Crônicas

Versos Eternos
Arnaldo Niskier

A língua portuguesa é o pecúlio comum cujo alicerce poético nos deu Luís de Camões. Machado de Assis afirmou, a propósito de influências camonianas, que “cada tempo tem o seu estilo”. Mas é fato afirmar que a visão camoniana de amor perpassa a nossa literatura. 
 
Com mais de 100 livros publicados, nunca antes havia ousado invadir o terreno da poesia. Não que nunca as tivesse escrito. Pelo contrário. Desde que me alfabetizei, exprimo o que observo do mundo ao meu redor através de palavras. O primeiro “livro” de que tenho registro foi aos 10 anos, quando morava em São Paulo. Ainda guardo os manuscritos da pequena caderneta, onde anotava, em versos, as minhas impressões cotidianas. 
 
O memorialista Pedro Nava dizia que a experiência “é um farol voltado para trás”. Com o passar dos anos, fui desencantando as palavras, através do resgate das verdades da memória. Sempre registrei meus arroubos poéticos, mas nunca me animei em publicar qualquer obra do gênero, até a iniciativa desta singela coletânea: “50 poemas”(Edições Consultor, 2017).
 
A maioria dos meus escritos foi inspirada pela minha maior fonte de inspiração: minha esposa Ruth. A musa presente em todos os momentos da minha vida não poderia deixar de ser predominante nesse livro. Para Ruth, escrevi versos em todas as nossas datas comemorativas – e lá se vão 55 anos de casados. 
 
Palavras de amor, tais como no “Jubileu de Prata”, em 1987, onde escrevi: “Hoje é um dia especial./Estamos aqui na serra,/Num amanhecer sem igual,/O Sol mais lindo da Terra.//Não há nuvem, não há vento, /As flores sinto a sorrir./Penso que neste momento/São gratas por existir.//Há perfume em todo canto,/Nessa grandiosa quietude./O amor estende seu manto./É muita paz, é virtude.//Procuro a camélia em vão, /É sua flor preferida./Tenho outra em minha mão, /Igualmente tão querida.//Hoje desabrocha, sim, /Esplêndida, perfumada,/A ternura do jasmim,/Homenagem à bem amada.//Da prata é o jubileu/Dessa feliz união./Nosso amor jamais sofreu, /Nem mesmo um só arranhão.//Cada um na sua idade,/Tivemos filhos amados./Há maior felicidade?/Estamos recompensados.//E assim nós vamos viver, /Nesta paixão incontida/Na certeza de ainda ter/Muitas bodas nesta vida.”
 
25 anos depois, em 2012, em nossas “Bodas de Ouro”, finalizei um soneto com os seguintes versos: “O futuro, é certo, a Deus pertence/Mas temos o direito de aspirar/A mesma felicidade que nos convence/A continuar, continuar, continuar.”
 
Voltando às influências de nossas origens literárias, encontro estímulo para seguir sempre em frente, lastreado pela experiência vivida, no grande mestre da literatura universal, Fernando Pessoa: “Não quero o presente, quero a realidade. Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.”
 
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