Depoimentos

Carlos Heitor Cony



Junto ao poder, sem jamais tornar-se político partidário “Conheço Arnaldo Niskier há bastante tempo; desde quando era chefe de reportagem da Manchete Esportiva. Nessa época já se tornara um nome importante no jornalismo”, diz Cony. “Ele foi sempre bem-informado e culto. Nos tempos da Manchete já preparava sua tese de doutorado para ser professor titular na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Arnaldo é um intelectual que se divide em várias facetas. A principal delas é a de professor, como gosta de ser chamado. Conhece o universo da educação como poucos. Em matéria de Filosofia, Matemática e Pedagogia da Educação, é mestre. Posso dizer que, na sua especialidade, é o mais brilhante educador da atual geração. Equipara-se a João Lyra Filho, outro grande educador.

 

“A par da sua atividade básica, Arnaldo tem seu lado político. Sempre desempenhou as funções de administrador educacional, sua especialidade. Foi secretário de Estado no governo de Negrão de Lima. Ocupou a Secretaria de Ciência e Tecnologia. Entre outras obras, fez o Planetário que está aí, até hoje, e é de grande importância, principalmente, para os estudantes. Tempos depois seria secretário de Educação e Cultura no governo Chagas Freitas e, anos mais tarde, 2005/2006, secretário de Cultura na administração da governadora Rosinha Garotinho, passando em seguida à Secretaria de Educação. Em ambos os setores, prestou relevantes serviços ao Estado do Rio de Janeiro.

 

 “Na condição de jornalista, como já disse, teve, também, desempenho brilhante. Em dado momento, tornou-se diretor de jornalismo do Grupo Manchete. Foi nessa época que, mais efetivamente, comecei a trabalhar com ele. Era um grande profissional e, também, um admirável ‘quebrador de galhos’. Quando havia qualquer problema nas diversas revistas do Grupo – Manchete, Fatos e Fotos, Desfile, Ele e Ela, Amiga, Sétimo Céu – era a ele que os diretores recorriam e a solução que parecia impossível, logo entrava na via de solução. Não se alterava, nunca demonstrava estar de cabeça quente. Descascava o abacaxi com absoluta calma, educação e, acima de tudo, humildade. Jamais, que eu saiba, procurou sobrepor-se a quem quer que fosse para impor sua vontade; tomava decisões na base do espírito de equipe. Daí o sucesso que ele alcançou.

 

E foi nessa fase da Manchete que ele se candidatou e foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, tomando posse no dia 17 de setembro de 1984.  “Com isso, ele surpreendeu muita gente, pois ninguém sabia dos livros que havia escrito e muito menos que O impacto da tecnologia, edição de 1972, seria de grande importância, por ser uma síntese bem pesquisada e de fácil leitura, dos eventos tecnológicos através dos séculos, desde a soturna Idade Média, em que nada de importante aconteceu, visando ao progresso da humanidade. Um outro trabalho do Arnaldo, no formato romance, é Branca Dias – o martírio, muito bem escrito. O Dias Gomes já havia feito um texto teatral a respeito, mas devo acentuar que ele foi mais longe, pois aprofunda-se na questão da Inquisição e trata da perseguição dos judeus no Brasil.

 

Do ponto de vista de Niskier, Branca Dias torna-se uma personagem mitológica, uma Joana D’arc. Aliás, devo ressaltar: tive a satisfação de dar minha opinião sobre esse livro. Como já disse, o Arnaldo é múltiplo. Já escreveu até letra de samba. Está presente em tudo. Não há setor da cultura brasileira em que ele não tenha deixado sua marca. Embora não seja mais jornalista “do batente”, como dizia-se antigamente, escreve para jornais e revistas. É colaborador dos mais assíduos e mais lidos da Folha de S. Paulo. Posso dizer isso porque sou do Conselho Editorial do jornal. Ocasionalmente, escreve em O Globo e, também, no Jornal do Comércio.  “Além dessas atividades, vale lembrar o lado acadêmico de Arnaldo. Foi diretor da ABL quando morreu Austregésilo de Athayde e, de novo, na gestão de Josué Montello. Em ambos os períodos, caracterizou-se pelo dinamismo. Se a Academia tem, hoje, toda essa abrangência, deve-se a ele que criou, na sua presidência (1998-1999) o Teatro Magalhães Júnior, estimulou a realização de debates, visitas, viagens, palestras e a criação do plano de saúde para os funcionários da casa e acadêmicos. Trouxe para a ABL seu know-how de grande executivo. Isso me leva a dizer que a ABL teve dois períodos: antes e depois do Arnaldo.

 

Felizmente, a modernização imposta por Niskier foi levada adiante, inclusive pelo presidente Marcos Vilaça, preocupado em divulgar as atividades da ABL na grande mídia. Mas o Arnaldo foi, digamos, assim, o pioneiro disso tudo. Considero-o grande amigo. Quando fui eleito, o convidei para ser o acadêmico que me receberia. Seu elogioso discurso deixou-me emocionado. Por isso, defino o Arnaldo Niskier como sendo pessoa das mais inteligentes que conheço. Está sempre alegre, com suas tiradas espirituosas. Conversar com ele é coisa agradável. Em qualquer que seja o assunto pode manifestar-se e sempre bem fundamentado. Não deixa a peteca escapar-lhe das mãos e o faz com bom humor e sabedoria.”

  • Twitter - Arnaldo Niskier