Depoimentos

Antônio Carlos Vilaça



Vieira, glória do Brasil, Prefácio do Livro “Padre Antônio Vieira e os Judeus” (2004) Pede-me Arnaldo Niskier que lhe prefacie o livro sobre o padre Antônio Vieira, S.J., o maior luso-brasileiro do século XVII. Concede-me ele grande prazer com esse convite, porque gosto de Niskier e gosto de Antônio Vieira. Aos 19 anos, não tinha eu outro alimento - as cartas e os sermões de Vieira me nutriam, sobretudo as cartas. Vieira é um epistológrafo de mão cheia.

 

Hoje, até prefiro o epistológrafo ao sermonista.  Niskier e Vieira, que dupla... Arnaldo Niskier tem uma curiosidade intelectual enorme. Tudo lhe atrai a atenção. Ele poderia repetir como sua a palavra clássica de Terêncio - homo sum et nihil humani a me alienum puto. “Sou homem e nada do que é humano me é estranho.” Nada que pertença à humanidade do homem lhe é alheio ou indiferente. Seu olhar é universal e minucioso. Um olhar que vê. Um olhar que perscruta. E um olhar que encontra.  Assim, trata-se de um humanista.

 

O humanismo consiste precisamente nisto - numa fidelidade rigorosa ao humano. Niskier tem uma vocação humanística, não tanto no sentido estrito do Ratio Studiorum, mas no amplo sentido de um gosto profundo pelas coisas humanas, uma familiaridade, uma intimidade.Vem daí, desse humanismo concreto, a sua jovialidade.  Uma jovialidade cativante, vigilante. Quero dizer - atenta. Porque o humanismo é atento ao real. E quem mais atento às flutuações da vida do que Arnaldo Niskier? Tudo o atrai, tudo lhe merece consideração. Perquire tudo, da educação à comunicação, da tecnologia ao esporte, da praia à montanha. E tanto está bem, ou seja, feliz em Teresópolis como em Ipanema. Homem universal, isto é, aberto. Humanista cordial, isto é, voltado para o homem, sem estreitezas nem ranhetices. Na Academia, no Pen Club, na Universidade, na revista, na televisão, numa secretaria de estado(e foi secretário estadual por três vezes), na tribuna, no artigo, no livro, na peça teatral é o mesmo ser acessível, que vai coerentemente da cotidianidade à meditação filosófica.  

 

Tinha de gostar de Antônio Vieira. Tinha, sim, que descobri-lo, valorizá-lo. Imenso Vieira. Figura absolutamente genial. De uma flexibilidade, de uma concretude, de um senso do real que faz dele um grande político. Foi três coisas: pregador, moralista e político. Não foi propriamente filósofo. E, sem dúvida, foi muito mais um moralista do que um teólogo no sentido formal. Encarnou o barroco, e o encarnou como ninguém no mundo, vale dizer, na obra e na vida. Foi tragicamente um barroco, o maior dos barrocos. Júlio César Machado está publicando um livro notável sobre o barroco carioca. Como somos barrocos. Não é só Minas, não é só Bahia.

 

O Rio também é densamente barroco. Esse ensaio digno de um Clarival do Prado Valadares o prova, como fotografia e texto. Niskier sentiu e compreendeu o barroquíssimo jesuíta Vieira. E o traz até nós na sua inteireza ágil. Não o Vieira na sua missão total, na pluralidade da sua vocação religiosa e política, ser múltiplo, mas o Vieira especialmente nas suas relações simpaticíssimas e justas com os judeus, os da “nação hebraica”, assim como ele dizia. Há um messianismo profundo em Antônio Vieira. Quem o resumiu muito bem foi o português e jesuíta Luis Gonzaga Cabral, que morou na Bahia - Vieira pregador.

 

Na pregação messiânica (religiosamente e politicamente) se condensou o seu destino. Foi por excelência o missionário do Brasil. Ele, no século XVII; Júlio Maria, na transição entre o século XIX e o século XX.  Não tenho dúvida em dizer que Vieira é a maior figura da história colonial do Brasil. Culturalmente, foi. E socialmente. Um líder. Um articulador. Um inspirador. Um contemporâneo do futuro. Pois esse homem singular, poderoso, defendeu os judeus. E os quis defender mais de uma vez, com toda a sua eloquência irresistível e nobre. Um homem como Vieira não podia ser indiferente à causa dos judeus. Soube fazê-lo com realismo que a nós hoje nos impressiona. Esse padre era um realista. As suas defesas dos judeus me comovem. É uma grande voz humana a erguer-se em favor de Israel. Uma das maiores vozes do mundo, em qualquer tempo. Juana Inês de la Cruz, que nosso Manuel Bandeira traduziu com amor, tinha paixão lá no México por Vieira e o lia carinhosamente. Ivan Lins, não o cantor jovem, mas o positivista, dedicou a Vieira um livro magnífico, Aspectos do padre Antônio Vieira, de que saiu a segunda edição em 1962.  Curioso, Arnaldo Niskier sucedeu na Academia a Peregrino Júnior. Pois o patrono da cadeira é João Francisco Lisboa, o biógrafo de Vieira. O maranhense pagou a dívida do Maranhão com o padre.

 

Na questão dos índios do Maranhão, Vieira foi inexcedível. Como foi esplêndido na defesa dos judeus. Por isso, colheu a ira da Inquisição, esteve preso, defendeu-se no cárcere, sofreu. Niskier os estuda a todos - João Francisco Lisboa, João Lúcio de Azevedo, Ivan Lins, Antônio Sergio, Hernani Cidade, todos aqueles, e foram muitos, que meditaram sobre o destino dramático do pregador corajoso e lúcido. Que bom, que confortador ver-se um jesuíta sair em defesa dos judeus. O antis-semitismo é um absurdo, uma vergonha, um crime. Somos todos semitas espiritualmente, exclamava Pio XI. E foi o mesmo Pio XI que escreveu em 1937, no auge do hitlerismo, a encíclica Mit Brennender Sorge, contra o nazismo insolente e desumano. Jacques Maritain publicou todo um livro enternecido em defesa dos judeus - Le Mystère d´Israel. Jorge de Lima nos deu o grande poema, que está em A Túnica inconsútil, de 1938 - “Invocação a Israel”, um dos poemas mais belos, mais fortes de nosso Jorge de Lima.  Niskier pesquisou tudo, fez uma vasta pesquisa. E nos entrega um ensaio minucioso, exato, preciso. Reconstitui-se a vida riquíssima do padre setecentista, entre Lisboa, Bahia, Maranhão, Roma, Holanda, reconstituem-se as relações dele com os judeus, reconstitui-se o caso dele com a Inquisição, tudo seguido da ampla e atualizada bibliografia. Este levantamento probo das relações entre o padre e os judeus é um momento importante na bibliografia histórica brasileira.

 

Devemo-lo à diligência de Arnaldo Niskier, que agora -e para sempre - se inscreve no quadro dos estudos vieirenses que tanto interessavam a Pedro Calmon. Eis aí um espírito harmonioso que gostaria deste livro. Mas não só o Pedro Calmon. Também Afrânio Peixoto, de suma baianidade. Bem haja Arnaldo Niskier pela sua empreitada. Esta obra o honra. E nos honra. Ele foi às fontes. E nos trouxe um livro cristalino, que vai transformar-se de hoje em diante numa fonte perene para todos os estudiosos da grande vida e da grande obra do padre Antônio Vieira, glória da Companhia de Jesus, nossa glória, do Brasil.

  • Twitter - Arnaldo Niskier