Palestra - Políticas públicas em Educação: Como alcançar uma gestão eficaz - Arnaldo Niskier

Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviço e Turismo
Rio de Janeiro, 19 de outubro de 2010.


DO GENOMA ARTIFICIAL À EDUCAÇÃO DO FUTURO


Estamos vivendo momentos incríveis, com repercussão em todos os campos do conhecimento. A educação, forçosamente, sofre os efeitos dos chamados “novos tempos”. Acaba de ser criada a primeira célula viva controlada por um genoma artificial. O feito do cientista americano Craig Venter, o mesmo que em 2000 descobriu o sequenciamento do genoma humano, trará consequências na geração de biocombustíveis, na retirada de poluentes da atmosfera e na produção muito mais rápida e eficiente de vacinas. Não se pode deixar de considerar a vida artificial sem uma grave preocupação com os princípios da bioética, que é essencial no fascinante e desenvolvido campo da genética. Craig Vener não é o novo Deus da vida sintética, mas deve ser visto como o gênio que abre, para a humanidade, uma era de espetaculares conquistas para o aperfeiçoamento da nossa existência, digo nossa porque pode alcançar a atual geração de que fazemos parte. Essa conquista nasce sem mãe, mas o pai certamente é o computador.

Como a educação ficará de fora desses avanços? Outro dia, um professor parou diante de um celular e disse, pausadamente: “Dona Ruth, residência.” O aparelho fez a ligação sem qualquer interferência das mãos do seu proprietário. Reconheceu a voz do usuário. É muito progresso – e a educação não poderá deixar de acompanhar essas notáveis conquistas. Se a educação do futuro nos reserva surpresas positivamente agradáveis, em matéria de auxílio aos professores, no presente estamos nos estruturando para enfrentar os desafios da gestão pública. Em São Paulo, numa parceria do Centro de Estudos e Pesquisas de Administração Municipal (Cepam) e a Rede Paula Souza, que administra 162 escolas técnicas estaduais (Etecs), criou-se a primeira Escola Técnica Regular de Gestão Pública do país, com a finalidade de formar adequadamente os técnicos em administração pública, num curso de ano e meio, com alunos que estejam no mínimo na segunda série do ensino médio.

A origem do projeto foi a verificação de que há uma grande escassez de técnicos de nível intermediário para operar em administração pública, nas prefeituras paulistas. A Etec-Cepam tem o seu foco voltado para a prática, ensinando os alunos a conhecer de perto os mistérios do mercado de trabalho. Prevê-se que no prazo de até um ano depois da conclusão do curso, com certeza, cerca de 80% dos alunos poderão estar empregados. Nesse retrato de corpo inteiro da educação brasileira, que estamos procurando apresentar, vale a pena referir à opinião do representante da Unesco no Brasil. Segundo Vincent Defourny, “a apatia dos estudantes está diretamente relacionada à baixa qualidade do ensino e à necessidade do jovem de começar a trabalhar mais cedo.” É por isso que a taxa de evasão dos estudantes de 17 e 18 anos, mesmo nos grandes centros, está em torno de 43%, até porque o currículo de 12 matérias, sem o caráter de multidisciplinaridade, que é essencial, tem tornado as aulas quase insuportáveis. A intenção do Governo federal, expressa no Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), é altamente louvável, com recursos que estão sendo repassados, há cerca de três anos, para a construção de creches (poucas), a compra de ônibus escolares, a reforma e modernização de escolas estaduais e municipais, a ampliação da rede federal de educação profissional e a tentativa de implementação do piso salarial dos professores (em São Paulo, para 40 horas, é de 1.835 reais, cerca de 80% superior ao piso nacional de salários do governo federal). Discrepâncias que são usuais em nosso sistema de ensino. Um aluno que mude de escola ou saia de um estado para outro, sentirá enorme diferença, mesmo no setor público.


O QUE FALTA É VONTADE POLÍTICA

Discute-se hoje no Brasil o que são políticas públicas. Há uma pletora de significados, o que é compreensível, dada a diversidade cultural do nosso país. Uma coisa é certa: o emprego dos recursos financeiros disponíveis, que ainda são escassos, se faz de forma confusa. Querem um exemplo? Nada menos de 21 estados brasileiros deixaram de aplicar R$ 1,2 bilhão de reais no ensino básico, em 2009. A acusação é do Ministério da Educação. Esses recursos não foram repassados ao Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica). Foram desviados para outras atividades, possivelmente menos prioritárias.

Não é pouco dinheiro: no Rio foram 28 milhões, mas em São Paulo a irregularidade foi superior a 600 milhões. Se isso acontece e é denunciado publicamente, pode-se inferir que a perda é da própria educação, no seu conjunto, pois estremece a convicção de que a principal prioridade do nosso país estaria isenta de equívocos lamentáveis. Devemos louvar o esforço do Ministro Fernando Haddad. Ao falar no “Seminário Internacional de Avaliação de Professores da Educação Básica”, no Rio de Janeiro, foi bastante enfático na defesa da cultura da avaliação, de que andamos divorciados por tanto tempo. Mostrou que o Ideb representa um avanço considerável, com a radiografia, hoje, de 50 mil escolas e mostrou, sob aplausos, que “Não há boa educação sem professores altamente qualificados.” É claro que isso também envolve salários compatíveis com os de outras profissões. Por essa razão, o MEC criou, de forma inteligente, as Bolsas de Iniciação Docente, que este ano chegarão ao número de 20 mil. É uma reação que não pode passar despercebida.

As políticas públicas devem ser transparentes, para que sejam apoiadas de forma total, numa representação do que chamamos de vontade política de corrigir os rumos do setor que, atavicamente, sempre recebeu críticas, desde os primórdios do Brasil. Quando foi candidato à presidência da República, no início do século passado, Ruy Barbosa já reclamava do elevado número de analfabetos existentes. Se ele voltasse à vida e à política, hoje, o seu discurso seria atualizado somente em relação aos números. Estratégias, táticas e ações, que configurem o planejamento a médio e longo prazos, requerem mudanças que ainda estão longe de acontecer. Quando citamos desenvolvimento de competência, gestão integrada ou gestão corporativa, para o devido compartilhamento de tarefas, na discutida relação ensino-aprendizagem, parece que atraímos expressões de outro planeta. É natural que o resultado desse atraso secular seja a reduzida satisfação de alunos e professores, comprometendo a necessária fidelização dos mesmos às escolas em que atuam. Vestir a camisa passou a ser expressão somente do futebol (estamos em época de Copa do Mundo), mas deve valer também para o mundo da educação, com vistas aos seus resultados. A má qualidade da educação pública opera a favor da condenável desigualdade social. São aconselháveis parcerias público-privadas, como fez o Chile, na década de 70, com o governo distribuindo vouchers a todas as famílias para que elas escolham as escolas dos seus filhos. O resultado escolar assinalou ganhos apreciáveis. Agora mesmo, é o presidente Barack Obama, dos Estados Unidos, que anuncia o reforço a esse programa de parcerias, selecionando quatro mil escolas que irão receber recursos federais. Atende-se mais de 1 milhão de estudantes da educação básica, que, de outra forma, talvez estivessem condenados ao abandono. Com mais um pormenor importante: a prioridade foi dada no ensino de Matemática e Ciências, depois de uma radiografia das maiores carências do sistema.


 A pergunta é instigante e tem toda a procedência: em virtude do vulto dos desafios brasileiros, em matéria de educação, será que existe necessidade de algo semelhante ao Plano Marshall para que possamos romper os atuais paradigmas? Convém recordar que, após a II Grande Guerra, com a Europa praticamente destruída, os Estados Unidos liberaram a importância de 13 bilhões de dólares (hoje, seriam 120 bilhões) para as tarefas de reconstrução social e econômica do Velho Continente. Foi um tratamento de choque, com resultados palpáveis. Aqui já se coloca um problema crucial: há bons autores, pensadores consagrados, que acusam os defensores de maiores recursos para a educação de “demagogos”. Um verdadeiro absurdo, pois é sabido que a aplicação de somente 4% do Produto Interno Bruto nessa função essencial tem se revelado rigorosamente insuficiente para enfrentar questões como as altas taxas de analfabetismo (14 milhões de pessoas acima dos 15 anos de idade) ou até mesmo níveis salariais mais compatíveis para o nosso magistério (temos no país cerca de 2,5 milhões de professores de educação básica).

Uma correta visão estratégica nos leva, hoje, a postular cerca de 7% do PIB somente para educação – e o exercício de muita paciência para esperar pelos resultados advindos da correta compreensão do que seja esta prioridade. O sistema brasileiro de educação, com 800 mil salas de aula, se ressente de um flagrante desequilíbrio, pois convivem, a pouca distância, escolas de excelente padrão com outras de resultados pífios, sejam públicas ou particulares. A busca do equilíbrio pode ser um grande projeto nacional, envolvendo políticas e estratégias de primeira ordem. Em visita recente à Suécia, estivemos na Universidade de Estocolmo, que hoje conta com 60 mil estudantes – todos gratuitos. Perguntamos pelas suas prioridades. A resposta foi imediata: a formação de cientistas, pensadores e professores. Não é, pois, uma coincidência o fato de o país ser hoje um dos primeiros do mundo, em matéria de inovação tecnológica, com grandes empresas internacionais, inclusive no Brasil. Tudo isso se deve a um gerenciamento eficaz e a busca permanente da qualidade. Estamos divorciados desses princípios básicos, mesmo que sejam assinalados êxitos concretos no emprego das revolucionárias comunicações, inclusive na educação.

Há muitos computadores nas escolas brasileiras, mas ainda não se registrou nenhum avanço sensível na forma de ministrar ensinamentos. A busca do conhecimento é uma aspiração nacional, mas quem poderá garantir que, com o emprego da internet, por exemplo, nossas aulas de matemática ou de física tenham aperfeiçoamento sensível da qualidade? Há criatividade na relação ensino-aprendizagem? Ou temos saudades dos velhos mestres, com os quais convivemos, e que na sua grande maioria eram verdadeiros sábios? Faltam políticas públicas objetivas – e disso temos experiência pessoal, em virtude das quatro vezes em que exercemos o cargo de Secretário de Estado no Rio de Janeiro e da presença de oito anos nos Conselhos Federal e Nacional de Educação. Alguém perguntará porque não resolvemos todos os problemas da educação fluminense. A resposta é simples: não é tarefa de um homem só.


POLÍTICAS PÚBLICAS E DEMAGOGIA

Em nome da expressão Políticas Públicas muito se tem escrito e algumas vezes com uma visão desfocada. Exemplifico: pratica-se um comportamento indevido em torno da questão, que a nosso ver é essencial para o crescimento do país. No caso da educação, o problema abrange todos os sistemas de ensino, desde os municipais, passando pelos estaduais e até o federal. Não pode prosperar qualquer tipo de projeto de desenvolvimento sem uma visão correta do que se entende por Políticas Públicas. Elas não dependem unicamente de posturas governamentais. Vinculam-se ao Estado, no sentido mais amplo da palavra. Podemos afirmar que um órgão como o Conselho Nacional de Educação, nascido em 1996, tem mais compromissos com o Estado do que com o Governo, embora este em muitos casos extrapole os seus poderes, para avançar nas atribuições do CNE. Não basta a exigência de homologação ministerial para os seus atos. Em casos sem conta, têm sido aprovadas portarias que nitidamente diminuem a importância normativa desse importante Conselho. Haja vista o que ocorreu, em Governos passados, com a intrincada questão do ensino médio e todos os seus desdobramentos. Hoje, é preciso dispor de uma inteligência múltipla para dominar a matéria.

É verdade que dinheiro não aceita desaforo. Dinheiro público, menos ainda. Não se pode deixar de lado o pensamento de Roberto Campos, com quem tivemos o prazer de conviver na Academia Brasileira de Letras. Ele costumava repetir que “não se gasta absurdamente pouco em educação, mas absurdamente mal.” Querem nos convencer de que os atuais valores, que correspondem no plano federal a 59 bilhões de reais, são suficientes para vencer os nossos maiores desafios, como o fim do analfabetismo e a valorização da educação infantil, para citar esses exemplos. É evidente que são recursos insuficientes. Onde fica, nisso tudo, o pagamento condigno a professores e especialistas? A média salarial dos professores japoneses é de 2 mil dólares mensais. Estamos muito longe disso. Deseja-se o tempo integral, mas com professores virtuais? A equação ainda é indeterminada.

Aprendemos com Aparício Torelli que “a teoria na prática é diferente.” E é mesmo. São inúmeros os casos de especialistas da era pós-moderna, alguns com acesso a grandes veículos de comunicação, que não conhecem de perto a realidade escolar. Teorizam sobre o que batizaram de “fracasso escolar”, culpam diretores, professores, alunos, métodos, etc, mas apresentam soluções fantasiosas. Quando assumimos o comando da Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Rio de Janeiro, em 1979, depois de vencer uma enorme greve de professores, herdada da gestão anterior, procuramos conhecer as escolas ao vivo. Visitamos uma na cidade de Campos (Colégio Estadual Agrícola Antonio Sarlo), com 600 alunos, que vivia uma pequena tragédia. Tudo quebrado, inclusive lousas. Um cheiro insuportável, pois quase todos os banheiros estavam entupidos. Determinamos uma ampla reforma, de 50 milhões, na época, para ser feita em seis meses. Cobramos os resultados e ao voltar, no período combinado, encontramos um estabelecimento de ensino digno de ser frequentado. Foi assim em todo o mandato de quatro anos, em que inauguramos 88 escolas de educação básica. Hoje, de forma incompreensível, a mesma Secretaria anuncia que tem vagas para todos os alunos que a procuram. “Existe sobra de vagas”. Ao lado, o anúncio de que vai construir mais sete escolas. Só não se diz para quê alunos. Vejam como as políticas públicas são mesmo complicadas.


LIDERANÇA E GESTÃO ESTRATÉGICA

Cada escola, naturalmente, tem o seu modelo de liderança. A rede pública é marcada por uma indesejável invasão político-partidária, na escolha de diretores, ainda assim a dedicação e a competência de muitos deles fazem a diferença, seja uma escola de 300 ou de 5 mil alunos. Vivemos essa experiência em dois enormes estabelecimentos de ensino: a Escola Estadual Miguel Couto, em Cabo Frio, e a Escola Sarah Kubistschek (de formação de professores) no bairro carioca de Campo Grande. O tamanho não era empecilho para a administração adequada, que se fez também com o poder da disciplina, como vimos ser praticado no Japão.

O atual momento de bullying e outras barbaridades, marcando a quebra do respeito na relação aluno-professor, não pode perdurar, sob pena de destruir todo o conjunto de valores que, bem ou mal, conseguimos construir ao longo do tempo. Treinamentos devem ser estimulados por quem de direito (em princípio autoridades), para desenvolver competências de liderança. Nas grandes capitais, os cursos oferecidos são amplos, com títulos expressivos, como a Gestão em Qualidade, a Gestão de Recursos Humanos, a Gestão da Produtividade a Administração em Marketing, a Logística Empresarial, a Governança Corporativa, sempre com ênfase na responsabilidade dos gestores. É um novo mundo que se abre e do qual não podemos estar dissociados. Há um outro aspecto relevante que não pode deixar de ser referido. O Brasil foi um grande exportador de mão de obra barata. Estados Unidos, Europa e Japão foram destinos preferenciais, antes mesmo do processo de globalização. De dois anos para cá, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a dinâmica inverteu-se. Muitos brasileiros voltaram ao país, em busca dos sonhados postos de trabalho. E aí ocorreu o fenômeno esperado: a falta de qualificação profissional tem sido um entrave à política de incorporação dos jovens ao mercado de trabalho, cada vez mais complexo e competitivo. Com um pormenor quase vergonhoso: grandes empresas brasileiras começaram a contratar técnicos estrangeiros, como aconteceu no Rio de Janeiro, na área da siderurgia, com 600 chineses que já se encontram trabalhando na Zona Oeste. Técnicos importados, ocupando o lugar de jovens brasileiros desempregados.

Uma ideia que nos ocorre é a da cidadania. Fala-se tanto nisso e fica em nosso espírito a dúvida sobre como justificar aos nossos estudantes que estejamos sendo generosos e magnânimos com outros povos, a partir dessa estranha importação de recursos humanos de outras plagas. No mundo desafiador dos novos tempos, vale a pena referir à experiência que temos vivenciado à frente do Centro de Integração Empresa-Escola do Rio de Janeiro. São 25 mil estagiários e 3 mil aprendizes, procurando os caminhos do primeiro emprego, com uma característica que vale a pena exaltar: existe uma verdadeira “guerra de talentos” na incorporação desses jovens, levando vantagem, como é natural, os que estão mais bem preparados.


GESTÃO POR COMPETÊNCIAS

Se nas empresas brasileiras (as mais avançadas) cresce a tendência à valorização de políticas de gestão por competências, não vemos motivo para deixar de considerar esse processo no mundo da educação. Investir em recursos humanos e valorizar a meritocracia são fatores seguros de sucesso – e esse é um movimento crescente. Universidades e escolas bem sucedidas são aquelas que operam com metas predeterminadas, com avaliação permanente, e um sistema de premiação que é altamente estimulante. Acompanhar cada funcionário, longe de ser invasivo, é uma forma democrática de aperfeiçoamento. Gera benefícios e não preocupações. A competência desejada traz conhecimentos, habilidades e atitudes, fatores seguros de aprimoramento. Combate a nefasta acomodação, que, infelizmente, é muito comum no serviço público até os dias de hoje. Por que nas escolas públicas não se pode desejar a obtenção de metas de rentabilidade? Não é transformar os alunos em simples números ou os professores em máquinas, mas buscar melhores resultados em termos concretos de aprendizagem e conhecimento. Não podemos aceitar passivamente os maus resultados dos concursos internacionais em que os alunos brasileiros tiram colocações muito abaixo do razoável. É preciso reagir contra isso, como propõe a gestão por competências.

Sem qualquer dose de saudosismo, lembramos de experiências vividas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, nos idos das décadas de 60 e 70. Sob a liderança dos grandes reitores Haroldo Lisboa da Cunha e João Lyra Filho foi possível construir um campus até hoje exemplar, no Maracanã, além de ter nascido o Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira, há tempos um dos primeiros colocados no ranking das escolas fluminenses. Foi um notável experimento pedagógico, que iniciou no Rio de Janeiro, há 50 anos, o que se denominou de atividades curriculares integradoras, atenuando a moda vigente de matérias estanques. Elas passaram a ser interrelacionadas. Era uma administração solidária, os centros setoriais que foram criados tornaram-se modelares, aproximando mais os professores da instituição. Vivemos bem de perto essa experiência, com a direção por 17 anos do setor de Educação e Humanidades da UERJ, que se tornou uma das maiores instituições universitárias do país, hoje com cerca de 25 mil alunos gratuitos. Quando falamos em políticas públicas não é só por leituras persistentes, mas também pelo exercício do magistério durante 37 anos, na cátedra conquistada em concurso público de História e Filosofia da Educação, além da presença longeva (durante 26 anos) no Conselho Universitário. O começo foi a representação dos alunos, eleitos e reeleitos que fomos para a presidência do Diretório Central de Estudantes (DCE). Fomos também pioneiros na criação da pós-graduação na área da educação, estimulando setores como tecnologias educacionais, educação especial e administração universitária. Talvez não exista prazer maior, no magistério, do que sentir o aproveitamento dos alunos desses cursos, na sua formação ampliada.


PROFISSÕES DO FUTURO

Educação de Qualidade é o que deve marcar as políticas públicas brasileiras. Para isso, convém insistir no tempo integral e na presença de 25 a 30 alunos em cada sala de aula, como preconizavam sábios da Idade Média. É claro que não se vai estabelecer políticas olhando pelo espelho retrovisor, mas com vistas para o futuro, procurando ardentemente reduzir drasticamente as desigualdades. E com isso eliminando os conflitos que se avolumam, envolvendo alunos, professores e funcionários. Infância e juventude não podem se formar na cultura da violência, que contraria o espírito de cordialidade do nosso povo. Consideramos a existência de escolas de alto risco uma verdadeira afronta. Cursos para a certificação de gestores escolares serão benvindos, inclusive com a utilização da modalidade de educação à distância, ainda não muito bem compreendida entre nós. O atendimento em creches deve ser intensificado e não se poderá mais admitir que crianças cheguem à quarta série do ensino fundamental sem saber ler, escrever e contar, de forma adequada. Isso envergonha o país e, infelizmente, é uma realidade. Quando são necessários voluntários do meio universitário para corrigir essas distorções no sistema público algo precisa ser feito, de forma estruturante, para a correção devida.

Estabelecer prioridades e diretrizes, traçar metas de curto, médio e longo prazos é o que precisa ser feito, para que cheguemos aos próximos cinco anos com amplas possibilidades de atender à futura demanda das profissões que se avizinham, entre as quais algumas foram registradas na Inglaterra pela consultoria de tendências Fastfuture: Medicina regenerativa (a fabricação de partes do corpo, com o pleno emprego de células-tronco); Policial do clima (para nos proteger das emissões de carbono na atmosfera); Nanomedicina (uma espécie de medicina personalizada); Farmagranjeiros (modificação genética de plantas); Geriatria (prolongamento da vida ativa dos cidadãos, com ênfase na saúde mental); Cirurgiões para o aumento da memória (com colocação de um chip na mente humana); Ética científica; Profissionais em mudança climática (soluções multidisciplinares); Destruidor de dados pessoais (contra possíveis hackers) e Organizador de vidas eletrônicas (ler e arquivar correspondência eletrônica e organizar dados de forma coerente).

Passando a outro tema: quando se aborda a questão do magistério, crucial na educação brasileira, nenhuma opção pode ser desprezada. Sabe-se que vivemos grandes dificuldades na área, que vão desde a formação precária até a pouca valorização profissional. A consequência desse estado de coisas é a deterioração do status social da categoria. Devemos reagir contra a acomodação e também o comodismo da permanência na chamada zona de conforto, uma inimiga da criatividade construtiva. Rotinas devem ser sacudidas, sobretudo em tempos de crise econômica. Psicólogos de orientação moderna aconselham a sair da concha, lutar contra a aparência de um conforto estéril, que não contribui para o aperfeiçoamento pessoal nem o progresso mais amplo. Por isso, John Maxwell (in “O livro de ouro da liderança”, de Thomas Nelson do Brasil, Rio, 2008) afirma que “O líder deve desafiar seus liderados a sair da zona de conforto, mas nunca da área em que são mais fortes.” Entendemos o professor como um líder que deve ampliar seus horizontes, sem perder o foco da tarefa de educar, que é a célula-mater da sua atividade.


PRECISAMOS DE NOVOS GESTORES

Estamos vivendo novos tempos, de transformações velozes. Ainda há pouco, vibrávamos com a existência do computador de teclado macio. Hoje, a realidade nos coloca diante do computador portátil sem teclado, com tela de dez polegadas sensível ao toque. Parece um mundo de fantasia, em que se deve incluir a existência dos e-books de peso inferior a 300 gramas, nos quais são armazenados milhares de livros. Onde a ciência vai nos levar, só Deus sabe. Diante desse quadro, cabe o registro de que o ensino brasileiro, com todas as suas dificuldades, carece de um novo equacionamento. O que a nossa escola produz serve e, se serve, para quem se destinam os seus esforços? Ela é um precioso instrumento para a construção de um mundo melhor, mas há muito a ser feito, no sentido do seu aperfeiçoamento.

O CNE aprovou, no dia 5 de maio de 2010, uma resolução que propõe padrões mínimos para a qualidade da educação básica. É um documento muito oportuno, que abrange crianças e jovens da creche, da pré-escola, do ensino fundamental urbano e rural e do ensino médio. O segredo do sucesso reside na sua aplicação. Chegamos a uma conclusão: a performance de um estabelecimento de ensino, seja de que grau for, depende muito da figura do administrador. Surge a pergunta: como eles lidam com as novas tecnologias? Pode-se afirmar que cerca de 90% dos jovens profissionais trabalham com a maior competência, dispondo de novas e abundantes tecnologias. Com um pormenor que não pode escapar. Tiveram um bom aprendizado dos princípios da ética, do direito, da justiça, da liberdade, da responsabilidade social e do proclamado empreendedorismo, em sua formação? É a base de tudo, ao lado de liderança, criatividade e raciocínio lógico. Os novos gestores têm ojeriza à rotina e costumam se valer, nas situações que surgem, de um bom senso muitas vezes admirável. São os que sobem na carreira, melhoram de salário, graças ao seu empenho e o conhecimento do novo, que muda diariamente. Muitos deles alcançam a sonhada pós-graduação, que, em nosso país, goza de um grande e merecido prestígio, graças à sua reconhecida qualidade. Tais princípios precisam ser levados em conta, quando o objetivo é dar modernidade ao trato empresarial das instituições de ensino. Sempre respeitados adequados padrões éticos.


OS EFEITOS DA CRISE

Como vivemos num mundo globalizado, o que ocorre no exterior é também objeto do nosso interesse. Vejamos o caso dos Estados Unidos, onde as escolas encontram-se em flagrante crise financeira, alimentada pela disparada dos custos e pela diminuição dos subsídios e doações. Justamente no país em que a democratização do sistema de ensino foi uma conquista memorável. Historicamente, os Estados Unidos foram os primeiros a adotar o ensino superior em massa, “deselitizando” o sistema e conquistando, com isso, o respeito e a supremacia da economia mundial, apesar dos percalços recentes.

Segundo matérias publicadas na revista Business Week, na Virgínia o governo estadual reduziu as verbas do Instituto Politécnico local em 12%; como consequência, a escola aumentou a anuidade em 38%. No Dallas County Comunity College, no Texas, com mais de 60 mil alunos, o corte nas verbas foi também de 12%. Na Universidade Estadual de Nova Iorque, com 403 mil alunos, o aumento da anuidade foi de 20%. Como se pode depreender, o panorama não é dos mais animadores, exigindo, é claro, medidas severas de contenção por parte dos administradores do sistema. O drama que se vive é da qualidade, que deixa muito a desejar. Não procede o argumento de que a inclusão de jovens das classes C e D tenham sido fatores determinantes desse registro. Ela é devida muito mais à falta de ajustamento do magistério aos novos tempos. Quantos professores sabem lidar com os computadores em salas de aula, para aperfeiçoar os conteúdos curriculares? As máquinas, em geral, têm sido utilizadas para serviços administrativos. Outro pormenor, que convém insistir: os pagamentos são baixos, há atrasos sucessivos em certos estabelecimentos de ensino, muitos dos quais estão em débito com o FGTS e não pagam em dia suas obrigações relativas ao 13o salário. Será culpa simplesmente da dita inadimplência dos alunos? É um caso a estudar. Jovens chegam ao diploma, no Brasil, sem os mínimos conhecimentos básicos. Isso levou o MEC, com o nosso aplauso, a reduzir as vagas em determinadas instituições, especialmente em Direito e Medicina. A batalha é inclemente, para que os conhecimentos em História, Literatura, Ciências, Língua portuguesa, Inglês, Informática etc sejam aperfeiçoados nos cursos respectivos, levando a nossa juventude a um bom preparo humanístico e tecnológico, nessa ordem, para inserir definitivamente o país na Sociedade do Conhecimento. O presidente Lula tem sido homenageado internacionalmente, mas ele ainda deve muito à educação. É grave o que aconteceu com o Enem e com o Enade (53 questões anuladas), levando esses importantes exames ao descrédito. Um choque de seriedade animaria o setor.


O REFORÇO DA EAD

Temos hoje cerca de 60 milhões de estudantes frequentando as mais de 20 mil escolas brasileiras, em todos os níveis. Cerca de 33% da população. Ultimamente, a grande inovação do processo foi a oficialização da Universidade Aberta do Brasil, que trabalha com cursos de administradores e de formação de professores, num consórcio de universidades públicas federais e estaduais de 18 estados e do Distrito Federal. Essa ideia é antiga. Vindo de uma viagem à Inglaterra, em 1971, o então ministro da Educação, Jarbas Passarinho, convocou um Grupo de Trabalho, coordenado pelo professor Newton Sucupira, para estudar a implantação da Universidade Aberta no Brasil. Tivemos o privilégio de participar desses estudos iniciais, que foram levados com muita parcimônia, mas logo depois padeceram do mal nacional do exagero sem sentido. Lá pelas tantas, a ideia engordou e estava na mesa de discussão uma universidade maior do que a USP. Levou “bomba”, como não poderia deixar de ser.
Com um país deste tamanho, chegou finalmente a hora de utilizar a educação à distância em grande escala. Um pormenor a ser destacado, na modalidade brasileira, é que os exames finais serão todos presenciais, o que impede o esquema de facilitário, temido por muitos educadores. Não será modismo, nem uma educação de segunda classe. Incluindo as universidades corporativas, estamos hoje com quase 2 milhões de estudantes participando de programas de educação à distância, com cerca de 60 cursos reconhecidos pelo MEC. Data de 1904 a criação, no Brasil, dos antigos cursos por correspondência, que tiveram uma grande divulgação, com o surgimento do Instituto Monitor, em 1931, e com o Instituto Universal Brasileiro, em 1941. Tempos depois, na década de 70, o assunto foi tratado com muita determinação e seriedade, no âmbito do Ministério da Educação. Hoje, com o surgimento de modernas técnicas, e também com a massificação da internet, ganhou o nome de educação à distância (EAD). Vale lembrar que no exterior a chamada universidade virtual conquistou seu espaço desde a década de 70. Na Inglaterra, por exemplo, a EAD é uma realidade e a Open University tem o respeito de todos, hoje com 80 mil alunos.
Na América Latina, o Brasil é um dos cinco maiores produtores de softwares para a área e o segundo país em número de alunos, perdendo apenas para o México, que possui universidades virtuais há mais de 30 anos. Hoje, com o avanço tecnológico, os alvos da EAD passaram a ser os indivíduos que já estão inseridos no processo produtivo, com faixa etária acima dos 25 anos e problemas de tempo ou geográficos, para frequentar uma faculdade normal. São gerentes de bancos ou de supermercados, por exemplo, que fazem os cursos de educação à distância com o objetivo de melhorar o desempenho em seus trabalhos. E sem a necessidade de abandono de emprego ou de afastamento da família.


O USO DO TALENTO LOCAL

É apavorante a decisão de algumas grandes empresas nacionais quando anunciam que, se faltar pessoal qualificado, para as obras que se encontram em andamento, “importaremos técnicos de fora”. Deve-se buscar essa aproximação, com uma gestão inteligente e oportuna, exatamente no momento em que o Brasil vê crescer a sua economia, integrando o grupo do Bric, ao lado da Rússia, da Índia e da China. Dados recentes apontam para o percentual de 1,13% do PIB utilizado em pesquisa e desenvolvimento de mercadorias e técnicas (nos EUA o percentual é de 2,68% e na China é 1,49%, com o pormenor de que são PIBs bem maiores do que o nosso). Há uma grande esperança de que os nossos números sejam bastante ampliados, neste ano de 2010. Veja-se o caso da General Electric, que se considera o maior conglomerado do mundo, segundo pesquisas da revista Forbes. Bate a Shell e a Toyota (que já esteve em primeiro lugar). O seu presidente visitou o Brasil e anunciou que instalará um grande centro de pesquisas, no eixo Rio-SP-MG, com a aplicação de 10 bilhões de dólares nos próximos três anos, gerando no mínimo 600 novos empregos diretos. Isso é bastante sintomático, sabendo-se que a GE opera em nosso país em campos diversificados, como a produção de turbinas (Petrópolis/RJ), locomotivas, equipamentos de diagnóstico por imagem, petróleo, gás, energia e aviação de um modo geral, já possuindo 15 fábricas no Brasil. O que anotamos foi a declaração de um diretor da GE: “Queremos prestigiar a cultura nacional, contratando técnicos e engenheiros brasileiros, ou seja, valorizando o talento local.” Se a GE, que tomamos como exemplo, vai aplicar 21 milhões de dólares na expansão de equipamentos de prospecção e produção de petróleo em Jandira (SP) e Macaé (RJ), estamos confiantes de que irá gerar bons empregos para os nossos jovens formandos, antes desanimados pela falta de oportunidades de trabalho. Não cabe aqui a discussão se se trata ou não de uma multinacional, o que importa para nós é que ela está há 90 anos no Brasil e oferece a chance de abrigar, com salários compatíveis, os recursos humanos, que certamente aperfeiçoarão os seus conhecimentos com a nossa reconhecida capacidade criativa. Não devemos temer o que já foi uma característica de tempos idos. Formávamos os jovens (como ocorreu muito na Física) e, por falta de oportunidades, eles eram tragados por empresas estrangeiras, estimulados também por salários bem mais elevados. Esse êxodo foi grandemente responsável pela demora no crescimento industrial brasileiro, em áreas estratégicas. Ou ainda com a falta de reconhecimento da profissão de pesquisador. Lembro de uma visita do cientista César Lattes, de uma feita, à Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, nos idos de 1969, para se queixar que, reconhecido no mundo, aqui precisava dar aulas para sobreviver: “Sou um cientista e não um professor!” Recorremos ao sociólogo Max Weber para lembrar que só por acaso se encontra em um mesmo homem as vocações de cientista e professor. Aqui, confundimos tudo.


A PRIORIDADE NACIONAL

Não há candidato à presidência da República que deixe de priorizar a educação, em seus planos de Governo. Uns pensam no próximo quadriênio, outros alongam a vista para o ano de 2022, quando se irá comemorar o bicentenário da Independência do Brasil. Prevê-se que até lá o direito à educação pública de qualidade será para todos os jovens pertencentes à educação básica, a partir de agora considerada uma prioridade essencial. Sempre será possível duvidar das projeções para o futuro. Planos decenais fracassaram redondamente, e até mesmo plano quinquenais, razão pela qual as certezas são temerárias. O jornalista Merval Pereira cita a relação de prioridades estabelecidas pelo Núcleo de Assuntos Estratégicos do Governo Federal, o que vale como ponto de partida de estudos mais acurados. Vejamos a sequência: 1) investimentos em educação; 2) melhoria do ensino; 3) violência/criminalidade; 4) desigualdade social; 5) emprego; 6) saúde; 7) investimento em ciência e tecnologia; 8) taxa de investimento; 9) infraestrutura; 10) sistema judiciário; 11) estrutura tributária; 12) controle da inflação; 13) exportações; 14) carga tributária; 15) despesas correntes e 16) contas públicas. Concordamos com a ênfase dada à educação


GESTÃO EFICAZ

É comum o comentário, nas escolas, de que necessitamos de uma gestão eficaz para que os seus frutos sejam colhidos a tempo e a hora. Que frutos são esses? Não é só a viabilidade econômica e financeira do empreendimento, como a formação adequada de profissionais para o mercado de trabalho, hoje agitado por ofertas inacreditáveis. Vejamos o fenômeno da governança corporativa, em que há um empenho solidário na solução dos problemas administrativos da instituição. Organizações familiares ou a direção discricionária sofrem os efeitos de novos tempos, em que é preciso buscar a participação solidária de todos os envolvidos no processo. A gerência vertical cedeu espaço, na modernidade, para a horizontalização dos procedimentos, caracterizando a saudável democratização, que deixou de ser mera referência demagógica. Uma gestão eficaz pressupõe a existência de líderes bem formados, determinados e inspiradores. Assim se pode chegar à melhoria contínua de uma escola, sobretudo se ela estiver devidamente apetrechada por um bom projeto pedagógico. O envolvimento da direção, supervisão e coordenação de cursos facilita o encontro de soluções, promovendo um ambiente de soluções criativas. É o caminho de um planejamento eficaz. Para Roberto L. Katz, da Universidade de Harvard, existem pelo menos três tipos de habilidades básicas para que o administrador execute com eficiência suas tarefas: a habilidade humana, a técnica e a conceitual, sendo a primeira o denominador comum e o ponto crucial da administração. Vale lembrar Peter Drucker, para concordar que não existem países desenvolvidos ou subdesenvolvidos, mas sim países que sabem administrar seus recursos e tecnologias existentes, e países que não sabem fazê-lo. O exemplo pode ser aplicado às universidades. Sempre valerá a pena citar Max Weber (1864-1920), com a sua teoria da burocratização. Pelo menos para lembrar a racionalização, para ele o resultado da especialização científica e da diferenciação técnica peculiar à civilização ocidental. Foi pioneiro da Teoria das Organizações, com a ênfase que deu às normas escritas, a divisão do trabalho, o princípio hierárquico, a separação entre propriedade e administração (fato relevante em nosso sistema) e a profissionalização. Anos decorridos, suas ideias permanecem, devidamente adaptadas a novas circunstâncias, perfeitamente atuais. Quando esteve no 9o Conic/Semesp, em novembro passado, em São Paulo, o presidente Luís Inácio Lula da Silva enfatizou o papel do setor privado, afirmando que o Estado não cumpriu na totalidade com suas obrigações com a educação e que, graças ao setor privado, foi possível a inclusão de milhões de brasileiros nas escolas. Voltando à missão do professor, não pode mais ser apenas aquele que aplica a lição, nem os currículos devem permanecer estagnados, como se fossem verdades imutáveis. Arriscamo-nos a considerar que, parte do desinteresse dos alunos, provém exatamente da falta de renovação dos conteúdos curriculares e da sua forma de apresentação. Aí está um grande desafio à criatividade dos nossos mestres e dirigentes. O professor, definitivamente, precisa se sentir parte de uma organização que possui metas e busca resultados. O futuro da escola depende do entendimento de que o professor e aluno não podem ter uma ligação burocrática, mas trabalhar solidariamente para que a instituição alcance os seus objetivos.


POLÍTICAS E ESTRATÉGIAS

Nesta visão concisa da educação brasileira, podemos estabelecer as seguintes políticas e estratégias:
1) Aumentar de 72 para 93 bilhões anuais a participação pública nos investimentos em educação, que deveriam receber 7% do PIB, pois é o setor que mais crescerá no mundo, nas próximas duas décadas, e assim tornar viável o Projeto Brasil Alfabetizado, atendendo a 14 milhões de adultos analfabetos;
2) Elaborar um grande plano de assistência ao magistério, compreendendo a progressão funcional e salários compatíveis, abrangendo o total de 2,5 milhões de professores;
3) Aplicar intensivamente a modalidade de ensino à distância na formação e treinamento de professores e especialistas;
4) Determinar às universidades oficiais que promovam gratuitamente a formação de professores em nível superior, como exige o Plano Nacional de Educação (aliás, de pouca efetividade);
5) Criar um Fundo de Pensão de Professores, a exemplo do que ocorre em muitos países no mundo, para melhorar os salários da categoria quando chegar a hora da aposentadoria;
6) Estender o salário-educação à educação infantil, para ampliar em quatro milhões o número de vagas no pré-escolar. Viabilizar, assim, uma adequada assistência à alimentação na educação infantil;
7) Rever a legislação relativa ao ensino médio, hoje caótico;
8) Dobrar o número de escolas públicas de ensino médio, com um grande planejamento que envolva a preparação dos professores e o devido equipamento dos laboratórios;
9) Ampliar o atendimento aos nossos 25 milhões de deficientes e aos 5 milhões de indivíduos portadores de altas habilidades (superdotados);
10) Ampliar significamente o número de vagas nas escolas públicas de nível superior (cursos noturnos);
11) Trabalhar no sentido de dobrar, no período de oito anos, o número de alunos universitários, com boa qualidade;
12) Apoiar iniciativas educacionais do Sistema S (Senac, Sesc, Senai, Sesi e Senar), pelo sucesso e seriedade dos seus empreendimentos nacionais;
13) Acabar com o analfabetismo eletrônico, utilizando para isso recursos do FAT;
14) Intervir com rigor na capacitação dos trabalhadores, acabando com os desvios hoje existentes; eliminar o trabalho infantil, que hoje atinge 5,4 milhões de brasileiros;
15) Promover cuidadosa reforma congressual do Plano Nacional de Educação, com ênfase absoluta na Qualidade do Ensino, em todos os níveis;
16) Criar projeto de valorização da língua portuguesa e da nossa literatura. O objetivo maior é trabalhar o idioma em todos os graus de ensino – e de forma obrigatória. Os livros doados pelo Poder Público, segundo criteriosa avaliação, devem ser acompanhados por um treinamento adequado dos mestres, com a garantia de que as obras chegarão aos alunos, o que hoje nem sempre ocorre;
17) Modernizar todo o sistema, com o amplo emprego das tecnologias educacionais que marcam a Sociedade do Conhecimento;
18) Fazer da qualidade o grande projeto nacional de aperfeiçoamento do ensino brasileiro.
Por aí existe um caminho. É só acreditar e seguir por ele.


UM OLHAR SOBRE O FUTURO DA HUMANIDADE

O cientista norte-americano Raymond Kurzweill, também escritor e cientista, é um pioneiro nos estudos da inteligência artificial, singularidade tecnológica e de futurologia. No livro The singulary is near, lançado no ano passado, fez uma série de considerações instigantes sobre o cérebro humano. O jornalista Jorge Pontual, da Globo News, entrevistou Kurzweill e disso resultou uma série de oportuníssimas considerações, que devemos levar em conta, mesmo que a elas se deva associar uma perigosa dose de futurologia. Diz ele que hoje, há mais de 100 softwares que fazem coisas que antes exigiam a inteligência humana. Mas em 2029 não haverá mais limites. Existirá uma poderosa combinação entre os padrões da inteligência humana e a capacidade das máquinas. A civilização homens-máquinas crescerá exponencialmente. “Haverá uma só civilização e, em 2045, a parte artificial da inteligência será 1 bilhão de vezes mais poderosa do que a parte biológica.” A essa profunda transformação chamamos de singularidade. Enquanto patinamos em modelos convencionais de universidades, o mundo se prepara para os estudos bimodais, em que o presencial e o virtual se misturam, com grande proveito para o alunado. Assim se poderá aproveitar melhor o aumento significativo que ocorrerá brevemente na ciência, na música, nas artes, em tudo o que o cérebro humano é capaz de produzir. O cientista Raymond Kurzweill acredita na inteligência emocional, parte sofisticada da inteligência humana, que produzirá máquinas que ficarão tristes, irritadas, furiosas, assim como nós ficamos. Na década de 2030 isso poderá estar existindo, quando tudo ficará misturado. “Haverá humanos biológicos, mas com inteligência 99% artificial.” Para ele, os humanos têm espiritualidade e não será impossível encontrá-la também nas máquinas: “O verdadeiro passo para se ter uma máquina espiritual é ter uma máquina consciente. O sinônimo de consciência é subjetividade. O sinônimo de ciência é objetividade.” Vamos acreditar nisso quando o computador alcançar a profundeza da compreensão linguística que os seres humanos têm. Para o sociólogo francês Michel Maffesoli, “a modernidade se caracteriza por uma racionalização generalizada da existência.” Defende na pós-modernidade, a existência de uma “razão sensível”, aberta para a emoção.” Por outras palavras e em outros continentes, não se estará falando da mesma coisa? Voltando a Kurzweill, ele garante que a maior parte do que importa hoje para nós é a informação. A maioria das pessoas cria informações. O conhecimento humano duplica a cada 14 anos. A uma pergunta de Jorge Pontual, o cientista americano respondeu à questão das questões: “Estamos mais perto de Deus do que se possa imaginar. A evolução é um processo espiritual, que vai na direção de uma complexidade maior, com todos os atributos que conferimos a Deus: inteligência, criatividade, beleza, amor, tudo isso crescendo exponencialmente. Deus tem esses atributos de maneira infinita.” São pensamentos para refletir sobre o nosso futuro, neste mundo de tantas e tão variadas complexidades.

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