Depoimentos

Lêdo Ivo



Três Mosqueteiros da Manchete também são quatro “Conheci Arnaldo Niskier quando ele estava no início de sua carreira, isso lá pelo ano de 1961, mais ou menos. Eu tinha voltado de Paris, em 1954, e por aqui surgira uma revista chamada Manchete. Fui chamado a colaborar. Escrevia reportagens e crônicas. Depois, tornei-me redator. Sentia-me muito à vontade porque conhecera Justino Martins, um dos diretores, em Paris.

 

Nessa época, era comum o jornalista trabalhar em diversas publicações. Havia muitos jornais e revistas no então Distrito Federal, Rio de Janeiro. Na Tribuna e na Manchete conheci Murilo Melo Filho. “Havia muitas e boas relações entre os jornalistas. O Brasil era diferente. A televisão, em preto e branco, não passava de coisa incipiente, acanhada. Ninguém acreditava que fosse projetar-se como aconteceu. O veículo forte, ao lado de jornais da tradição do Correio da Manhã, Diário de Notícias e Jornal do Brasil, era o rádio com suas novelas que atraíam a atenção de milhares de ouvintes.  “O ‘jornalismo verbal’, digamos, assim, tanto nas folhas diárias como nas revistas semanais, entre elas O Cruzeiro e A Cigarra, era o meio de comunicação extensivo e dominante. Oferecia trabalho variável e abundante.

 

Os ‘focas’ tinham muitas oportunidades. De modo que comecei na Manchete como colaborador, depois passei a redator. Minha indicação fora feita pelo Magalhães Júnior, jornalista, grande escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.  “Antes de chegar à Manchete, já trabalhara algum tempo em O Cruzeiro, passando depois para A Cigarra, onde estavam Herberto Salles e José Cândido de Carvalho, ambos escritores e, mais tarde, membros da ABL. Depois, tendo deixado A Cigarra, recebi convite para ser redator da Manchete, onde Arnaldo Niskier já demonstrava grande preocupação pedagógica e, anos depois, se tornaria um admirado educador, muito preocupado, inclusive, com o aprendizado à distância e com os problemas tecnológicos que acarretariam.

 

A paixão pedagógica o levou ao governo de Negrão de Lima, quando criou a primeira Secretaria de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.  “Vem daí nossa amizade e perdura até hoje. Ao lado de Arnaldo, Cony, Afonso Arinos e Murilo Melo Filho, compomos o chamado ‘grupo Manchete’ da ABL: os Três Mosqueteiros que são Quatro. Esse companheirismo é conseqüência dos meses e anos em que estivemos juntos ‘martelando’ nas máquinas de escrever, pois dos computadores nada sabíamos. Quando circulavam notícias a respeito, vagas notícias, no nosso imaginário a coisa nos remetia à ficção científica.

 

 “Muito tempo depois, já acadêmico, Arnaldo se candidataria a presidente da ABL. Fui um dos primeiros a votar nele. Eleito, fez uma administração admirável. Transformou a Academia num centro de cultura, atualizando-a, com um banco de dados. A partir daí a instituição passou efetivamente a integrar-se à comunidade nacional. Em outras palavras: a ABL democratizou-se.”

  • Twitter - Arnaldo Niskier