Palestra - Futebol na Academia - ABL - Arnaldo Niskier

Rio de Janeiro, 19 de maio de 2015.

Foi uma sessão extremamente alegre e caracterizada pela fala predominante sobre a vida desportiva de alguns imortais. No dia 06 de maio, o Acadêmico Marcos Vilaça teve a delicadeza de se referir ao passado de atleta do seu confrade Arnaldo Niskier. Citou suas 56 medalhas, conquistadas como nadador e jogador de basquetebol e futebol, defendendo as cores do América e do Clube Municipal. Por este chegou ao título carioca de basquetebol da Segunda Divisão, no ano de 1957.

O tema quase incendiou o plenário. O Acadêmico e poeta Ferreira Gullar saiu da sua tradicional timidez para contar que, jovem ainda, em São Luís, participou de algumas partidas de futebol. Magro e alto, ganhou o apelido de “Periquito”. Foi uma Outros imortais lembraram experiências similares e alguns citaram suas paixões clubísticas, o que transformou a sessão numa prova de que a casa de Machado de Assis não despreza o esporte das multidões.

Quando terminou a reunião, veio à luz o fato de que tínhamos esquecido de citar o poeta Coelho Neto, torcedor fanático do Fluminense. Se José Lins do Rego foi lembrado como torcedor apaixonado do Flamengo, por que esquecer o pai do craque Preguinho? Então, me dispus a elaborar uma efeméride para recordar (o que faria na ABL pela segunda vez) quem tinha sido Coelho Neto para o esporte carioca e brasileiro. Além, é claro, de mencionar os seus méritos de “príncipe dos nossos poetas.”

Coelho Neto, filho de português com índia civilizada, nascido no Maranhão, fez vida literária no Rio de Janeiro. Foi professor de Literatura do Colégio Pedro II. Com grande colaboração na imprensa, deixou 112 obras publicadas e 50 peças teatrais. Alcançou a presidência da Academia Brasileira de Letras. Sua obra foi diversificada, o que contribuiu para a crítica dos invejosos. Escreveu romances, contos, crônicas, teatro, poesia memórias, conferências, antologias e livros didáticos. Segundo Afrânio Coutinho, na sua apreciada Enciclopédia de Literatura Brasileira, editada pelo MEC, em 1990, “o modernismo condenou-o como representante do passadismo, acusado de afetação, palavreado rebuscado e enfático, abuso de termos incomuns, prolixidade e Era muita coisa para um só estilo, mas as críticas, com o tempo, foram atenuadas e ele teve o reconhecimento da sua obra.

Com a esposa Gabriela, teve 14 filhos e lutou muito para sustentar a família. Entrou para o quadro social do Fluminense Futebol Clube, do qual se tornou fanático torcedor. Alguns dos seus filhos defenderam as cores do clube tricolor, o mais famoso deles, Preguinho. Num FlaxFlu, em 1912, entrou em campo com a bengala em riste, querendo pegar o juiz, que não concordou com a defesa de uma penalidade máxima por parte do grande goleiro Marcos Carneiro de Mendonça (que começou a carreira no América F.C.) Se a turma do deixa disso, que já existia na época, não tivesse interferido, o nosso acadêmico teria acabado com o juiz, que na época era chamado de A paixão pelo Fluminense era tão grande que foi autor do seu primeiro hino, para comemorar a inauguração da terceira sede. O coração era mesmo tricolor.

Ficaram famosos os livros de contos (Sertão, Treva e Banzo), os romances (Turbilhão, Miragem e Inverno em flor), as memórias romanceadas (A capital federal, A conquista, Fogo fátuo e Mano), e as peças teatrais (Neve ao sol, A muralha, Quebranto e O dinheiro), entre outras. O escritor Otávio de Faria fez a defesa do cunho bem brasileiro dos trabalhos de Coelho Neto, considerando-o no “Jornal de Letras” (primeira fase) um digno representante da ficção nacional.

Ficou evidente, assim, que os modernistas, com raras exceções, cometeram diversas injustiças. A posteridade, com algum exagero, resumiu o movimento como sendo resultado de “uma rapaziada” ou, como queria Rodrigo de Melo Franco, “uma patacoada de meninos ricos”. Josué Montello, conterrâneo de Coelho Neto, foi além:

“Nesse latifundiário da palavra, há um narrador e um mestre, em cujo estilo a língua portuguesa incontestavelmente se enriquece, na graça de novas melodias.” Foi considerado por Machado de Assis como “um dos nossos primeiros escritores”, logo se engajando no movimento abolicionista e republicano, o que não o livrou de uma perseguição por parte do governo Floriano.

Coelho Neto gostava de abusar de termos raros, merecendo de Guimarães Rosa a classificação de “amoroso pastor da turbamulta das palavras”. A imaginação era fértil e indisciplinada. No seu acervo, contabilizam-se em 40 anos cerca de oito mil crônicas, de início fugindo do cotidiano (o que lhe valeu críticas contundentes), mas aos poucos foi dominando o estilo, como se pode verificar até mesmo na exaltação de amigos, o maior dos quais, Rui Barbosa.

Há críticas à sociedade da época, mas também referências competentes às conquistas da ciência, as quais não escaparam da sua Criticava-se em Coelho Neto o gosto por termos incomuns. Podemos dar exemplos, recolhidos do livro sobre as suas melhores crônicas, selecionadas por Ubiratan Machado (Global Editora, SP, 2009). Com tais vocábulos ele intrigava os seus “Vamos aprender a dar murros – é esporte elegante, porque a gente precisa de luvas, rende dólares e chama-se boxe, nome inglês. Capoeira é coisa de galinha, que o digam os que dele saem com galos empoleirados no alto da sinagoga.” (O nosso jogo, Mesmo com a admiração por várias modalidades esportivas, preferia os esportes com contato direto com a natureza, praticados em espaços abertos. Por isso defendia o futebol, praticado a céu aberto, fonte de energia e regeneração da raça brasileira, deixando para trás nossa herança colonial. Para Coelho Neto, o futebol colocava os interesses pessoais abaixo dos coletivos, controlando os impulsos “naturais” e adestrando o homem através da disciplina, valores cívicos e morais fundamentais para a construção de uma nova nação.

Contrário ao profissionalismo, via os jogadores que atuavam por dinheiro como “mercenários, que não se aliam aos clubes por amor ao seu pavilhão, senão pelo interesse que deles possam auferir”. O clube, para ele, deveria ser como uma “pequena Pátria” onde o atleta “se dedica e se sacrifica com coração livre de outro qualquer interesse que não seja o da glória”.

Na verdade, Coelho Neto era um aficionado do futebol, sendo responsável pela construção de uma série de valores simbólicos e tradições que associaram o esporte como um espaço de distinção e refinamento. Amante de vários esportes, acreditava que eles eram fundamentais para o desenvolvimento do cidadão e para a afirmação nacional, não só nos aspectos físicos, mas no revigoramento moral, contribuindo para a formação de um indivíduo virtuoso e de boa índole. O futebol seria, para ele, um esporte moderno e promotor de um tipo de civilização adaptado aos modelos idealizados pela Europa, capaz de levar ao aperfeiçoamento físico e cívico do indivíduo. Coelho Netto é herdeiro da geração de 1870, caracterizada pelo seu espírito científico e militante que acreditava no poder transformador das ideias científicas e da educação para se conquistar uma sociedade baseada na evolução e no progresso.

Escreveu sobre o esporte bretão uma série inesquecível de grandes crônicas, o que o levou a uma profunda inimizade com o escritor carioca Lima Barreto. Dado curioso: na época, membro da aristocracia fluminense, Coelho Neto considerava o futebol um esporte nobre e educativo (achava os jogadores heróis e semideuses e adorava a rivalidade das torcidas), enquanto Lima Barreto, autor do clássico O triste fim de Policarpo Quaresma, homem do povo, detestava o futebol, por ele considerado “uma regressão à barbárie”.

Em suas incontáveis palestras, discursos e conferências feitas em favor do esporte, Coelho Neto buscou inspiração na antiguidade clássica. Enamorando-se do espírito grego como berço da civilização e da sabedoria, enaltecia os heróis do Olimpo, associando a cultura à eugenia, ensinando que o espírito e o corpo devem crescer juntos em harmonia. O periódico Vida esportiva referia-se a ele como “um intermediário entre as letras e o esporte. Cultiva as letras ao lado do esporte, cultiva o esporte dando letra”.

Ao assistir a jogos do Fluminense com mais de 30 mil pessoas, fez uma relação entre o futebol, uma espécie de festa agonística e as olimpíadas helênicas, verdadeiros certames pela paz, um combate harmonioso capaz de unir a todos em um ideal de revigoramento cívico. Um esporte civilizatório:

“Acudindo ao reclamo deixam os seus lares sorrindo e ei-los em marcha, ao som de hinos para combate harmonioso, cujo prêmio é uma taça e de prata. E assim, pouco a pouco, ir-se- ão estreitando os laços de amizade, travando-se a indissociável aliança não superficialmente, pelo contato das folhas, mas pelo convívio das próprias raízes. Esses sim são os embaixadores do povo, que trazem entusiasmo. Essa centelha que se transmite de alma, fazendo-as vibrar alegres, explodir em aclamações.”

Sua atuação em favor da atividade esportiva o levou a receber diversas homenagens. Foi sócio e membro honorário de diversos clubes, como o Clube de Regatas Guanabara, Clube de Natação e Regatas, Clube de Regatas Vasco da Gama, Club Internacional de Regatas, Clube de Regatas Boqueirão do Passeio, Clube de Buenos Aires, Palestra Itália Foot-ball Club de São Paulo. Nestes e em outros clubes era tratado como “expoente máximo de nossa cultura esportiva”, “maior conquista do Foot-Ball brasileiro”, constantemente requisitado para participar de eventos em clubes de todas as origens sociais, chegando a ser criado um clube com o seu nome “Coelho Netto A C”. Com tantas homenagens, o escritor tornou-se uma referência para aqueles que defendiam o esporte como forma de regeneração social, “preparando gerações futuras sadias e viris”.

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