Palestra - Magistério, conforto e pertinência- Arnaldo Niskier

Secretaria Municipal de Educação
Campos dos Goitacazes – março de 2009


Para uns é acomodação; para outros, conforto. Quando se aborda a questão do magistério, crucial na educação brasileira, nenhuma das opções pode ser desprezada. Sabe-se que vivemos grandes dificuldades na área, que vão desde a formação precária até a pouca valorização profissional, o que causa inevitavelmente um grande desestímulo. A consequência desse estado de coisas é a deterioração do status social da categoria, o que precisa ser reconquistado de qualquer maneira. Devemos reagir contra a acomodação e também o comodismo da permanência na chamada zona de conforto, uma inimiga da criatividade construtiva. Rotinas devem ser sacudidas, sobretudo em tempos de crise econômica.

Psicólogos de orientação moderna aconselham a sair da concha, lutar contra a aparência de um conforto estéril, que não contribui para o aperfeiçoamento pessoal nem o progresso mais amplo. Por isso, John Maxwell (in “O livro de ouro da liderança”, de Thomas Nelson do Brasil, Rio, 2008) afirma que “O líder deve desafiar seus liderados a sair da zona de conforto, mas nunca da área em que são mais fortes.” Entendemos o professor como um líder que precisa ampliar seus horizontes, sem perder o foco da tarefa de educar, que é a célula-mater da sua atividade. Um segundo conceito que se impõe é o da pertinência. Para melhor compreender a sua importância, vamos tomar emprestado alguns elementos da Matemática, a notável ciência do raciocínio. Vejamos o que pode representar a equação y=f(x). Se x é a variável dependente, por exemplo, o professor, y é a educação de qualidade, ou seja, ela será uma função de x. Para sermos claros, bons professores significarão melhor educação no sistema, numa relação direta.

Como melhorar a performance dos professores? Aqui entra a condição de pertinência, que tomamos emprestado da Matemática. Relacionamos um elemento com um conjunto. Tal elemento pode pertencer ou não ao conjunto. Para isso empregamos símbolos universais:  (pertence);  (não pertence)

Onde queremos chegar? O conjunto A é constituído de 5 elementos, que são os professores da escola. Vejam o diagrama de Venn:


Mário Ana A Celso Célia Sônia
A = {Mário, Ana, Celso, Célia Sônia}
A é um conjunto cujos elementos são os professores Mário, Ana, Celso, Célia e Sônia.
Mário  {Mário, Ana, Celso, Célia, Sônia}
Armando {Mário, Ana, Celso, Célia, Sônia}
Ou seja, Armando não pertence a esse conjunto. Ele é engenheiro.
O que desejamos provar? Se 5 professores pertencem ao conjunto A, eles estão unidos por serem do mesmo conjunto, e exercerem também a mesma profissão: o magistério. E mais: aqui entra o que nos parece essencial. Para pertencer a esse conjunto, cujos elementos têm os mesmos propósitos, é essencial que haja uma vontade comum, o mesmo espírito de vencer as dificuldades, para que se alcance bons resultados. É o conceito de pertinência que aflora, um sentimento de dentro para fora, que deve prevalecer no espírito de cada professor desse conjunto. Se a pessoa não estiver identificada com idênticos objetivos, torna-se um elemento estranho, não terá como trazer valor agregado ao sistema. Melhor seria que fosse classificada com o símbolo  (não pertence). O que defendemos é a prevalência de um espírito de coesão, de colaboração e de harmonia. Na escola, principalmente entre os professores, para que a missão de se alcançar o ensino de boa qualidade se torne vitoriosa.


O PROFESSOR IDEAL

Estamos vivendo uma curiosa fase dos “quase”. O escritor Carlos Heitor Cony lançou o seu “Quase Memória”, para muitos uma obra definitiva. Depois, tivemos o “Quase Danuza”, em que a jornalista desnuda suas dores e alegrias, pessoais e profissionais, pormenorizando sobretudo os históricos casamentos com Samuel Wainer e Antônio Maria.

Saímos da literatura para alcançar a educação. E, nela, abordamos o professor quase ideal. Não se conseguiu até hoje chegar ao mestre perfeito, sobretudo no período em que há transformações diárias na vida de cada um de nós. Se tivéssemos o professor ideal seria fácil promover a sua clonagem, com os recursos científicos e tecnológicos existentes. Não faltariam bons e categorizados mestres. A perfeição existe no domínio divino. Ainda não é uma conquista à mão dos pobres mortais. E a clonagem está submetida a uma alentada discussão a respeito de valores éticos, no caso de se referir a seres humanos (inteiros ou aos pedaços). Isso ainda vai render muita polêmica. Queremos trabalhar, no sistema de ensino, com o professor quase ideal. Com qualidades e virtudes especiais. Quando se aborda o professor envolve-se igualmente o especialista. Não há melhor momento para essa indispensável virada. O MEC anuncia uma grande transformação nos cursos de Pedagogia, o que abre esperanças concretas de benefícios ao magistério brasileiro. Em muito boa hora, pois a isso se sucederia algum aumento salarial.

A tecnologia avançada derruba saberes antigos – e com velocidade supersônica. O professor de hoje não é o sábio de antigamente. Na década de 50, por exemplo, convivemos com mestres, na então Universidade do Distrito Federal (UDF), quase inacreditáveis. Eram preparadíssimos nas suas cátedras, mas respondiam às questões de Filosofia, História, Religião como se fossem responsáveis por essas matérias. Infelizmente, esse conhecimento universal não mais se concentra na mesma pessoa. Vivemos a época dos especialistas, em que o maior empenho é a construção de competência, em nosso caso tomando como referência a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei no 9.394/96). Desde que por aqui passou, em 2001, o sociólogo suíço Phillipe Perrenoud deixou-nos a idéia de que o eixo de saber do professor foi transferido do conhecimento sobre as disciplinas ensinadas para a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos (saberes, capacidades, informações), a fim de solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações. O assunto foi desenvolvido no livro “As competências para ensinar no século XXI”, do autor citado e outros, Editora Artmédia.

Com a complexidade da relação ensino-aprendizagem, o professor se tornou não apenas o transmissor de conhecimento, mas o executor de atividades extraeducacionais. Com um ponto essencial. Como a aprendizagem agora é para sempre, o cotidiano passou a ter um imenso relevo, com requalificação contínua. Sugere-se o trabalho em equipe, dada a natureza multidisciplinar dos conhecimentos, e a reintegração dos estudos em psicologia, sociologia, biologia, ética, política, filosofia, religião, legislação, planejamento, marketing, gestão financeira e do conhecimento – e assim se terá o pretendido novo curso de Pedagogia, que deixará as habilitações em administração, supervisão, inspeção e orientação para o nível de pós-graduação, quando os professores já deverão ter experiência de magistério. Assim, o professor quase ideal precisa ter uma série de qualidades como as que foram listadas com propriedade pela revista “Educação”, depois de ouvir diversos educadores: compromisso com o ensinar; saber contar histórias; promover situações significativas de aprendizagem; mediar problemas e conflitos; servir de exemplo; enxergar o conhecimento de forma não-fragmentada; saber trabalhar em equipe; ampliar o próprio repertório cultural; ter conhecimento teórico sobre grandes áreas do saber, para além da didática e da pedagogia; entender o aluno; estar aberto ao novo, mas com critério; estar preparado para ser o elo de comunicação entre família e escola; saber gerenciar a sala de aula; aprender a aprender (filtrar o que é relevante); entender o papel da TV e da internet; ter competência para ser orientador e também conselheiro.


A COMPETIÇÃO ENTRE O LIVRO E O COMPUTADOR

Hoje, na realidade brasileira, existe a figura do aprendiz legal, abrangendo jovens dos 14 aos 24 anos de idade (incompletos), que têm seguras oportunidades de trabalho, sem as distorções de um regime livre e descosturado. O Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), com a tradição de mais de 45 anos de fecunda existência, comanda esse processo de forma competente, sem visar a lucro, pois é uma entidade de finalidades filantrópicas. O nome aprendizes provém da Idade Média. Eles realizavam o seu aprendizado junto a um artesão experiente, que era o mestre, ouvindo seus ensinamentos (considerava-se a palavra de ouro, na época) e executando tarefas que o habilitariam futuramente a também tornar-se artesão. O mestre tinha o compromisso de ensinar, abrigar e sustentar o aprendiz – e até de tratá-lo como se fosse um filho. Ao aprendiz, cujo pai pagava os estudos, cabia dedicar-se com devoção ao trabalho, para que um dia se tornasse mestre, dotado de capacidade técnica e moral. Vivemos outros tempos, mas os fundamentos permanecem os mesmos. A revolução escolar é uma utopia sempre buscada, como se viu no debate promovido pela Academia Brasileira de Educação, no Rio, com a Secretária Municipal de Educação, Cláudia Costin. Concluíram os presentes, entre os quais o acadêmico Eduardo Portella, que a educação é uma política de Estado e não de Governo, visando à aprendizagem qualitativamente aperfeiçoada.

Como o Rio é uma cidade de leitores, sugeriu-se que cada escola tenha o seu projeto de salas de leitura, mas há um fator negativo que impede esse processo de evoluir com a rapidez devida: 60% dos professores da rede municipal não têm o gosto pela utilização de livros. A pergunta que ficou no ar foi clara: como levar essa paixão aos alunos, de um modo geral? Lembrei-me do que vi no Japão, numa visita às suas principais bibliotecas públicas: os pais acompanham o interesse dos filhos pela leitura, que se tornou um hábito diário, não apenas na escola, mas também em casa, sobretudo antes de dormir, de forma sistemática. Se gostam de determinada história, solicitam a sua repetição, até que aquilo se fixe no cérebro de cada jovem. No dia seguinte, na escola, o trabalho da professora é grandemente facilitado. Entre nós, estamos vivendo a falsa prevalência do computador. Pais e algumas autoridades não ligam para os livros, que são elementos insubstituíveis de cultura. Muitos pensam que a adesão das crianças ao fascínio da telinha é suficiente para lhes assegurar o futuro. Computador na escola, computador em casa. A relação binomial de pais e filhos vai sendo esgarçada, o que pode perfeitamente provocar o que o ex-ministro Eduardo Portella chamou apropriadamente de “anorexia cultural”. Quando determinados sistemas educacionais compram 58 milhões de reais de computadores e nenhum livro, durante um ano inteiro, isso é revelador de uma incúria que não pode dar bons resultados. Deve existir uma perfeita harmonia entre educação e cultura, para que se alcance a qualidade desejada no ensino.

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