a profundidade de uma consciência negra para uma nação mestiça é fundamental e a expressão artística foi o meio que inúmeros poetas encontraram para combater e libertar seu povo do preconceito e integrá-lo à sociedade. 
 
Não posso deixar de citar o escritor  Cruz e Sousa (1861 - 1898), o "Cisne Negro", como era conhecido no seu tempo,  considerado o maior poeta negro do país. Um dos precursores do Simbolismo no Brasil, Cruz e Sousa vai além deste título, demonstrando em sua poesia uma perfeita fusão de sensações, sentimentos e consciência social a partir de sua própria realidade. O desejo manifestado em seu texto se converteu num instrumento de contestação da segregação e da situação socioeconômica que viveu, triste herança do povo negro. Sua poesia (em verso e prosa) é a metáfora de um grito atormentado de alguém que busca no sofrimento a rota de fuga de uma verdade artística pura e absoluta. Um caminho que não se detém aos limites de sua obra, mas se desdobra em cada leitor que é tragado para seu universo. 
 
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