Palestra - A presença de Lima Barreto na literatura brasileira - Arnaldo Niskier

São Paulo, 11 de novembro de 2015.


À CAROLINA
Machado de Assis, 1906

Querida! Ao pé do leito derradeiro,
em que descansas desta longa vida,
aqui venho e virei, pobre querida,
trazer-te o coração de companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
que, a despeito de toda a humana lida,
fez a nossa existência apetecida
e num recanto pôs um mundo inteiro...
Trago-te flores - restos arrancados
da terra que nos viu passar unidos
e ora mortos nos deixa e separados;
que eu, se tenho, nos olhos mal feridos,
pensamentos de vida formulados,
são pensamentos idos e vividos


Em primeiro lugar, quero contar pra vocês uma história real, que envolve a figura de Machado de Assis, patrono da Academia Brasileira de Letras. Como presidente da ABL, visitei o mausoléu situado no cemitério de São João Batista. Estranhei que lá não estivesse o túmulo de Machado de Assis, seu membro mais ilustre. Foi-me então contada uma incrível história. Todos sabem do grande amor que uniu Machado a Carolina. Estiveram casados durante muitos anos. Quando ela morreu, foi enterrada no mausoléu da sua família, que era portuguesa. Quando ele se foi, pouco tempo depois, quiseram que o corpo fosse enterrado ao seu lado. A família dela vetou a pretensão. Alegação: não pode, ele era negro. Uma inacreditável história de preconceito.
Assim, Machado foi enterrado no meio do cemitério de São João Batista, isolado de tudo e de todos. Quase 90 anos depois desse fato lamentável, quando eu soube do ocorrido, dispus-me a reparar a injustiça. Machado não tinha herdeiros, não havia com quem falar. Mas Carolina tinha uma tetraavó, D. Ruth, que morava no Flamengo. Fui à sua presença e pedi autorização para remover os seus restos mortais para junto de Machado, no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras. Ela autorizou. Preparei um local apropriado, na entrada do mausoléu, onde mandei colocar uma escultura bem bonita de Agostinelli e uma parede onde foi talhado o poema “À Carolina”, um dos mais belos da língua portuguesa. Solenemente, foram removidos os restos mortais do casal, juntos para sempre num espaço da imortalidade. Uma chama votiva passou a arder ao lado da escultura. No dia 21 de abril de 1999, cerca de 90 anos depois da morte de Machado de Assis, ele voltou para junto de sua amada, colocando fim a essa triste demonstração de preconceito descabido. Numa festa bonita, em que o cantor Carlos Lyra e sua filha Kay cantaram para uma plateia privilegiada o poema de Machado “Quando ela fala”, a Academia Brasileira de Letras deu ao povo brasileiro a oportunidade de reconhecer que o amor não depende da cor de pele. É superior a tudo e a todos.


CONSCIÊNCIA NEGRA

O mês de novembro ocupa o lugar de protagonista nas celebrações em torno da memória do afrodescendente no Brasil, em razão do Dia da Consciência Negra, comemorado no dia 20 (quando teria morrido o quilombola Zumbi dos Palmares). É uma oportunidade em que pensadores e intelectuais de todo o Brasil preparam uma agenda especial para que se reflita sobre o tema.
Antes de entrarmos no tema de Lima Barreto, propriamente, não podemos deixar de citar que o Governo Federal pretende conceder vagas exclusivas para estagiários afrodescendentes, canalizando a demanda corporativa e contribuindo com a inclusão social. Os candidatos necessitariam se cadastrar no CIEE e outros agentes de integração. Inúmeras empresas já estavam recrutando afrodescendentes para vagas celetistas e serão convocadas à concessão de oportunidades para estagiários negros. Ao se inscrever, o estudante não precisará declarar se é negro, mas a intenção é criar uma rede de contatos aberta para os afrodescendentes.
Um site de vagas exclusivas a afrodescendentes já foi disponibilizado para a divulgação de postos de trabalho na cidade de São Paulo. Com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a prefeitura lançou o portal São Paulo Diverso para canalizar a demanda corporativa e contribuir com a inclusão social.
Os candidatos deverão se cadastrar no endereço eletrônico saopaulodiverso.org.br.
Os profissionais serão direcionados para o grupo São Paulo Diverso, da Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial (SMPIR), nas redes em que os candidatos estiverem cadastrados, entre eles, o Centro de Apoio ao Trabalho e Empreendedorismo (CAT), o LinkedIn e a Catho.
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), afirmou que, embora as empresas não sejam obrigadas por lei a destinar vagas para afrodescendentes, o setor privado terá ganhos econômicos ao promover a diversidade.
Pessoas de fora de São Paulo poderão se candidatar, mas as vagas são somente na capital. No portal, as empresas poderão cadastrar os postos de trabalho disponíveis.


LIMA BARRETO, O DEFENSOR DO TUPI-GUARANI

Em 2015, a Semana de Arte Moderna de 1922, que produziu obras de qualidade em diversos segmentos artísticos, completou 93 anos e foi lembrada com eventos. Mas, para a literatura brasileira, o ano de 1922 marca também um momento de grande tristeza: a morte de Lima Barreto. Foi um escritor atento, que soube como poucos registrar as principais mudanças sociais, políticas e culturais ocorridas no final do século XIX e início do século XX. Incompreendido no passado, hoje Lima Barreto é reconhecido como um dos maiores romancistas brasileiros.
Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido em 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro, era filho de João Henriques de Lima Barreto, tipógrafo da Imprensa Nacional, e de Amália Augusta Barreto, professora. Graças às ligações de seu pai com o Visconde de Ouro Preto, ministro do Império, que também foi o seu padrinho de batismo, ele frequentou os bancos escolares do antigo Ginásio Nacional (hoje, Colégio Pedro II), e também foi aluno da Escola Politécnica, onde pretendia se formar no curso de Engenharia. Foi neste estabelecimento que travou conhecimento com figuras como Bastos Tigre, que o levou a colaborar em diversas publicações, inclusive na chamada imprensa estudantil.
Depois que o seu pai foi internado, após ser diagnosticado como louco, Lima Barreto abandonou os estudos, em 1902, e assumiu a responsabilidade de administrar e sustentar sua família, constituída de seu pai e seus três irmãos, já que sua mãe havia falecido quando tinha seis anos. Através de concurso público, passou a trabalhar na Secretaria de Guerra, em 1903. O curioso é que havia apenas uma vaga e ele ficou em segundo lugar, mas como o primeiro colocado desistiu, Lima Barreto foi convocado a assumir o posto de trabalho.
Mais tarde, em 1907, fundou a revista Floreal, juntamente como Antonio Noronha Santos, Ribeiro Filho, Curvelo Mendonça, Fábio Luz e outros. Apesar de terem sido editados apenas quatro números, a revista teve o privilégio de publicar alguns capítulos do romance Recordações do escrivão Isaías Caminha, que na época chamou a atenção de José Veríssimo. Em 1909, este romance foi lançado em Lisboa, com boa receptividade. O livro mostra os bastidores de um grande jornal, onde o escrivão observava o preconceito racial contra os negros e mulatos no período posterior à abolição da escravatura. Outras atitudes lamentáveis também eram registradas pelo personagem. Por essas particularidades, o escritor Josué Montello achava que o personagem Isaías Caminha era o alter-ego do próprio Lima Barreto.
Ainda seguindo a moda dos folhetins, o escritor iniciou a publicação de Triste Fim de Policarpo Quaresma no Jornal do Commercio, em 1911. Trata-se da principal obra de Lima Barreto. As frustrações do funcionário público Policarpo Quaresma, fanático e sonhador, são levadas às últimas consequências, e suas reivindicações, ridicularizadas. Como aconteceu com a sugestão de substituir o português pelo tupi-guarani como língua oficial do Brasil. Não faz o menor sentido, embora essa ideia, vez por outra, retorne ao cenário.
Outra obra marcante de Lima Barreto que também veio a público através de folhetins foi a sátira Numa e a Ninfa, nas páginas do jornal A Noite, em 1912. Ele soube utilizar com maestria os atos do personagem Numa Pompílio de Castro, bacharel e deputado, para desmontar os tipos dominantes da sociedade burguesa de então, criticando a hipocrisia e os falsos moralismos.
Em 1919, Lima Barreto lançou o livro Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, uma sátira dos costumes da época aos doutores e burocratas. A obra recebeu elogios de João Ribeiro e Alceu Amoroso Lima.
Outros livros de Lima Barreto foram editados (alguns após a sua morte) e compõem, juntamente com os quatro citados antes um conjunto de obras marcantes, que engrandecem a literatura brasileira: Clara dos Anjos, Diário Íntimo, O Cemitério dos Vivos, Bagatelas, Os Bruzundangas e Coisas do Reino de Jambon. Ele também colaborou em diversos jornais e revistas.
Problemas de saúde sempre acompanharam o escritor Lima Barreto, principalmente devido a abusos no consumo de bebidas alcoólicas. Em 1914, ele já havia sido recolhido em um hospício, fato que se repetiu dois anos depois. Quando foi diagnosticada sua incapacidade, em 1918, foi aposentado do serviço público. No ano seguinte, mais uma passagem pelo hospício mostrava ainda dependente da bebida. Até que em 1º de novembro de 1922, aos 41 anos, Lima Barreto morreu de colapso cardíaco, sem ter realizado o sonho de entrar para a Academia Brasileira de Letras. Mais por causa dos seus desvios de conduta do que propriamente por ter descendência negra.


Conceito em construção

A literatura afro-brasileira é um conceito em construção. Na prática, ou seja, verificando-se o volume de textos acumulados em todo este tempo, não há como duvidar da existência desta vertente de nossas letras, ao mesmo tempo dentro e fora da literatura brasileira. É uma produção consistente, que se afirma pela diferença. São obras que circulam majoritariamente em circuitos alternativos, infelizmente. Resta torcer para que consigam atingir maior visibilidade e, quem sabe, cumprir a utopia que os move: formar um público afrodescendente que com eles se identifique.
Quando acrescentado ao texto do escritor negro brasileiro, o suplemento “afro” ganha densidade crítica a partir da existência de um ponto de vista específico — afroidentificado — a conduzir a abordagem do tema, seja na poesia ou na ficção. Tal perspectiva permite elaborar o tema do negro de modo distinto daquele predominante na literatura brasileira canônica. Os traços de negrícia ou negrura do texto seriam oriundos do que a escritora Conceição Evaristo chama de “escrevivência”, ou seja, a experiência como mote e motor da produção literária. É uma escrita que, de formas distintas, busca se dizer negra, até para afirmar o antes negado. E que, também neste aspecto, revela a utopia de formar um público leitor negro.
Aqui cabe uma menção a Maria Firmina dos Reis, autora de “Úrsula”, primeiro romance abolicionista, publicado em 1859, e, sem dúvida, texto precursor. Firmina coloca o negro como referência moral da narrativa: nela, os brancos, quando bons, assim o são porque conseguem ser tão bons quanto o jovem escravo Túlio... E este ponto de vista, absolutamente revolucionário para o Brasil de meados do século XIX, juntamente com outros méritos do romance, não foi suficiente para retirar Firmina do mesmo esquecimento que recai sobre outros autores negros. A autora chega a se desculpar no prólogo por ser mulher de pouco estudo.
Já Cruz e Sousa, apesar da militância abolicionista, dos inúmeros poemas, crônicas, cartas, e do contundente testamento literário que é o “Emparedado”, continua caracterizado por muitos como “negro de alma branca”. Em geral, dele só se leem “Missal” e “Broquéis”.
Costuma-se dizer que esses autores estão encurralados “entre a assunção e o recalque da afrodescendência”, remetendo-se à branquitude dos conceitos e valores críticos hegemônicos, detentores do poder literário capaz de elevá-los ou deixá-los no limbo, e isto ainda hoje, em pleno século XXI.
Se verificarmos atentamente, é possível que o romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha” — onde Lima Barreto desnuda o racismo que perpetua a escravidão dissimulada —, não faça parte de nenhum programa de literatura de nossos cursos de Letras. Polêmico e provocador, Lima Barreto respondia sempre que o indagavam pela identidade étnica: “negro ou mulato, como queiram”. Resultado: morreu vendo serem-lhe fechadas todas as portas da cidade letrada.
O que há de mais singular na formação e no desenvolvimento da literatura afro-brasileira, em comparação com processos similares no resto do mundo, talvez seja o fato de os autores, sobretudo de 1930 em diante, terem a todo instante de declarar a palavra “negro” como instância de afirmação de uma identidade denegada pelo imaginário social hegemônico. Isto ocorreu também nos Estados Unidos, com o New Negro Movement e nos países francófonos com a Négritude, que assumiu a palavra “negro” como enfrentamento ao sentido pejorativo nela alocado. Tal rebaixamento decorre também do estigma que, a partir do discurso bíblico, envolve o signo “negro” no Ocidente.
A transformação do negro em tabu linguístico talvez seja o mais cruel legado da escravidão. No dicionário, vemos dezenas de “sinônimos atenuantes”: preto, pardo (este adotado oficialmente pelo IBGE), marrom, moreno, chocolate. Diante disso, são inúmeros os autores a destacar a assunção pelos próprios afrodescendentes do estigma que os desqualifica a partir da cor da pele.
A luta dos negros para se projetar no Brasil, aliás, nunca foi fácil. Mesmo no futebol, onde eles brilham atualmente, foi difícil. Conta João Saldanha em seu livro “O Subterrâneo do Futebol Brasileiro” que quando um treinador do Botafogo tentou contratar um jogador chamado Chicão, toda a diretoria se contrapôs. Impossível, disse ela. A camisa do Botafogo, segundo a diretoria, já tinha o preto entre suas cores, imagina um preto no elenco! “Mas quem disse que o Chicão é preto?”, argumentou o treinador. E acrescentou que, apesar do nome, era mais branco do que ele. No dia em que o Chicão se apresentou no Botafogo, naturalmente, só tinha de branco, segundo seus colegas, “os dentes” e o “canto dos olhos”.
A luta dos negros na Academia Brasileira de Letras não é diferente. Num universo um pouco inferior a 400 acadêmicos, apenas algumas dezenas (incluindo-se aí os mulatos), sentaram em uma de suas cadeiras ao longo de sua história. Apesar de a Academia ter nascido colocando, em sua Presidência, o maior dos nossos escritores, o negro Machado de Assis, a negritude do “Bruxo do Cosme Velho”, no entanto, não se assemelhava nem um pouco com a de Cruz e Sousa ou Lima Barreto. Machado, afinal, era filho de pardos, enquanto Lima Barreto e Cruz e Sousa eram filhos de escravos.
Depois, a ABL teve entre os seus imortais, dois religiosos de descendência negra: o Arcebispo D. Aquino Correia, de Mato Grosso do Sul, e D. Lucas Moreira Neves, de Minas Gerais. Hoje, apresta-se para eleger para a presidência o Professor Domício Proença Filho, do Rio de Janeiro, que também é afrodescendente. Sinal de que na Casa de Machado de Assis não prevalece o preconceito, sob nenhuma forma.

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