Palestra - O Estadista da Abolição - CIEE/SP - Arnaldo Niskier

São Paulo, 31 de agosto de 2010.

“A abolição teria sido uma obra de outro alcance moral, se tivesse sido feita do altar, pregada do púlpito, prosseguida de geração em geração pelo clero e pelos educadores da consciência. Infelizmente, o espírito revolucionário teve que executar em poucos anos uma tarefa que havia sido desprezada durante um século”.


Ainda criança, quando seus pais viajaram para a Corte, no Rio de Janeiro, Joaquim Nabuco foi entregue para ser criado por seus padrinhos, os senhores do Engenho de Massangana, Joaquim Aurélio Pereira de Carvalho e Ana Rosa Falcão de Carvalho. Foi neste ambiente que conviveu profundamente com a escravidão, formando então suas opiniões acerca deste tema. O próprio Joaquim Nabuco relata no livro Minha Formação que certa vez, ele viu a casa onde residia ser invadida subitamente por um escravo de cerca de 18 anos, que se ajoelhou e segurou seus pés, e pediu desesperadamente que convencesse a sua madrinha a comprá-lo de seu senhor para que então passasse a servi-lo. O escravo havia fugido da fazenda vizinha porque o seu patrão o castigava periodicamente. Aquilo ficou marcado para sempre em sua memória. Aos oito anos, com a morte da madrinha, já viúva, transferiu-se para a casa dos pais no Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio do barão de Tautphoeus e no Colégio Pedro II. Em, 1866, com 17 anos, frequentava a Faculdade de Direito de São Paulo, e já se destacava com um grande orador. Um fato importante ocorrido neste período realça como Joaquim Nabuco progredia e antecipava o que o Brasil ganharia com o seu talento: com a queda do Gabinete Zacarias, José Bonifácio, chamado de O Moço, perdeu o cargo de ministro do Império, e teve que regressar a São Paulo. O orador escolhido para recebê-lo na volta à cidade foi o estudante Joaquim Nabuco. Em 1869, transferindo-se para a Faculdade de Direito de Recife, a chama acesa contra a escravidão não arrefeceu, ao contrário, ficou ainda mais forte, chamando cada vez mais a atenção do povo. Ele chocou a elite da cidade com o seu comportamento revolucionário em todos os sentidos: como advogado, quando assumiu a defesa de um escravo que havia assassinado o seu senhor, e como parlamentar, ao defender ardorosamente a libertação dos escravos.

Avaliando sua atuação como deputado nas diversas legislaturas, a partir de 1878, podemos considerá-la como um marco da campanha contra a escravidão no Brasil. Devido aos seus discursos e às suas iniciativas o tema acabou ganhando projeção nacional, e fez com que muitos parlamentares e intelectuais abraçassem a causa. Para coroar esse seu posicionamento, Joaquim Nabuco fundou, em 1880, em sua própria residência, a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, comprando briga feia contra os conservadores locais, que defendiam a manutenção daquele sistema. Ele contou que, certa vez, quando era candidato, soube que um escravo suicidou-se em Cantagalo sem nenhum motivo aparente. Depois, a verdadeira causa do ato extremo foi revelada: os donos da fazenda informaram que ele atentou contra a própria vida porque Joaquim Nabuco havia perdido a eleição. Fatos como este reforçavam o seu ideal abolicionista. Tornou-se o estadista da Abolição. Entre 1882 e 1884, sem mandato, Nabuco partiu para um auto exílio na Europa, quando inclusive se tornou colaborador do Jornal do Commercio, em Londres. Em 1884 ele escreveu o livro O Abolicionista, considerado pelo jurista Raymundo Faoro um livro tão importante que talvez tenha aberto as portas da sociologia brasileira, por desmentir muitas teorias que eram disseminadas, de contrastes entre uma classe e outra. O livro clássico de Faoro, Os Donos do Poder, é farto em citações do autor de Um Estadista do Império, o que denota a influência do pensamento do escritor e diplomata na obra do jurista, falecido em 2003, e que também fez parte da Academia Brasileira de Letras, embora por pouco tempo.


O PAI, UM ESTADISTA DO IMPÉRIO

Joaquim Nabuco só veio a conhecer o seu pai, José Tomás Nabuco de Araújo, quando tinha exatos oito anos, após o falecimento de sua madrinha. Foi quando passou a conviver com aquele que era considerado um intelectual influente, com grande prestígio no Império. Além de deputado geral, ele também foi presidente de província, ministro da Justiça e senador do Império, no período que vai de 1858 a 1878. Para Joaquim Nabuco, a principal qualidade política do seu pai era “adaptar os meios aos fins e não deixar periclitar o interesse social maior por causa de uma doutrina ou de uma aspiração”. Com um misto de admiração e respeito, Joaquim Nabuco publicou uma das principais obras da literatura brasileira, Um Estadista do Império, usada até hoje como referência quando se fala em história do Brasil. A tarefa não foi das mais fáceis, visto que tanto o pai quanto o filho tiveram suas vidas atribuladas de compromissos, sociais e políticos. Hoje, o livro é reconhecido como um dos mais representativos da historiografia imperial.

Foram necessárias muitas pesquisas para a produção da obra, como diria Joaquim Nabuco: “Muitos anos depois de sua morte, estudando-lhe a vida, meditando sobre o que ele deixou do seu pensamento, compulsando o vasto arquivo por ele acumulado, a sua correspondência política, os testemunhos, as controvérsias, suscitadas pela sua ação individual e as consequências a ela atribuídas por amigos e adversários, que abrangi a personalidade política de meu pai”. A trajetória de Joaquim Nabuco e a de seu pai, José Tomás Nabuco de Araújo, no campo político, se assemelha um pouco com a vida do Visconde do Rio Branco, que foi chanceler na época da Guerra do Paraguai, e a de seu filho, Barão do Rio Branco, ambos diplomatas, com amplos serviços prestados ao Brasil em contendas territoriais. Lembra a velha história do pai que deixa o legado para o filho. Só que Joaquim Nabuco, além de dar segmento à trajetória do pai no campo político, também se destacou no campo diplomático, superando-o, inclusive, em termos de reconhecimento nacional.


O DIPLOMATA NABUCO

O início da atuação de Joaquim Nabuco, na diplomacia brasileira, data de 1876, aos 27 anos. Foi quando ocorreu o convite para ser adido nos Estados Unidos. Manteve uma boa rede de conhecimentos naquele país, onde também estudou em Nova York e em Washington. A experiência foi tão positiva que ele passou a admirar o país de forma velada, chegando a afirmar: “Durante mais de um ano fui um verdadeiro americano nos Estados Unidos, como o provérbio manda ser romano em Roma. Era o meio de penetrar, de compreender, de sentir a vida política do país, se eu o queria, e este fora o meu motivo ao desejar ir para os Estados Unidos”. Mesmo sendo um monarquista convicto, Joaquim Nabuco se rendeu aos apelos do governo republicano, em 1899, para atuar na solução de um conflito do Brasil com a Guiana Francesa relacionado a limites territoriais. O árbitro da questão era o rei da Itália, Victor Emanuel. Data deste período o processo aproximação de Nabuco com os republicanos. No ano seguinte, com a morte do ministro brasileiro na Inglaterra, Sousa Correia, mais uma vez Nabuco foi convidado pelo governo a assumir o cargo. A princípio, ele aceitou em parte: concordou em ser apenas plenipotenciário em missão especial, deixando o cargo principal para o encarregado de negócios que já se encontrava em Londres. Meses depois, assumiu oficialmente o posto.

Mas a paixão de Joaquim Nabuco era mesmo os Estados Unidos. Por isso, em 1905, quando foi criada a embaixada brasileira em Washington, a sua nomeação foi algo já esperado. As suas credenciais foram apresentadas ao presidente Theodore Roosevelt, no dia 25 de maio de 1905. Foi uma fase profícua para o escritor e diplomata brasileiro, que aumentou em muito sua produção intelectual neste período. Foi quando travou contato com as idéias do panamericanismo, baseado na doutrina de Monroe. Ele também ficou famoso por suas palestras em universidades americanas. O reconhecimento pela boa acolhida recebida dos americanos está marcado nas palavras de Joaquim Nabuco: “Nenhuma das minhas ideias políticas se alterou nos Estados Unidos, mas ninguém aspira o ar americano sem achá-lo mais vivo, mais leve, mais elástico do que os outros saturados de tradição e autoridade, de convencionalismo e cerimonial. Essa impressão não se apaga na vida. Aquele ar, quem o aspirou uma vez, prolongadamente, não o confundirá com o de nenhuma outra parte; sua composição é diferente da de todos”. No dia 17 de janeiro de 1910, Joaquim Nabuco faleceu em Washington, com 60 anos de idade.


O CONTATO COM GRANDES PERSONALIDADES

Uma pequena análise das pessoas com as quais se relacionou no Brasil e no exterior dá uma idéia dos conceitos que sedimentaram a personalidade de Joaquim Nabuco. Os ensinamentos de Ernest Renan, por exemplo, tiveram grande aceitação entre intelectuais brasileiros, e Joaquim Nabuco foi um deles, como ele próprio destacou no livro Minha Formação. Tudo começou quando Nabuco escreveu uma carta a Renan, em francês – Le droit au Meurtre – onde analisava um livro de Alexandre Dumas Filho. Logo depois, quando se encontrava em Paris, Nabuco visitou o historiador e filósofo francês, sendo muito bem recebido. Quando publicou o livro Amour et Dieu, também a receptividade de Renan foi surpreendente, tendo elogiado a obra e se comprometido a abrir caminhos ao escritor brasileiro. E realmente isso aconteceu: o brasileiro conheceu e manteve contatos com Émile Littré, lexicógrafo e positivista, discípulo de Auguste Comte; Auguste Thiers, político e historiador, presidente da França; e George Sand, escritora francesa famosa por suas obras polêmicas e marcantes, entre outros. Mas tudo começou com Renan e o reconhecimento de Joaquim Nabuco foi público e notório. Segundo ele, “a grande influência literária que experimentei na vida, a embriaguez do espírito mais perfeita que se podia dar, pelo narcótico de um estilo de timbre sem igual em nenhuma literatura, o meu coup de foudre intelectual, foi a influência de Renan”.

Em uma obra publicada alguns anos depois, Souvenirs d´Enfance et de Jeunesse, Renan disse que, para não ferir suscetibilidades, costumava dizer inverdades para os jovens escritores. Joaquim Nabuco teria ficado um pouco decepcionado quando leu esta afirmação no livro. Mas é inegável que as primeiras impressões é que devem ter ficado e influenciado o seu pensamento. Quem também teve ampla influência junto a Joaquim Nabuco foi o barão de Tautphoeus, mestre que se exilou no Brasil, vindo da Baviera, e foi seu orientador no colégio em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Foi com ele que o escritor brasileiro desenvolveu principalmente a sua formação humanística: “A abundância de ideias gerais, de pontos de vista sugestivos, de matéria para reflexão em sua conversa, era notável. Pode-se dizer que esse homem que não escreveu nunca, pelo menos no Brasil, publicou maior número de ensaios, de teses históricas e outras, do que todos os nossos escritores juntos: unicamente suas contínuas edições tiradas a pequeno número de exemplares dissipavam-se como a palavra, quando não eram convertidas em trabalho alheio. Que lhe importava isto? Ele era destituído de ambição”.


UM PARLAMENTAR EXIGENTE

Eleito deputado pela província de Pernambuco, em 1878, Joaquim Nabuco destacou-se na tribuna como o líder da campanha pela abolição dos escravos. Nos anos seguintes, sua vida parlamentar em Pernambuco foi intensa. Em 1882 foi derrotado nas urnas quando tentava a reeleição, e em 1884 ganhou mas não levou: sua candidatura foi expurgada pela Câmara daquela província. Revoltados, os candidatos liberais do chamado 5º Distrito, formado pelos municípios de Nazaré e Bom Jardim, renunciaram à disputa e com isso Joaquim Nabuco foi eleito. Em 1886, mais uma vez foi derrotado em Recife, na disputa para a Câmara dos Deputados. O troco veio em dose dupla: no ano seguinte, derrotou o candidato Machado Portela, ministro do Império, e em 1889 se elegeu para a última legislatura do Império. Um detalhe importante em relação ao último pleito é que Joaquim Nabuco não fez nenhum esforço para ser eleito, já que não há registro de discursos ou pedidos de apoio ao povo recifense. Venceu pelo prestígio adquirido nos seus mandatos anteriores. Após a Proclamação da República, optou pelo afastamento da vida pública. Data deste período a sua ligação mais estreita com os escritores brasileiros, o que acabou levando aos debates em torno da criação da Academia Brasileira de Letras, fato este que acabou ocorrendo em 1897, tornando-se ele um dos seus membros fundadores e o primeiro secretário-geral da instituição.


LUÍS DE CAMÕES MAIOR QUE DANTE?

Em Camões e os Lusíadas, Joaquim Nabuco traçou um retrato emocionado e romântico da vida do poeta português, cujas aventuras e dissabores são relatados de forma eloquente e com muito entusiasmo e devoção. Essa paixão pela obra de Camões o levou a fazer uma analogia entre a epopeia do autor português e a principal de Dante Alighieri, Divina Comédia. Ele concluiu que a obra Os Lusíadas era superior, acrescentando inclusive que ela foi escrita com os mesmos ingredientes das obras clássicas de Homero e Virgílio. Neste pequeno trecho dá para depreender o porquê da opinião de Joaquim Nabuco: “A Divina Comédia não é propriamente um poema épico; é um poema fantástico, é o sonho de uma imaginação tão grande quanto melancólica. Nada há de real; são espectros que fogem e se evaporam”. Apesar do respeito que todos lhe dedicavam, não conseguiu angariar uma unanimidade nessa comparação. As duas obras são clássicas, e ambas têm a sua importância histórica no âmbito da literatura universal.


BALMACEDA, UM LIVRO PREMONITÓRIO?

O livro Balmaceda, de Joaquim Nabuco, sobe a guerra civil chilena, é resultado de artigos públicos no Jornal do Commercio. Com muito cuidado e precisão de argumentos, ele analisa a crise do governo do presidente José Manuel Balmaceda, que culminou com o seu suicídio. Uma verdadeira aula de Joaquim Nabuco sobre os diversos sistemas políticos e as relações entre os países, onde são destacados seus vícios, suas fraquezas, suas dificuldades e também suas virtudes. Devido à atualidade do tema, o livro não parece ter sido escrito em pleno século XIX. Segundo Celso Lafer, “a obra transcende os embates da época não só pela qualidade da escrita de Nabuco, que o diferencia dos seus contemporâneos, inclusive os mais eminentes como Eduardo Prado, Rui Barbosa, e Rio Branco, como também pela substantiva atualidade dos seus comentários e da sua exegese política”. Um fato que nos chama a atenção é o alerta dado por ele de que acontecimentos como estes mereciam uma atenção maior por parte das nossas autoridades, para que futuramente não viessem a acontecer aqui no Brasil. Todos recordam da crise política brasileira que levou o presidente Getúlio Vargas a se suicidar no dia 24 de agosto de 1954. Estaria Joaquim Nabuco prevendo que poderíamos chegar também a um ato extremo como este? Premonitório ou não, a tragédia brasileira ocorreu algumas décadas depois da publicação do livro e hoje faz parte da nossa história.


ATÉ UM PAPA SE RENDEU AOS SEUS ARGUMENTOS

A importância de Joaquim Nabuco atravessou as fronteiras e chegou até o Vaticano. Em 1888, com o objetivo de conseguir manifestação do papa Leão XIII contra a escravidão no Brasil, dirigiu-se a Roma. A campanha contra a escravidão estava intensa no Brasil e ele achava que um pronunciamento oficial do papa pudesse sensibilizar o príncipe regente. Era uma luta que ele travava há dez anos, sempre pedindo apoio a outros países, como ele mesmo relata: “A opinião pública do mundo parecia-me uma arma legítima de usar em uma questão que era da humanidade toda e não somente nossa. Para adquirir aquela arma fui a Lisboa, a Madri, a Paris, a Londres, a Milão, ia agora a Roma, e se a escravidão tivesse tardado ainda a desaparecer, teria ido a Washington, a Nova York, a Buenos Aires, a Santiago, a toda a parte onde uma simpatia nova por nossa causa pudesse aparecer, trazendo-lhe o prestígio da civilização”. Durante a audiência, em fevereiro de 1888, com a conversa toda em francês, Joaquim Nabuco pediu apoio do Sumo Pontífice para a condenação da escravidão no Brasil. Após o encontro, houve a promessa da publicação de uma encíclica sobre o assunto, já que, segundo o papa, a causa era tão do Vaticano como do Brasil. Infelizmente, por outros motivos, a publicação da encíclica demorou um pouco, e ela só veio a público após o dia 13 de maio de 1888, quando a escravidão já havia sido abolida entre nós.


A PRESENÇA NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

Um dos fundadores da ABL, Joaquim Nabuco assumiu a Cadeira no 27, cujo patrono é o médico pernambucano Maciel Monteiro. Foi sucedido por Dantas Barreto, Gregório Fonseca, Levi Carneiro e Octávio de Faria. Atualmente, o ocupante da cadeira é o escritor Eduardo Portella, nosso segundo decano. Em seu discurso de posse, como o primeiro Secretário Geral, Joaquim Nabuco já demonstrava o seu estilo, quando assim se expressou: “Nós, os primeiros, seremos os únicos acadêmicos que não tiveram mérito em sê-lo, quase todos entramos por indicação singular, poucos foram eleitos pela Academia ainda incompleta, e nessas escolhas cada um de nós como que teve em vista corrigir a sua elevação isolada, completar a distinção que recebera; só dora em diante, depois que a Academia existir, depois de termos uma regra, tradições, emulação, e em torno de nós o interesse, a fiscalização da opinião, a consagração do sucesso, é que a escolha poderá parecer um plebiscito literário. Nós de fato constituímos apenas um primeiro eleitorado”. Mais adiante, Nabuco comenta, em forma de questionamento, se no fato de se fundar a Academia Brasileira de Letras não estaria embutida a tendência a uma unidade literária com Portugal. Ele próprio mostra que isto não seria necessário, já que, mesmo falando a mesma língua, os dois países tinham os futuros destinos tanto literários quanto nacionais profundamente divididos. E no final do discurso afirmou: “A formação da Academia Brasileira de Letras é a afirmação de que literária, como politicamente, somos uma nação que tem o seu destino, seu caráter distinto, e só pode ser dirigida por si mesma, desenvolvendo sua originalidade com os seus recursos próprios, só querendo, só aspirando a glória que possa vir de seu gênio”.


CAETANO VELOSO E JOAQUIM NABUCO

Em 2000, Caetano Veloso estava preparando o seu próximo CD e leu o livro Minha Formação, de Joaquim Nabuco. O impacto foi tão forte que acabou influenciando todo o projeto do disco e tornou possível a parceria histórica do compositor e cantor baiano com o político e diplomata pernambucano na música Noites do Norte, que também deu nome ao CD. Caetano Veloso, durante a leitura do livro, se emocionou com uma conclusão de Joaquim Nabuco, que denominou de sublime: o servilismo dos escravos representava uma superioridade humana e moral. Ao mesmo tempo, ao detectar a preocupação do escritor com os reflexos da escravidão na vida dos brasileiros, ele localizou na favelização, que hoje marca nos grandes centros urbanos do país, uma das heranças preconizadas no livro. Abaixo, a parte do livro que foi musicada por Caetano Veloso e mostrou, em pleno século XXI, a atualidade e modernidade de um pensamento emitido no século XIX:


Noites do Norte
(Joaquim Nabuco/Caetano Veloso)

A escravidão permanecerá por muito tempo
como a característica nacional do Brasil.
Ela espalhou por nossas vastas solidões
uma grande suavidade;
seu contato foi a primeira forma
que recebeu a natureza virgem do país,
e foi a que ele guardou;
ela povoou-o como se fosse
uma religião natural e viva,
com os seus mitos, suas legendas,
seus encantamentos;
insuflou-lhe sua alma infantil,
suas tristezas sem pesar,
suas lágrimas sem amargor,
seu silêncio sem concentração,
suas alegrias sem causa,
sua felicidade sem dia seguinte...
É ela o suspiro indefinível
que exalam ao luar
as nossas noites do norte.


UMA OBRA QUE NÃO CARECE DE ESTILO

A figura do escritor Joaquim Nabuco transcende questões como escolas e estilos literários. Ele viveu no período em que o parnasianismo e o realismo prevaleciam, mas isto não quer dizer que suas obras necessariamente pudessem ser classificadas como pertencentes a tais gêneros literários. Nem tampouco podemos descartar que, em alguns casos, elas também tenham tido alguma influência nos escritos do grande orador. Como afirmou certa vez Afrânio Coutinho, Joaquim Nabuco era uma “figura à parte, independente de escolas”. No livro Minha Formação, Nabuco parece mostrar a existência dessa particularidade em seus escritos: “Acredito ter recebido, como escritor, tudo é relativo, um pouco de sentimento, um pouco de pensamento, um pouco de poesia, o que tudo junto pode dar, em quem não teve o verso, uma certa medida de prosa rítmica; mas da arte não recebi senão a aspiração por ela, a sensação do órgão incompleto e não formado, o pesar de que a natureza me esquecesse no seu coro, o vácuo da inspiração que me falta...”. Para reforçar a grande personalidade que foi Joaquim Nabuco, podemos reproduzir a opinião do acadêmico Alfredo Bosi, que preferiu destacar a sua figura humana como uma das mais belas do segundo Reinado, pelo desapego que sempre demonstrou em sua vida pública. Segundo Bosi, ele foi o “último grande romântico liberal do Século XIX”.

Para uma análise imparcial da personalidade de Joaquim Nabuco é preciso entender que ele conviveu com homens ilustres como Castro Alves (patrono do romantismo), Tavares Bastos, Saldanha Marinho, Teófilo Ottoni, Rui Barbosa, Afonso Pena e Rodrigues Alves (os dois últimos tornaram-se presidentes da República), e conhecia tanto o inglês e o francês quanto o próprio português. As suas constantes viagens eram sempre recheadas de leituras interessantes, que ele buscava nas melhores livrarias e bibliotecas dos países visitados. Além do francês e do inglês, também dominava outras línguas, como latim, italiano, espanhol e alemão. Além das obras já citadas, Joaquim Nabuco também é o autor dos seguintes livros: A escravidão, Minha Fé, O dever dos monarquistas, A Campanha Abolicionista, O erro do Imperador, O eclipse do Abolicionismo, Eleições liberais e eleições conservadoras, O dever do momento, Por que sou monarquista, A intervenção estrangeira na Revolta de 1893 e O Direito do Brasil. Joaquim Nabuco deixou, na história do Brasil, a marca de uma notável personalidade, como se expressa nos seguintes pensamentos: “Como pode ser criado para a democracia um povo que pratica a igualdade com a escravidão, a liberdade com a escravidão, a fraternidade com a escravidão?” Ou
“Haverá indiferença mais criminosa do que a indiferença com que a classe única que dirige os destinos deste país tem assistido ao crescimento desamparado da nossa população, à promiscuidade de nosso povo, à miséria que se espalha por todo o país, à degradação dos nossos costumes, só se preocupando dos seus interesses de classe, de manter o jugo férreo dos seus monopólios desumanos e atentatórios da civilização universal?” As palavras do grande tribuno ecoam até hoje na consciência nacional.


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