Palestra - Haskalá - O iluminismo judaico- Arnaldo Niskier

“E aqueles que são esclarecidos (iluminados)
brilharão como a luz do firmamento.” – Daniel 12:3

MIDRASH – Centro Cultural - Rio de Janeiro, 9 de agosto de 2010.


Antes de tudo, um esclarecimento essencial: os seguidores da haskalá (iluminação judaica) chamavam-se maskilim, que significam “os iluminados”, como tive oportunidade de aprender com o saudoso pesquisador Chaim Swerszaft, a quem presto desde logo minhas homenagens.

Esse movimento pertenceu à onda de esclarecimento geral do século XVIII, na Europa. Fez-se uma reavaliação dos valores da época, possivelmente devido à forte influência da revolução industrial, marcada por ações sobretudo na Alemanha, na Inglaterra e na França, para ficarmos somente nesses países. Foram esses valores que embasaram a Revolução Francesa, de 1789, além de terem significado uma esperança para os judeus, até então dispersos e confinados em guetos indefensáveis, subjugados pelos reis, senhores feudais e a Igreja. É preciso compreender que passamos a estudar o assunto há cerca de 12 anos, com a curiosidade natural que proveio da obra escrita sobre o rabino Shabettai Ben Meir Ha-Cohen (1621-1662), também conhecido como Shach, especialista no Talmud, e do qual somos descendentes (décima terceira geração). Ele foi autor de “Siftei Kohen” (“Os lábios de Kohen”).

Com as naturais dificuldades bibliográficas, recorri à família de Israel, que conseguiu resgatar elementos históricos preciosos que se encontravam praticamente jogados numa antiga sinagoga de Praga. Depois, uma conversa altamente esclarecedora e definitiva, com o estudioso e advogado Joseph Eskenazi Pernidji, com quem me encontrei numa homenagem (como sempre merecida) ao médico Meer Gurfinkel. Ele deu a pista essencial: “Você deve visitar Amsterdam e passar alguns dias na biblioteca Rosenthaliana, que talvez seja a mais rica de todas a respeito do acervo histórico judaico.” Em companhia da minha esposa Ruth, colaboradora prestimosa, fiz o que sugeriu o querido amigo. Em 2001, passamos uma semana na famosa biblioteca, que abriga mais de 100 mil livros sobre a história judaica, e de lá trouxemos preciosas e aparentemente inéditas informações e documentos sobre a haskalá, para transposição em língua portuguesa. Eis aí a raiz do nosso trabalho, que agora temos a honra de lançar no Midrash, depois de tantas horas, dias e meses de estudos.


Eram ideias avançadas, mas com um risco latente: a assimilação cultural, que poderia colocar em risco o futuro da nossa tradição, com a absorção dos valores ocidentais. Sendo um movimento típico da classe média, jamais exerceu influência marcante sobre as massas judaicas, o que imediatamente afastou o perigo de abandono da nossa gênese.

Historicamente, o berço da haskalá foi a Prússia, ao tempo do reinado absoluto de Frederico II. Com o interesse na implantação de novas indústrias, aproximou-se dos judeus por motivos financeiros, atraindo negociantes abastados da Inglaterra, da França, da Holanda e da Áustria, especialmente na indústria de tecidos. A eles, Frederico II se referia como “meus judeus de veludo ou de seda.” Moisés Medelssohn, o filósofo (1729-1786), avô do famoso compositor, pioneiro do iluminismo judaico, era um dos homens de seda de Frederico II. Foi ele quem colocou os judeus em pé de igualdade com os cristãos, ganhando o cognome de “Platão Alemão”. Dedicou-se à liberação do seu povo das limitações do gueto e lamentava a estagnação da vida judaica por toda a Europa.

Reuniu à sua volta um círculo de judeus ocidentalizados, mas fundou escolas judaicas religiosas secularizadas. A primeira grande crítica que recebeu foi na defesa da substituição do iídiche pelo alemão, “por motivos culturais”. A ideia foi recebida com grande reservas na Alemanha e nos países eslavos, não se aceitando a postura de que o “iídiche seria um mal remanescente do gueto.” Perguntavam os iluministas: “Não é uma língua indigna dos descendentes dos profetas hebreus?” É claro que a maioria dos judeus não achava isso.


A LUZ DAS IDEIAS MODERNAS

O medievalismo do gueto, que mantinha os judeus isolados, com a haskalá ganhou a luz das ideias modernas, combatendo o fanatismo religioso. Após a Revolução Francesa, os judeus passaram a ter direitos na sociedade, lado a lado com os cristãos. Por motivos de conveniência, então, cresceu a onda de assimilação, até para que os conversos pudessem ocupar cargos públicos, antes vedados aos judeus. A apostasia (abandono da fé religiosa) cresceu de forma expressiva. Até mesmo filhos e netos de Medelssohn acabaram se convertendo, o que foi mais expressivo entre os judeus abastados e ambiciosos.

De Berlim, a ilustração judaica se espraiou para a Galícia, porta de entrada da Polônia, da Rússia Branca, da Lituânia e da Ucrânia. A Galícia havia se tornado uma província austríaca e os judeus eram tratados com mais liberdade do que na Polônia e na Rússia. Os maskilim puderam atacar os chamados “fanáticos” e o que chamavam de “fé cega”. Abriu-se, então, uma visão entre hebreístas e iídichistas, apesar de serem mesmos os objetivos. Foi na Lituânia que cresceram as sementes da Ilustração contra o chassidismo místico, como aconteceu com o Vilner Gaon. Apesar dos seus compromissos talmúdicos, estudou matemática e astronomia.

A haskalá da Europa Oriental cresceu quando o czar Alexandre I, que reinou de 1801 a 1825, anunciou que desejava resgatar as condições miseráveis dos judeus do império russo. Garantiu-lhes o direito de possuir terra, instalar fábricas e manter a profissão que desejassem. Os jovens qualificados poderiam frequentar ginásios e universidades sem quaisquer restrições. Com a educação secular recebida, prosperaram nos negócios, também como médicos, professores e jornalistas, o que abriu o caminho para que muitos deles se convertessem à Igreja Ortodoxa Russa. Aí se pode ter uma noção mais clara da reação dos tradicionalistas a essas inovações.

A haskalá não era somente um movimento para obter a emancipação civil dos judeus, mas também uma forma de estancar o seu desenraizamento econômico. Também visava valorizar a dignidade humana, roubada por mais de 16 séculos desde o império romano (cristão), sob o comando de Constantino. Uma das suas maiores vitórias foi a organização, nos grandes centros judaicos, de sociedades para o ensino de ofícios às crianças, para torná-las produtivas. Vem daí a frase de Nicolai I: “Onde estão a religião, a moralidade, o esclarecimento e o espírito moderno quando esses judeus, que se empenham, com coragem e sacrifício, na luta contra os preconceitos seculares, não encontram ninguém que os apóie e lhes estenda uma ajuda?”

Os tradicionalistas ortodoxos, como seria de se esperar, protestavam contra a existência dessas escolas judaicas de orientação leiga. Temiam a assimilação e a apostasia. Mas é certo que os iluministas tiveram papel importante na luta pela emancipação civil. Eles promoveram a ligação entre a identidade judaica específica e a civilização ocidental. Enquanto a briga se alastrava ente o chassidismo e a haskalá muitos maskilim pregavam a bandeira do sionismo, embora na época isso fosse tido como interferência na ordem divina das coisas. É conhecido o pensamento de Theodor Herzl (1860-1904) quando apelou para a cooperação do rabi Judá Leib de Ger:

“Em nome de milhares de judeus, cuja existência, ameaçada por vizinhos hostis, fica mais difícil a cada dia; em nome das multidões esfomeadas que desempenham todo tipo de trabalho para alimentar os filhos; em nome dos milhares de refugiados que partiram da Rússia, Romênia e Galícia para a América, África e Austrália, onde o perigo da assimilação os espera; e finalmente e nome de Deus e da Torá, solicitamos ao venerável rabi que nos diga abertamente os pecados que cometemos ao aderir ao sionismo.” O pai do sionismo político queria o apoio dos chassidim, que eram três milhões só na Polônia, mas sem lhes garantir que alguma teocracia seria criada, quando viesse o nosso Estado.

Assim, os judeus voltaram para a terra dos seus pais, quando foi criado o Estado de Israel. Mas essa é outra história.

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