Palestra - Evocação de Raquel de Queiroz - ABL - Arnaldo Niskier

Academia Brasileira de Letras
Rio de Janeiro, 14 de outubro de 2009.


Louvação a Rachel de Queiroz

Manuel Bandeira

Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, minha amiga
nata e flor do nosso povo.
Ninguém tão Brasil quanto ela,
pois que, com ser do Ceará,
tem de todos os Estados,
do Rio Grande ao Pará.
Tão Brasil: quero dizer
Brasil de toda maneira
- brasílica, brasiliense,
brasiliana, brasileira.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel e, louvada
uma vez, louvo-a de novo.
Louvo a sua inteligência,
e louvo o seu coração.
Qual maior? Sinceramente,
meus amigos, não sei não.
Louvo os seus olhos bonitos,
louvo a sua simpatia.
Louvo a sua voz nortista,
louvo o seu amor de tia.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, duas vezes
louvada, e louvo-a de novo.
Louvo o seu romance: O Quinze
e os outros três; louvo As Três
Marias especialmente,
mais minhas que de vocês.
Louvo a cronista gostosa.
Louvo o seu teatro: Lampião
e a nossa Beata Maria.
Mas chega de louvação,
porque, por mais que a louvemos,
nunca a louvaremos bem.
Em nome do Pai, do Filho e
do Espírito Santo, amém.


Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, Ceará.
Quatro semanas depois de nascer, foi com a família para o sertão de Quixadá, onde seu pai, Daniel, era juiz. Foi a sua primeira viagem, uma viagem a cavalo, ao encontro do seu destino, ao encontro do sertão, ao encontro do cenário geográfico e humano que viria a ser o cenário da sua obra literária. A literatura fez parte da vida de Rachel de Queiroz como uma realidade primordial, absorvente, viva. Pela sua própria ascendência, que vem, pelo lado materno, da estirpe dos Alencares, parente, portanto, do autor ilustre de O guarani, e pelo lado paterno, dos Queiroz, família de raízes profundamente fincadas no Quixadá e no Beberibe. Em 1917 viajou ao Rio de Janeiro, com a família, que procurava, nessa migração, esquecer os horrores da terrível seca de 1915. A permanência na então capital foi curta, porque alguns meses depois a família emigrava novamente, desta vez para Belém do Pará. Em 1919, regressou ao Ceará. Rachel fez o curso normal em Fortaleza, no Colégio Imaculada Conceição, diplomando-se aos dezoito anos. Foi professora e iniciou-se no jornalismo, como colaboradora da “Folha Modernista do Ceará”, denominada Maracajá. Em 1930, publicou o romance “O quinze”, que teve grande repercussão, projetando o seu nome, situando-a como pioneira no ciclo do romance nordestino. Coube àquela professora de vinte anos dar ao romance brasileiro uma de suas obras definitivas.

As qualidades humanas de Rachel acresceram-se às literárias para fazer dela a grande dama da literatura brasileira e a primeira mulher a ingressar nesta Academia. Sabemos que foi Dinah Silveira de Queiroz que se bateu, com a cumplicidade de vários imortais, para que a Academia se abrisse para as mulheres. Mas Dinah ouviu o sábio conselho de que esperasse Rachel candidatar-se, pois então seria certa a primeira eleição feminina. Rachel é toda uma época da literatura brasileira. Em 1990, aqui comemoramos os 80 anos da nossa querida Rachel de Queiroz. Os acadêmicos foram unânimes em proclamá-la a companheira perfeita, a acadêmica exemplar, em quem não se via velhice alguma, porque os anos passavam e ela continuava a mesma Rachel, assim como continuava jovem e dinâmico o seu estilo. Antonio Houaiss, por exemplo, confessou-se “um enamorado dela. Não apenas o espírito dela, o que é uma confissão algo imprudente nesta casa, mas é verdade. Vejo-lhe beleza em tudo: no falar, no olhar, no sorrir, na gesticulação, no andar, em tudo há beleza em Rachel de Queiroz”.

Os romances de Rachel sempre foram escritos com longos intervalos entre si. Como se não levasse a sério a sua prosa consagrada, Rachel de Queiroz sempre que pôde declarava que “nunca levou esse negócio de carreira literária muito a sério” e que a sua profissão era mesmo o jornalismo: “... nunca tive propriamente uma ‘carreira literária’ no sentido em que se entende a expressão. E se isso que tenho feito durante mais de quarenta anos – escrever alguns livros e muitos milhares de artigos e crônicas – pode-se chamar de ‘carreira literária’, nunca lhe dei importância como tal. Tenho vivido no meio de livros e outras coisas, convivido com literatos quando eles são também meus amigos e não porque sejam literatos. Para mim o importante mesmo é a vida, ela é que marca e deixa recordações.” (depoimento a Haroldo Bruno / 1974) Rachel de Queiroz confessava ser “preguiçosa”, mas escreveu obras das mais importantes da literatura brasileira. No “Memorial de Maria Moura”, um pouco autobiográfico, sobretudo no enfoque da garra nordestina, que Rachel tinha de sobra, foi concluído aos 83 anos de idade. Ela permanecia na ativa, dona de uma prodigiosa memória e de uma alegria inesgotável, com a energia da jovem professorinha de Quixadá. Inúmeras vezes lemos ou ouvimos Rachel dizer que escrever para ela era um ofício, um meio de ganhar a vida: “A verdade é que continuo detestando escrever. Só vou para a frente da minha velha Olivetti quando estou devendo algo a alguém.” Sem dúvida, esse “dever algo a alguém” era a maneira de Rachel entender a sua obra literária, fosse romance, crônica, teatro ou literatura infanto-juvenil. Ela sempre concebeu o seu fazer literário como uma forma de participar, de denunciar, de registrar o cotidiano, de entreter e comover seus leitores, de saldar o seu débito para com a humanidade.


A GLÓRIA DE “O QUINZE”

Se viva fosse, a escritora Rachel de Queiroz faria 97 anos em 17 de novembro. Faleceu no Rio aos 93 anos de idade, em 4 de novembro de 2003. Tive o privilégio de ser seu amigo, nos últimos 20 anos da sua vida, e a glória de ter sido por ela recebido, na posse, em 17 de setembro de 1984, quando passamos a conviver mais frequentemente, na Casa de Machado de Assis. Foi uma figura humana de inigualáveis qualidades. O romance inaugural de Rachel, “O Quinze”, foi escrito quando ela nem havia completado 20 anos de idade – e ainda presumia que poderia seguir a carreira do magistério. Formou-se em Humanidades, mas lecionou pouco menos de um ano. Mereceu desde logo o comentário de Gilberto Amado: “Numa garota de 20 anos, abrolha uma produção tão perfeita e tão pura que continua, sozinha, inigualada, tempos afora.” Para o poeta Augusto Frederico Schmidt, ela escreveu o romance da seca de 1915 com imenso fervor: “Era a voz do Nordeste que se ouvia, dramática, pungente.” Logo se tornaria um nome nacional. Veio para o Rio de Janeiro, em 1939, quando encontrou o grande amor da sua vida, o médico Oyama de Macedo. Desenvolveu toda a sua obra tendo por base o princípio da liberdade humana, o que lhe valeu o galardão de uma das principais figuras da moderna literatura brasileira. “O Quinze” não foi só um livro sobre a seca. Ali puderam ser mais conhecidos aspectos da vida no interior cearense, sobretudo num dos períodos mais dramáticos vividos pelo estado. Pode-se recorrer mais uma vez a Augusto Frederico Schmidt: “O livro surpreende pela experiência, pelo repouso, pelo domínio da emoção e isto a tal ponto que estive inclinado a supor que D. Rachel de Queiroz fosse apenas um nome escondendo outro nome. Tudo o que se passa em “O Quinze”, dentro de um ambiente de absoluta realidade, tudo acontece com a mais perfeita naturalidade, que é mantida em todo o livro, sem nenhuma queda.” Trechos selecionados podem elucidar melhor o espírito dessa obra notável. Vejamos alguns deles, com a sua marcante característica de fuga ao sentimentalismo:

1) Encostado a uma jurema seca, defronte ao juazeiro que a foice dos cabras ia pouco a pouco mutilando, Vicente dirigia a distribuição de rama verde ao gado. Reses magras, com grandes ossos agudos furando o couro das ancas...

2) Saída a última rês, Chico Bento bateu os paus na porteira e foi caminhando devagar, atrás do lento caminhar do gado, que marchava à toa, parando às vezes, e pondo no pasto seco os olhos tristes, como uma agudeza de desesperança.

3) Conceição passava agora quase o dia inteiro no Campo de Concentração, ajudando a tratar, vendo morrer às centenas as criancinhas lazarentas e trôpegas que as retirantes atiravam no chão, entre montes de trapos, como um lixo humano que aos poucos se integrava de todo no imundo ambiente onde jazia...

É a homenagem que prestamos à memória de Rachel de Queiroz.


LOUVAÇÃO

Rachel de Queiroz já foi homenageada de todas as maneiras. Só faltou mesmo o Prêmio Nobel de Literatura. Ao completar os seus primeiros 90 anos, em novembro de 2000, essa omissão foi ressaltada. Rachel foi membro do Conselho Federal de Cultura; ganhou o Prêmio Camões de Literatura (93); é autora de diversas obras-primas do romance brasileiro. E bota “etecétera” nisso, inclusive um bosque com o seu nome em Israel. Ao ser homenageada na ABL, como sempre a contra-gosto, explicou de forma original porque se disse adoentada, nos últimos tempos: “É para me livrar dos chatos!” Porque doença, mesmo, ela não tem nenhuma. Está cheia de planos, como me contou num domingo à tarde, iluminada pelo entardecer do Leblon.
Considerada a primeira dama da literatura brasileira, Rachel não ligava pra essas coisas. “Vou levar comigo?”, perguntava me olhando com curiosidade. E depois quis saber se estou escrevendo. Quando lhe conto a idéia de um novo ensaio, dessa vez sobre o Talmud, que ela conhece bem, fica entusiasmada, como se fosse co-autora. Só faz uma recomendação: “Não se afobe. Escreva devagar. Boas obras não são escritas com pressa.” Comentamos o lindo artigo de Joel Silveira na Revista Nacional: Rachel é Rachel. “Adulta e moça ao mesmo tempo, Rachel sempre se deu muito bem com o tempo, e o tempo dá a ela o que ela pede. Pensando bem, não é Rachel que vê o tempo passar, é o tempo que vê Rachel passar. Existe entre os dois uma espécie de comunhão, de acordo secreto, só conhecido dos dois.” Em seguida, o grande romancista sergipano reclama que o Governo não se lembrou de homenagear a autora de “O Quinze”, nem as Casas do Congresso tiveram qualquer pausa nas suas às vezes embaraçosas discussões, para lembrar que a representação do povo inclui também esse tipo de homenagem. Foi falha da bancada do Ceará? É claro que Rachel pouco se importou com isso. Mas há compensações. Como o título de “doutor honoris causa”, concedido pela Universidade do Rio de Janeiro, que o faz muito raramente.

No dia 27 de novembro, Rachel de Queiroz faria 100 anos. Quis o destino que tivesse ela a sua existência interrompida no dia 4 de novembro de 2003, cercada do carinho de todos os acadêmicos e dos seus incontáveis leitores e amigos. Estava cansada, queria ir ao encontro do seu Oyama Macedo. Fiz-lhe muitas visitas. Era um prazer indizível. Ríamos muito dos causos que surgiam sem parar, na conversa de amigos. Dona de uma ironia tipicamente judaica (ela se considerava uma velha senhora sionista), usávamos o tempo a nosso favor, vivendo momentos de intensa alegria. E sempre com um gostoso sorvete de manga, que ela mesma ia buscar na cozinha, “para o meu querido afilhado”. Quando a visita coincidia com a vinda de Austregésilo de Athayde, seu quase irmão, éramos obrigados a devorar também algumas bananas deliciosas do sítio de Athayde, em Itacuruçá. Ele trazia cachos e mais cachos para a sua amiga e confidente, que morava num confortável apartamento no Leblon, no Edifício Rachel de Queiroz. Foi a trama dos dois que me levou à Casa de Machado de Assis. Fui por eles orientado o tempo todo, até que tivesse a alegria de ser eleito. Na posse, em 1984, somente Rachel de Queiroz poderia ser a oradora. A princípio, negou, alegando dificuldades de leitura (os olhos estavam cansados). Mas não resistiu, sobretudo quando eu sugeri que poderia falar bem do Vasco da Gama, seu clube do coração. Ela o fez, não sem antes desdenhar do meu amor pelo América Futebol Club. Rachel, amiga, solidária, conselheira, de caráter firmíssimo. Não quis ser ministra da República, quando recebeu o convite do seu primo, Humberto de Alencar Castelo Branco, repetindo convite anterior do presidente Jânio Quadros. “Não nasci para isso. Sou escritora, e olhe lá!”. Produziu algumas obras-primas da literatura brasileira, além de ter marcado, com o seu estilo personalíssimo, o caminho seguido por outros escritores do seu tempo, como cronista incomparável da última página de “O Cruzeiro”.

Vou-lhes contar um segredo. Eu a conheci num almoço em “Manchete”, a convite de Adolpho Bloch. Era uma cantada daquelas, para que se transferisse da revista que diminuía de importância, para a outra que subia os degraus da glória. A conversa foi cercada de respeito e simpatia. Mas os ponteiros, sabe-se lá a razão, não se ajustaram. Penso, hoje, que a própria Rachel não se sentia à vontade para abandonar o barco que a acolhera (mesmo procedimento que teve com a Editora José Olympio). Sempre votamos juntos, com exceção de uma única vez. Ela queria acolher Roberto Campos. Eu tinha um compromisso anterior. Na vaga seguinte, presidente da Casa de Machado de Assis, tomei a iniciativa de propor a candidatura de Roberto Campos. Ele titubeou, temia outra derrota, mas garanti que isso não sucederia. Corri sério risco. Ele foi eleito com 20 votos. Foi uma emoção!

Rachel, amada irmã de Maria Luíza, com a fibra de boa cearense, sempre teve uma exemplar determinação. Vou-me situar como leitor apaixonado dos romances de Rachel de Queiroz. Não sou romancista, nem crítico literário; como ensaísta pedagógico me posiciono para melhor analisar o relevo da obra da grande escritora. Rachel foi a primeira mulher a tomar posse na Casa de Machado de Assis. Só isso já é indicativo da importância da sua obra romanesca, se ela mesma não tivesse conquistado, desde a sua estreia literária, em 1930, uma colocação histórica na moderna ficção brasileira. A literatura faz parte da vida de Rachel de Queiroz como uma realidade primordial, viva. Pela sua própria ascendência, que vem, pelo lado materno, da estirpe dos Alencares, parente, portanto, do autor ilustre de O guarani, e pelo lado paterno, dos Queiroz, família de raízes profundamente fincadas no Quixadá e no Beberibe. O parentesco com José de Alencar não é apenas de sangue, mas também de espírito, uma vez que, mudadas as condições históricas, o romance de Rachel de Queiroz é também um chamado à realidade brasileira. E também transcende ao geográfico o vínculo com o Quixadá, de tantas reminiscências para a escritora. Após sua fixação definitiva no Rio, foram incontáveis as visitas a Não Me Deixes, a bucólica fazenda herdada pela escritora em Quixadá, no sertão cearense.

Pode-se considerar, à distância, em alma imaginativa, em inteligência criadora, o que foi este meio no qual cresceu e se formou a escritora. Naquela casa onde se lia muito, seu pai gostava de ler Camões, Castro Alves, Guerra Junqueiro e, como era de se esperar, páginas de José de Alencar, enquanto sua mãe, contou-nos Rachel no seu discurso de posse na ABL, “sofria de uma incompreensível falta de ouvido para os poetas”, e preferia a prosa de Machado de Assis e, naturalmente, de José de Alencar. “No oitão branco, batido de luar, da velha casa de fazenda”, Rachel, ainda menina, debruça-se ao peitoril da janela e procura a lua com os olhos. “E a menina fitava a lua, fitava, esperando o transe, o repto, o santo. Encandeava-se de lua, fechava os olhos, sentia sob as pálpebras o disco branco.” Argênteo, refulgência, plenilúnio... A menina procurava diligentemente as palavras no dicionário e incorporava-as à sua posse da língua. “Foi essa a minha primeira e mais grave intoxicação poética. Tive outras depois, mais amenas, já vacinada pela leitura e pela experiência que aumentava.” Em 1915, José Américo de Almeida publicara A bagaceira, que foi o primeiro sinal de um vasto movimento ficcionista, com base no ambiente sócio-geográfico do Nordeste. Era o início do chamado “ciclo do Nordeste”. Em 1923, Gilberto Freyre, de volta do estrangeiro, encabeçava um movimento de valorização das forças regionais. Havia nesse “regionalismo tradicionalista” uma certa reação contra o modernismo do Sul e do Centro. Mas sentia-se o mesmo clima renovador e nacionalista. O movimento regionalista difundiu-se por toda a região nordestina, da Bahia ao Ceará e mais ao Norte. Seu principal resultado é a sequência de obras que, na história da literatura brasileira, constituem o “romance de 30”. Ao primeiro livro de Rachel de Queiroz seguiram-se: Menino de engenho (1932), Doidinho (1933), Banguê (1934), O moleque Ricardo (1935) e Usina (1936), de José Lins do Rego; O país do carnaval (1932), Cacau (1933), Suor (1934), Jubiabá (1935), Mar morto (1936), Capitães de areia (1937), Terras do sem fim (1944), de Jorge Amado; Caetés (1933), São Bernardo (1934), Angústia (1936), Vidas secas (1938), de Graciliano Ramos; Os Corumbas (1933) e Rua do siri (1937), de Armando Fontes; Safra (1937), de Abguar Bastos; e muitas outras, que a história da literatura brasileira registra.

A fórmula do romance do “ciclo nordestino” era buscar no ambiente social, cultural e geográfico os elementos temáticos, os tipos de problemas, os episódios, que seriam transformados em matéria de ficção. “O quinze” é um romance de fundo social, em que a autora aproveita observações da seca de 1915, que ela viu com os seus olhos de cinco anos. É o documentário enxuto e realista, que nasce para espelhar uma região de sofrimento. O ensaísta Haroldo Bruno, no seu livro Rachel de Queiroz: Crítica, bibliografia, depoimento, seleção de textos (Clássicos brasileiros de hoje, 1), registra que o aparecimento de “O quinze” foi saudado com entusiasmo pelos maiores críticos da época, como Alceu Amoroso Lima. Já convertido ao catolicismo, assim começa Tristão de Athayde a sua resenha crítica: “O romance é obra, ao que diz a autora, dos seus dezenove anos. E por um retrato publicado aqui na imprensa, e de cuja autenticidade não há motivo a duvidar, se confirma a afirmação. Sendo assim, é realmente notável a estreia. O livro possui qualidades literárias fora do comum.” A CRÍTICA


Já na opinião do poeta Augusto Frederico Schmidt, comentarista de “As Novidades Literárias, Artísticas e Científicas”, a obra se ressentiria de “alguma coisa mais para que se o possa chamar precisamente de romance”. Mas esse reparo serve antes para indicar os elementos de sóbria modernidade ou de permanência, de equilíbrio entre a herança e a ruptura, a percepção do novo que o livro trazia para os quadros da ficção brasileira, então mais ou menos estáticos, como aliás quase tudo na vida brasileira anterior à década de 30. O primeiro romance de Rachel de Queiroz representava um progresso até com relação a alguns aspectos de A bagaceira, de José Américo de Almeida, marco dessa literatura, hoje com importância mais histórica que literária. Seria uma síntese de tradicionalismo e modernidade, acima das escolas, o que daria forma à proposta estética da escritora. O crítico português Adolfo Casais Monteiro, no seu estudo “Um romance que não envelheceu” (acrescentado à edição de “O quinze”), foi “levado a pensar que a mestria de Rachel de Queiroz se deve à sua ‘inocência’: a de ter posto no papel a sua emoção sem a condicionar a uma tese, ou, sequer, à preocupação de procurar inocentes e culpados”. Ele supõe que o milagre está em que “Rachel não quis fazer literatura; e por isso o seu primeiro romance resultou na grande obra literária que ela podia fazer, posta ante a experiência que vivera fundamente no mais íntimo do seu coração”. “O quinze” não envelheceu porque a matéria da qual é feito está isenta do peso da idade: a simplicidade, a sobriedade da construção, a nitidez das formas, a emoção sem grandiloquência.

Na sua contribuição à moderna ficção brasileira, destaca-se o acervo estilístico, na linha da expressão direta e da incorporação da fala regional; o acervo temático, referente a problemas sociais como a seca, o cangaço e o êxodo sertanejo; e o acervo técnico, no sentido do processo narrativo moderno, em que a narrativa se faz pela fragmentação dos episódios. O romance “O quinze” é uma ação conduzida em dois planos, ligados pela figura central de Conceição, a qual pertence aos dois. É através da sua experiência, através do que ela sente, que os ricos e pobres confluem. Conceição é a fusão da personagem com a autora, é ela que dá autenticidade a cada um dos mundos e, tornando-os próximos, evitando a conhecida divisão entre “bons pobres” e “maus ricos”, nos faz sentir, num plano muito superior, a igual inevitabilidade do drama. As classes não existem em fórmulas sublinhadas pela romancista, mas no irremediável das coisas, na espontaneidade dos próprios fatos, quer eles sejam exteriores ou interiores, quer se passem à escala dos grupos ou à de cada indivíduo. Desde cedo também Rachel deixou-se levar para a crônica, gênero em que ela conciliou “a literatura e o jornalismo profissional, a arte e o meio de vida”. A cronista, aliás, nascida estava em alguns dos quadros e em inúmeras situações de “O quinze”. O poder de observação, a linguagem direta, a capacidade de testemunhar, de participar. A crônica – inspirada no acontecimento imediato, e por isso mesmo jornalístico – não contraria as constantes literárias da sua ficção. A preocupação social está sempre presente. A personagem da crônica dispõe de caracterização como no romance e na peça de teatro – a que Rachel também se dedicou. NA CRÔNICA


Em relação à crônica, Rachel mostrou-se de uma constância a toda prova. Há mesmo quem diga que a cronista talvez tenha sido “a inimiga da romancista”, e que o romance brasileiro só teria a ganhar se ela lhe tivesse consagrado exclusividade. A verdade é que a literatura brasileira enriqueceu-se com milhares de crônicas de Rachel, ao longo de quase 70 anos, cuja seleta propiciou a edição dos seguintes livros: A donzela e a moura torta (1948); 100 crônicas escolhidas (1958); O brasileiro perplexo (1964); O caçador de tatu (1967); As meninas e outras crônicas (1976); O jogador de sinuca e outras historinhas (1980); As terras ásperas (1993). Dois anos depois de sua estréia literária, Rachel publicou “João Miguel”. É também um romance regionalista, embora com aspectos de universalidade. Com ele, há uma mudança de perspectiva na visão de mundo da escritora, que passa a enfocar experiência psicológica mais densa. Mas podemos admiti-lo como uma extensão de “O quinze”, porque a sua grande preocupação, humana e social, é ainda a fixação do mundo nordestino. O drama da seca rural, em sua agressividade, tem nesse romance a complementação da pobreza urbana. Sobre ele escreveu, em 1958, Alceu Amoroso Lima:

“É a mais simples das narrativas: um crime e uma absolvição, e entre eles uma traição de amor. Mas o que se passa na alma simples de João Miguel, criminoso sem querer, arrastado por simples impulso de momento sob a ação do álcool, é que mostra a mão da autêntica escritora.” Os personagens vivem o seu próprio destino, sem que a autora se faça presente. Simplesmente narra e, mais uma vez, denuncia a tragédia da prisão e da justiça para os pobres do Ceará. O romance “Caminho de pedras” apareceu em 1937. A temática é mais ampla, de cunho social, de luta por uma sociedade melhor, com melhor qualidade de vida para todos. Sem ser feminista, no sentido estreito da palavra, Rachel denunciava também a inferioridade social em que é tida a mulher.

Fechando o círculo, em 1939, saiu o romance “As três Marias”, em que surgiu a pequena sociedade burguesa na comunidade provinciana. Como os anteriores, é um romance de vida, de pessoas que lutam e sofrem, como que presas a um destino inexorável. Traz reminiscências dos anos de formação no Colégio Imaculada Conceição, onde “Rachel de Queiroz se integra, cria laços de amizade, inclusive com as irmãs, estuda, mas, igualmente se dedica aos divertimentos com as colegas e dá-nos, com As três Marias, um depoimento e uma criação em que qualquer ressentimento ou denúncia se dissolve no impulso de confiança, na capacidade de se afirmar do personagem-Narrador.” (Haroldo Bruno, ob. cit., p. 101.) Excluindo O galo de ouro, romance aparecido sob forma de folhetim em O Cruzeiro, Rachel voltou ao romance bem mais tarde, no início da década de 70, com Dôra, Doralina, após longa interrupção. Também este romance tem na criatura humana de todos os dias a própria razão de ser da ficção. Nele predomina a veracidade, a descrição física de cenários e ambientes, além da caracterização das personagens como se fossem gente de registro civil. O exemplo maior é a própria Dôra, ou Doralina, vivendo, amando, sofrendo, como personagem e como símbolo e imagem da própria condição humana. Segundo o ensaísta Haroldo Bruno, “esse romance contém, por baixo do seu elevado nível de realização, tais premissas criadoras, tal leque de possibilidades inesperadas, força tão grande para inventar e dizer, que ao escrevê-lo Rachel de Queiroz se confirma e se inaugura novamente, ficcionista que ocupa um espaço imenso em nossa literatura, cujo material é o homem com suas paixões, seus gestos de grandeza e de miséria dentro da vida. É a realidade humanizada e tocante, pois, como dissemos, a criação literária jamais será, para a Autora de Dôra, Doralina, um exercício de retórica. Seu discurso é o reflexo da problemática que ela descobre e vive e de que nos fornece agora uma prova de rara vitalidade artística”. (Haroldo Bruno, ob. cit., p. 86.) O romance foi lançado em 1975, com imenso êxito. Dois anos depois, Rachel assumiu uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Seria, então, consagrada como a primeira-dama da literatura nacional. No discurso de saudação a Rachel de Queiroz na Academia, em 4 de novembro de 1977, Adonias Filho, que além de romancista da mesma seara de Rachel era um crítico literário competente, sobretudo do romance de 30, mostrou em palavras indeléveis a relevância de Rachel de Queiroz na literatura brasileira:

“Os grandes recursos, responsáveis pela continuidade da atmosfera ficcional em todos os romances e todas as peças, têm aí sua origem. Concentra-se o drama da seca, e a estória de alguns, convertendo-se em estória de todos, expõe o sofrimento e a piedade em sua projeção maior que é a dos dias comuns. No fundo da desolação, há vida nos corpos e nas almas. Articulam-se os quadros, e a realidade literária torna-se um mundo animado.” A lembrança do nome de Adonias Filho vem a propósito também porque ele foi um dos mais diletos amigos de Rachel. Durante muitos anos, formavam, juntamente com Octavio de Faria, uma espécie de trindade. Diariamente encontravam-se na cidade. Conversavam de tudo. Adonias era o crítico de plantão, de quem os outros esperavam o julgamento dos livros e artigos que saíam, porque era o mais sensato e eclético nas leituras, além de ser o crítico profissional do Diário de Notícias.
Após o romance de 30, o sertão renasceu nos anos 50, na obra de Guimarães Rosa. E renasceu outra vez em 1992, em O memorial de Maria Moura, que o apresenta na sua geografia nordestina e o capta no seu momento mítico por excelência. Nele, Rachel traz de volta certas constantes de sua ficção. Há de novo uma heroína sentimental e sexualmente reprimida, insatisfeita ante a situação de inferioridade da mulher; a personagem vai se revelando aos poucos pela ação e pela introspecção; a gradativa exposição dos problemas sociais se opera pelas circunstâncias da narrativa e não pelas observações do narrador, ou narradores.


TANTOS ANOS

Rachel de Queiroz, dona de uma prodigiosa memória e de uma alegria inesgotável, acabou cedendo à pressão da sua irmã Maria Luíza e de alguns amigos. Escreveu, em parceria com a mana, o livro “Tantos Anos”, que saiu em setembro de 1999, pela Editora Siciliano.

São recordações, mais que memórias, em que a escritora lembra a sua militância política (“fui comunista por 24 horas; quando o Partido quis interferir na minha obra, caí fora”), a conspiração de 64 (“Castelo Branco tinha horror à palavra ditadura”) e algumas peripécias da carreira literária, como a tremenda surra que deu num crítico do Ceará quando foi injusto com “O quinze”: “O desgraçado chegou a dizer que o livro tinha sido escrito pelo meu pai. Bati nele até quebrar a sombrinha. Nunca mais escreveu uma linha a meu respeito”.

Padre Cícero, Jânio Quadros, Graciliano Ramos, Dom Hélder Câmara, Adonias Filho, José Olympio, Gilberto Freyre e o grande amigo Austregésilo de Athayde são citados em “Tantos Anos”, como personagens que fizeram parte da sua vida.
Seus romances foram escritos sob o signo da defesa da liberdade, ou antes, da sua carência. Por isso, suas criaturas romanescas cedem a esse apelo permanente, constante, do romance de Rachel de Queiroz, que lhe dá uma unidade intrínseca, sugere um problema ao mesmo tempo social e existencial, e a esperança de sua superação. EVOCAÇÃO A RACHEL


De Bandeira, a louvação primeira,
Verso especial para a nossa Rachel,
Que a tudo dedicou atenção inteira
Antes mesmo de ir para o céu.

O coração pleno de saudade
Movimenta até o João e a Maria
Numa ação que não conhece idade
Faz da qualidade sua garantia.

Rachel, de “O Quinze”, uma obra-prima,
Que em “Maria Moura” se retratou
Usou prosa não usava rima,
A inspiração do Nordeste, que tanto amou.

Quando desabrochou Dora, Doralina,
Já mestra em literatura,
Era moça, não era menina,
Imaginou o ofício e a vida futura.

Foi a primeira a entrar para a Academia
Quando era clube masculino a Casa de Machado
Trouxe luz e muita simpatia
E assim exerceu o seu reinado.

Arnaldo Niskier


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