Palestra - JK - Um agrande empreendedor?- Arnaldo Niskier

“Coube a mim levar a efeito a audaciosa tarefa. Não só promovi a interiorização da capital, no exíguo período do meu governo, mas, para que essa mudança se processasse em bases sólidas, construí, em pouco mais de três anos, uma metrópole inteira – moderna, urbanisticamente revolucionaria, que é Brasília.”

Juscelino Kubitschek


CIEE/Rio, Jornal do Brasil e Casa Brasil.

Rio de Janeiro, 22 de outubro de 2009.


A escritora romena naturalizada alemã Herta Muller ganhou agora o cobiçado Prêmio Nobel de Literatura 2009. Numa das suas obras que remonta à infância, aborda os varredores de rua. E diz: “Qualquer facho de luz, qualquer fio de esperança das pessoas em encontrar um caminho que os conduza para uma nova vida, deve ser varrido. Os varredores varrem a cidade para outro lugar.”

Por desígnios incompreensíveis, ao ler este conto lembrei-me de JK. Metaforicamente, podemos afirmar que ele, com a sua coragem, varreu a capital brasileira para o interior do país. Tinha uma explicação clara: “Coube a mim levar a efeito a audaciosa tarefa. Não só promovi a interiorização da capital, no exíguo período do meu governo, mas, para que essa mudança se processasse em bases sólidas, construí, em pouco mais de três anos, uma metrópole inteira – moderna, urbanisticamente revolucionária, que é Brasília.” No julgamento dos homens de hoje, seria Juscelino Kubistchek de Oliveira um autêntico empreendedor? O empreendedorismo pode conciliar noções de audácia com algum espírito de aventura? E de que forma a educação nacional pode se beneficiar desse movimento que hoje tem nítidas características de modernidade?

Vamos, primeiro, analisar alguns números ou fatos que fazem os educadores perderem o sono. A responsável é a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE, divulgada em outubro de 2009. Se não vejamos: Temos hoje cerca de 14 milhões de analfabetos acima dos 15 anos;

Entre os jovens de 18 a 24 anos, apenas 37% finalizam o ensino médio; Apenas metade dos jovens de 15 a 17 anos frequentam o ensino médio;

Somente 13,9% de jovens cursam o ensino superior; 45% dos brasileiros com mais de 15 anos têm menos de oito anos de estudo;

O analfabetismo funcional é muito elevado; A expectativa de vida cresceu para 73 anos em média e não há projetos expressivos de atendimento a idosos na rede pública.

A esses fatos podemos somar o conhecimento de que faltam 300 mil professores no sistema de ensino, especialmente os de Matemática, Física, Química e Biologia; a formação de professores, em geral, é muito deficiente e a sua remuneração, apesar de reiteradas promessas oficiais, é abaixo da crítica. Com o quadro enunciado, recorrer ao empreendedorismo é uma solução inteligente. Ele cria mais motivação e o impulso de melhorar, rompendo o comodismo dos que resistem às necessárias inovações. Aprendemos muito com o economista Joseph Schumpeter, que estuda a matéria e oferece subsídios preciosos desde 1950. Assim passamos a nos preocupar com geração de ideias, busca de oportunidades, plano de negócios e planejamento estratégico, na busca de bons resultados. Quando juntamos responsabilidade e compromisso, além do talento indispensável, pode-se esperar a existência de bons resultados, que se medem pelo sucesso nas ações ligadas ao empreendedorismo.


A DEFESA DO EMPREENDEDORISMO

“Um novo modo de pensar e viver não vem de graça. Ele tem um grande valor e só pode ser adquirido com grande esforço e paciência.” Não acreditamos que o grande escritor russo Fiodor Dostoievsky, que viveu entre 1821 e 1881 e que foi autor do clássico “Os Irmãos Karamazov”, ao pensar desta forma, enunciada acima, tivesse em mira os fundadores do empreendedorismo. Mas que parece, parece. Porque é uma nova maneira de pensar e viver – e que tem o seu valor enriquecido pelo esforço e paciência.

Quando esteve em São Paulo, na Universidade Anhembi-Morumbi, o ex-presidente Bill Clinton fez uma candente defesa do empreendedorismo, segundo ele “uma enorme promessa para o futuro!” Lamentou que, no mundo, milhões de crianças deixam de ter acesso a escolas e professores e cerca de 1 bilhão de pessoas vivem com menos de um dólar por dia. Foi bem objetivo nas suas previsões: “Quero que os jovens do mundo cresçam de forma pacífica, próspera, fazendo história. Daqui a meio século a expectativa de emprego poderá crescer até os 100 anos, reduzindo drasticamente a desigualdade. Como fazer?” perguntou o líder norteamericano, que concluiu: “A resposta será dada por vocês!” — e apontou para as dezenas de alunos presentes. Foi aplaudido de pé. No Brasil há a opinião generalizada de que o treinamento de pessoal dá um excelente retorno. Pesquisa do Sebrae nacional revelou que houve progressos expressivos nos setores de comércio, serviços, indústria e construção, embora os nossos padrões educacionais ainda estejam muito a desejar. Ações positivas como as do CIEE são benvindas, se considerarmos uma visão estratégica nos nossos níveis de desenvolvimento. Melhora a taxa de sobrevivência das pequenas, micro e médias empresas – e quanto maior o treinamento dos funcionários melhor a chance de resultados apreciáveis. Devem ser muito bem escolhidas as áreas que mais ajudam a empresa a competir com chances concretas de sucesso.

Como vivemos no Rio de Janeiro, o seu futuro é a nossa prioridade. Deve-se assinalar o “boom” previsto para o seu crescimento industrial, com reflexos em toda a sociedade. Teremos o Pólo Petroquímico de Itaboraí, a siderúrgica da CSA em Santa Cruz, a retomada da usina nuclear de Angra 3 e o complexo portuário da MMX no norte fluminense, todos exigindo maior especialização. A performance do CIEE/RJ é apreciável, procurando preencher todos os espaços disponíveis. Veja-se do que é capaz uma instituição filantrópica, de assistência social, sem fins lucrativos. Os jovens estão sendo inseridos em estágios e treinamentos em organizações públicas e privadas. Em 46 anos de existência, 500 mil estudantes foram atendidos só no Rio de Janeiro, onde hoje fazem estágio cerca de 25 mil estudantes. Esses estágios estimulam a cultura do empreendedorismo. Nunca esteve tão em voga o que chamamos de educação permanente ou educação continuada, no recrutamento e capacitação de novos talentos. E para isso se pode utilizar a modalidade da educação à distância.

Há necessidade de uma grande mobilização nacional de valorização da política de estágios e do programa do aprendiz legal, a partir de uma nova educação como fulcro essencial. Devemos utilizar novas tecnologias para a expansão do número de multiplicadores e a formação de líderes a baixo custo, para que se amplie o seu número. E logo haverá um programa de orientação profissional para filhos de funcionários de grandes empresas, fechando o círculo virtuoso da missão a que se impôs o CIEE/RJ: “Capacitar jovens e líderes, com educação criativa, inovadora e continuada, para vencer os desafios profissionais da Sociedade do Conhecimento.”


A MISSÃO DOS ESTÁGIOS

O Rio de Janeiro vai sediar uma Olimpíada e há educadores superados que não se conformam com o sentido competitivo que, por vezes, a educação adquire. São contrários, por exemplo, à ideia de conceder medalhas aos primeiros colocados, o que nos parece um contrassenso. Uma das boas características da educação é a prevalência do mérito, que hoje sofre um abalo pela discutível questão das cotas universitárias. Se há mérito deve existir reconhecimento. Sentimos a falta de um bom banho de modernidade, na educação brasileira. Estamos aferrados a conceitos ultrapassados, como ouvi de alguns “conceituados” especialistas: “O sr. não deve insistir em promover a competição entre os alunos. No mundo desenvolvido, ensina-se a competir – e isso não está fora do conceito de empreendedorismo – Aqui se desenvolve uma dinâmica inversa.

Se pensarmos a escola como empresa, embora com a ressalva de que os seus produtos são seres humanos, os incentivos para alunos e professores são até aconselháveis. Dar livros ou aumentar salários e vantagens são altamente defensáveis, o que deve ser feito sem susto – e de modo seguro. Se é assim, por exemplo, em cidades avançadas, como vimos em Seul e Nova Iorque, por que temer essa forma de atuar? A busca da excelência precisa ser a preocupação número um dos envolvidos no processo de educar. Os professores também devem ser avaliados por intermédio de notas, sejam ou não pertencentes aos quadros públicos. É a melhor maneira de fazer justiça. O choque de modernidade pode – e muito – ajudar os diretores de escolas a administrar de modo adequado o seu estabelecimento. As que tivessem o conjunto das melhores notas seriam premiadas com maiores recursos financeiros, como hoje ocorre nos Estados Unidos. Assim será possível estimular ainda mais o aperfeiçoamento de bibliotecas e laboratórios, num processo irreversível de crescimento. É uma forma de combater a evasão, a repetência (por desinteresse), a violência crescente e até mesmo promover, como se pede no ensino superior, a redução do excessivo número de alunos nas salas de aula, seja em que nível for. Será uma forma inteligente de valorizar, na educação, o que se entende por empreendedorismo, no seu aspecto mais sensível.

Queremos ainda fazer uma última referência. Voltado para facilitar às empresas o cumprimento da lei no 10.097/00 (Lei da Aprendizagem), o Programa CIEE Aprendiz deve ser mencionado como forma de tratar adequadamente o problema. Possibilita aos jovens o desenvolvimento de competências básicas para o trabalho e para a cidadania, com o treinamento técnico-profissionalizante. O dispositivo legal estabelece uma cota obrigatória de participação das empresas no processo de profissionalização de adolescentes e se pode afirmar que combate com vigor o quadro de desesperança hoje vivido na cena pedagógica. Se 9 milhões de estudantes receberam até hoje estágios e auxílios do sistema CIEE, parece chegada a vez de cuidar igualmente do aprendiz, que exige a idade mínima de 14 anos. São adolescentes que cursam o ensino fundamental ou médio, para exercer atividades diárias que não podem exceder 6 horas, nelas incluídas as atividades teóricas e/ou práticas. Esse limite poderá chegar até 8 horas se os aprendizes tiverem concluído o ensino fundamental. Não se pode afirmar que seja uma forma de burlar a sociedade, com o emprego de mão-de-obra barata. O contrato será sempre por prazo determinado, nunca superior a dois anos, com registro e anotação na carteira de trabalho. O aprendiz feliz fará jus ao 13o salário e a todos os benefícios concedidos aos demais empregados. Para que não haja prejuízo nos estudos, as férias serão comuns às que existem nas escolas. A empresa deve sempre levar isso em conta.

Assim se garante a inclusão social com empregabilidade, sendo as empresas limitadas ao número de aprendizes equivalente a 5% (mínimo) e 15% (máximo) de trabalhadores existentes em sua folha. Assim, ela poderá ganhar três vezes: como empregadora, como educadora e como empreendedora.

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