Palestra - A Reforma do Ensino Médio- Arnaldo Niskier

Rio de Janeiro, 16 de maio de 2017.


As mudanças de grande amplitude que caracterizam a sociedade contemporânea vêm causando um impacto de proporções inéditas no campo educacional, particularmente no que concerne à juventude. O aumento crescente da demanda por mais escolaridade, a busca por novas formações, a necessidade de percursos curriculares mais flexíveis, a existência de recursos pedagógicos tecnologicamente avançados, o advento da internet e das redes sociais e a comprovada limitação das metodologias mais ortodoxas tornam evidente que a escola, como é hoje, não atende às expectativas e necessidades da juventude brasileira.
O professor tem como desafio alfabetizar-se nas tecnologias inovadoras e descobrir-se um facilitador do processo educacional, reinventando um conjunto de ações didático-pedagógicas. A incorporação das novas tecnologias ao ensino não pode descuidar da investigação acerca da realidade em que os docentes estão inseridos, especialmente sua prática pedagógica, formação e experiências. Esses elementos poderão ser determinantes para modificar a ação docente.
A escola, enquanto espaço físico, precisa reunir as condições materiais para a implantação de equipamentos e programas. As novas tecnologias, aliadas à práxis do ensino, aprimoram e dinamizam o processo educacional. As inovações tecnológicas potencializam o ensino-aprendizagem; as instituições de ensino não podem prescindir delas; o docente precisa ser estimulado ao uso dos novos recursos.
Ao longo da história a escola foi adaptando-se às novas tecnologias. Num primeiro momento a educação formal era baseada em aulas expositivas, com o enfoque no discurso do professor. Depois, deu-se a invenção do quadro-negro,. No início, houve resistência, e, apenas com o passar dos anos foi possível quebrar as resistências. Atualmente, temos diversas mídias educacionais. O grande desafio é saber utilizá-las de modo eficiente e permitir que elas contribuam com as práticas pedagógicas.
A escola tem sido pressionada a integrar a educação com tecnologias eletrônicas, mas nem todos os espaços físicos estão adaptados para receber os equipamentos e muitos docentes ainda não dispõem de conhecimentos teóricos e práticos para o uso dos novos recursos didáticos. Os ambientes que conseguiram reunir as condições materiais e os recursos humanos qualificados têm obtido bons resultados no processo ensino-aprendizagem.


NOVA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) abre uma nova fase na educação brasileira. Resultado de intensa participação da sociedade, a primeira versão, lançada em 2015, recebeu 12 milhões de contribuições e deu origem à segunda, em maio de 2016. A versão final incorpora sugestões de 9 mil professores e especialistas e estabelece, entre outros pontos, que toda criança deve estar plenamente alfabetizada até o fim do segundo ano, entre 6 e 7 anos de idade – um ano antes do prazo previsto pela versão anterior. O documento, que servirá como referência para o currículo de todas as escolas do país, foi entregue ao Conselho Nacional de Educação (CNE) para avaliação e, até o final do ano, deve ser homologado pelo ministro da Educação Mendonça Filho.
As escolas terão dois anos para se adequar às novas diretrizes. Entre outros pontos, o documento exclui o ensino religioso e indica a Língua Inglesa como idioma estrangeiro a ser ensinado. Outros pontos chamaram atenção da nova versão da BNCC: o texto traz dez competências para a educação básica. A Base determina o que é essencial, quais habilidades e conhecimentos serão exigidos dos estudantes ao final de cada ano letivo da educação básica. O passo mais difícil, sem dúvida, será tirar o novo currículo do papel. A base não é currículo. Não estabelece método de ensino, projeto pedagógico nem formas de avaliação. Apenas determina o ponto aonde se quer chegar.
Ao definir conhecimentos essenciais e competências que todo aluno deve desenvolver, a Base estabelece direitos iguais de aprendizagem, organizando a progressão do ensino e apontando o que se espera da escola. Mas seu papel é ser referência para a elaboração dos currículos. A Base dá o rumo; os currículos traçarão os caminhos.
Para que o guia curricular anunciado passe a valer em 2019, após apreciação final do CNE – que ainda vai levar um ano – será preciso investir na infraestrutura das escolas do país inteiro. Maior do que qualquer administração, a Base é um esforço do Estado brasileiro, prevista na Constituição, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e no Plano Nacional de Educação. Por si só, o documento não mudará o cenário atual. Para que transforme a vida de milhões de crianças e adolescentes, precisa-se da estreita colaboração de todas as esferas de governo.
As escolas das redes públicas e privadas deverão adequar seus currículos. O mesmo vale para a formação de professores, a produção de materiais didáticos e as avaliações nacionais.


PONTOS SENSÍVEIS

Na prática, a BNCC projeta aquilo que a educação deve ser no futuro por meio da descrição das habilidades desenvolvidas a cada ano letivo em quatro áreas do conhecimento: linguagens, ciências da natureza, ciências humanas e matemática. Um dos pontos mais sensíveis das mudanças foi a antecipação da alfabetização das crianças. A Base determina que alunos do 2º ano do ensino fundamental consigam ler, escrever e compreender. A meta antes prevista para o 3º ano foi antecipada para os sete anos, quando as crianças estão matriculadas no 2º ano do fundamental. A mudança vai exigir mudanças em pelo menos 146 mil escolas públicas, onde estudam 7,5 milhões de alunos de 6 a 8 anos, além das pré-escolas, para alunos de 4 e 5 anos. Caberá aos currículos escolher o método de alfabetização e os materiais didáticos, além da forma de avaliação dos alunos.
A tendência de antecipar a alfabetização começou nas escolas particulares depois de 2010, quando o ensino fundamental passou de oito para nove anos de duração, e o antigo "pré" se tornou o 1º ano do fundamental.
Desde 2013, as escolas públicas brasileiras seguem o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), uma iniciativa para estimular que as crianças estejam plenamente alfabetizadas aos 8 anos, no 3º ano do fundamental.
Mesmo assim, não é isso o que acontece na realidade: dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) de 2014 mostram que um quinto dos alunos da rede pública chegou ao 4º ano do fundamental sem aprender a ler adequadamente.
Além disso, estudos indicam que o processo de alfabetização é longo e, para ser concluído aos sete anos, precisa começar com as crianças mais novas, que ainda não estão preparadas para isso.
Está em jogo o embate entre usar os anos do ensino infantil para atividades lúdicas que estimulam os pequenos a reconhecer sua identidade e se interessar em aprender sobre o mundo, ou para estimular o aprendizado conteudístico, visto por muitos adultos como sinônimo de sucesso profissional. Segundo o ministro da Educação, Mendonça Filho, a mudança atende a uma necessidade de dar foco à alfabetização para que os estudantes, sobretudo os mais pobres, tenham uma trajetória escolar mais efetiva e proveitosa. A medida é apontada como uma adequação do Brasil em relação a práticas já seguidas por países em desenvolvimento.


COMPETÊNCIAS

Entre os pontos que chamaram atenção na nova versão da Base estão as dez competências para educação básica, ou seja, habilidades que devem ser necessariamente desenvolvidas ao longo da trajetória, abordando pontos ligados ao conhecimento e também aspectos sócioemocionais. A intenção é que, ao longo do processo, o jovem tenha recebido formação integral. O documento será referência obrigatória na elaboração dos currículos de escolas públicas e particulares de todo o Brasil.
Eis as 10 competências gerais para a Educação Básica:


Valorizar e utilizar o conhecimento

Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social e cultural para entender e explicar a realidade (fatos, informações, fenômenos e processos linguísticos, culturais, sociais, econômicos, científicos, tecnológicos e naturais), colaborando para a construção de uma sociedade solidária.


Curiosidade para inventar soluções

Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e inventar soluções com base nos conhecimentos das diferentes áreas.


Senso estético para arte e cultura

Desenvolver o senso estético para reconhecer, valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também para participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.


Conhecer as formas de linguagem

Utilizar conhecimentos das linguagens verbal (oral e escrita) e/ ou verbo-visual (como Libras), corporal, multimodal, artística, matemática, científica, tecnológica e digital para expressar-se e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e, com eles, produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.


Usar tecnologias de forma crítica

Utilizar tecnologias digitais de comunicação e informação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas do cotidiano (incluindo as escolares) ao se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos e resolver problemas.


Valorização da diversidade cultural

Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao seu projeto de vida pessoal, profissional e social, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.


Argumentação com dados confiáveis

Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos e a consciência socioambiental em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.


Autocrítica para reconhecer o outro

Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas e com a pressão do grupo.


Dialogar sem preconceitos

Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de origem, etnia, gênero, orientação sexual, idade, habilidade/necessidade, convicção religiosa ou de qualquer outra natureza, reconhecendo-se como parte de uma coletividade com a qual deve se comprometer.


Ação segundo princípios éticos

Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões, com base nos conhecimentos construídos na escola, segundo princípios éticos democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidário


Essas competências pressupõem que os alunos devem aprender a resolver problemas, a trabalhar em equipe com base em propósitos que direcionam a educação brasileira para a formação integral e para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. Com isso, todo o trabalho deverá ser feito com respeito à diversidade.
O documento apresentado trata exclusivamente da educação infantil (creche e pré-escola) e do ensino fundamental (1º ao 9º ano). Segundo o ministro da Educação, Mendonça Filho, a Base referente ao ensino médio será entregue até o final de 2017, já adaptada às diretrizes do Novo Ensino Médio.
Além de dar visibilidade aos conteúdos essenciais, a Base determina o que os alunos devem saber a cada ano de escolarização. Desse modo, ajudará professores e escolas a organizarem a progressão das aprendizagens em todo o território nacional.


ACERTO

Manter a autonomia das escolas é um acerto, num país com o tamanho e a diversidade do Brasil. Os currículos terão a tarefa de contextualizar conteúdos, de acordo com as especificidades locais e regionais, estimulando a autonomia dos sistemas de ensino. O Brasil terá uma Base e muitos currículos.
Ao definir conteúdos essenciais para todos os alunos, a Base promove igualdade de oportunidades. Porém, é preciso estreita colaboração entre todas as esferas do governo para que as novas orientações cheguem em todas as salas de aula.
A Base resultou de intensa colaboração entre governos, professores, gestores e especialistas. Trata-se de obra coletiva que traduz o empenho da sociedade e do Estado. O que a terceira e atual versão do documento mostrou é que a educação brasileira será mais experimental e menos expositiva. As ideias são ótimas. Transpor o documento normativo, de cerca de 300 páginas, para a realidade dos sistemas de ensino exigirá articulação, competência e investimento. A implementação requer planejamento, infraestrutura, treino de professores e material adequado. Um desafio do tamanho do Brasil.


A IMAGINAÇÃO É O LIMITE

Estamos nos aproximando do ano de 2018, quando as 200 mil escolas brasileiras estarão diante desse desafio de implantação das novas bases curriculares. Nada menos de 45 milhões de estudantes serão orientados por cerca de 2 milhões de professores, espera-se, com novos e revolucionários conceitos.
Na discussão em torno do assunto, a imaginação é o limite. Enquanto nos preocupamos com a iniciação ao ensino de matemática, outros educadores se debruçam sobre a adoção de jogos na ciência do raciocínio, o que não deixa de ser razoável. Dando um salto para chegar ao ensino médio, há os que defendem a ampliação dos horários de sociologia e filosofia, como matérias fundamentais.
Em nosso caso, preocupa-nos, no atual esquema de horários limitados, onde vai caber isso tudo. A cada momento somos impactados pelos exemplos da Finlândia, Austrália, Japão, Shangai e Coréia do Sul. Estamos encantados pela qualidade do ensino nesses países ou regiões, que são do nosso conhecimento pessoal. Só não nos lembramos da chamada carga horária. Enquanto por aqui contentamo-nos com cerca de três ou quatro horas diárias (sem contar a febre de greves e invasões contumazes), nos exemplos citados os estudos abrangem o período de oito às quinze horas, como uma tradição ininterrupta.
Competir nos exames internacionais, como o Pisa, assim, se torna impraticável. Não é de se estranhar que o Brasil figure no 53º lugar nas provas de língua e literatura ou matemática. A parada é rigorosamente desigual. Parece que esperamos milagres dos nossos jovens.
É preciso caminhar na direção do tempo integral nas escolas, condição para que se tenha objetivamente a possibilidade de oferecer aos educandos a massa de informações que eles dispõem nas nações mais desenvolvidas do planeta, e das quais estamos divorciados infelizmente a alguns anos-luz. Não adianta questionar somente o conteúdo da Base Nacional Curricular, mas é preciso que se tenha uma carga horária generosa à disposição de alunos e professores.


ERA DIGITAL

A tecnologia está mudando a educação, não apenas na organização, escolha e disponibilidade dos conteúdos, mas também na distribuição. Isso obriga instituições de ensino a se adaptarem ou irão fracassar nos novos conceitos da sociedade digital. Um dos objetivos da educação é desenvolver a capacidade de tomar decisões conscientes, formar o cidadão para a sociedade, tornando-os mais crítico sobre assuntos do cotidiano.
Há uma disseminação geral das tecnologias da informação e comunicação. É possível perceber que de forma geral elas integram a vida das pessoas, estão presentes em diversos seguimentos e influenciam a vida social. A escola como centro de formação e do saber não pode negar o relacionamento entre o conhecimento no campo da informática e os demais campos do saber humano. Trata-se de uma nova forma de linguagem e de comunicação.
Hoje, só uma em cada dez escolas públicas que oferecem ensino fundamental (1º ao 9º ano) no Brasil tem laboratório de ciência, de acordo com dados do Censo Escolar 2015. Isso dá menos de 10 mil escolas de ensino fundamental regular, de um total de 112.393 espalhadas pelo país.
O ensino por experimentação, como requer a Base, demanda pesquisa – o que, hoje em dia, é impossível sem acesso à internet. No Brasil, a maioria das escolas tem laboratórios de informática trancafiados em salas que ninguém acessa e a internet, quando existe, não dá conta de pequenos downloads. Se a Base curricular não vier acompanhada de um bom planejamento corre o risco de ficar desconectada da realidade.


AUTONOMIA

A sociedade contemporânea vive conectada à mídia, o que acarreta uma mudança considerável na velocidade de propagação da informação, da mesma forma que colabora para a criação de ambientes virtuais e de um novo espaço de comunicação.
Com o atual nível de extremo desenvolvimento dos meios de telecomunicação, como as redes interativas de computadores, vídeos e áudios, é possível um diálogo mais ágil e particular com o professor e, principalmente, com os próprios alunos. Assim, esses meios de comunicação viabilizam programas menos estruturados que os meios de comunicação impressos e gravados.
Com o desenvolvimento das tecnologias, o aluno tornou-se cada vez mais autônomo e independente sem ficar limitado pelas restrições de tempo e espaço. Países da Europa, África e América têm se destacado como propulsores de metodologias ligadas às novas tecnologias. Como exemplo de inovações tecnológicas no âmbito do ensino, a partir de 1994, com a expansão da Internet nas Instituições de Ensino Superior (IES), as universidades brasileiras começaram a ofertar cursos superiores à distância e a utilizar as novas tecnologias de informação e comunicação (TIC) com maior frequência. Desde então, a Educação à Distância criou um mercado amplo e sem precedentes cujas fronteiras são cada vez mais infinitas.
Estamos vivendo em pleno mundo digital. Embora ainda existam bolsões de pobreza, a verdade é que, de 20 anos para cá, a internet comercial é uma realidade, hoje com cerca de três bilhões de navegantes. Ter um celular passou a ser um direito humano para cerca de 5,2 bilhões de pessoas, que representam ¾ do mundo.
A esse incrível número correspondem empresas que valem 2,4 trilhões de dólares na Bolsa de Valores de Nova Iorque. A Internet continua a crescer, inclusive porque Google e Facebook têm projetos sociais de implantar a benfeitoria em regiões carentes. É uma forma de valorizar o que entendemos por direitos humanos universais. Vídeos são vistos em celulares, registrando um fenômeno novo em escala mundial: são telas verticais e móveis. Há 20 anos seria pouco provável que se pensasse nessa possibilidade.
Com a necessidade de atendimento educacional, sobretudo em países socialmente desfavorecidos, esses novos mecanismos abrem perspectivas de democratização de oportunidades como jamais se viu. Assim, pode-se ligar a Internet a uma escala planetária de ofertas, valorizando o conceito de direitos humanos.
A que se devem agregar as potencialidades da modalidade de Educação à Distância, hoje, em plena expansão, pois se trata de um fator reconhecidamente barato e eficaz. A EAD se vale dos avanços científicos e tecnológicos e tende a um crescimento explosivo, mesmo em nações subdesenvolvidas, onde as inovações custam mais a chegar, mas acabam se beneficiando também do progresso.
No Brasil, a EAD está vencendo preconceitos iniciais e conquista cada vez mais estudantes, com mais de 1 milhão e 300 mil de matriculados. Há 1.200 cursos à distância no país e a alta nos vestibulares é bastante significativa: cresceu 80% nos últimos dois anos. A modalidade atrai um número cada vez maior de adeptos, embora a maioria pertença ao ensino privado (cerca de 60% do total).
Hoje, com o avanço tecnológico, os alvos da EAD passaram a ser os indivíduos que já estão inseridos no processo produtivo, com faixa etária acima dos 25 anos e problemas de tempo ou geográficos, para frequentar uma faculdade regular. São também gerentes de bancos ou de supermercados, por exemplo, que se matriculam nos cursos de educação à distância com o objetivo de melhorar o desempenho em seus trabalhos. E sem a necessidade de abandono de emprego ou de afastamento da família.
O esforço para integração de plataformas deve incluir softwares, equipamentos e serviços de telecomunicações. Há diversas experiências em andamento, a partir de autorizações do Conselho Nacional de Educação. Mas o número ainda é pequeno para as imensas necessidades pedagógicas do país.
Cerca de 25 milhões de brasileiros com mais de 16 anos têm acesso à Internet, mas devemos pensar que somos uma população superior a 204 milhões de habitantes. Ainda é pequeno o índice dos que têm esse privilégio, mais adstrito a escolas particulares, tornando bem visível o fosso entre incluídos e excluídos digitais, no quadro geral de pobreza do País.


ESCOLA DO SÉCULO 21

O professor, muito além de letras e números, transmite valores. Na escola o aluno aprende a pensar. Essa é a sua função essencial: desenvolver a inteligência reflexiva. Ao focar a ética é impossível dissociá-la da educação e da qualidade da escola. É também função da escola desenvolver o potencial de liderança que existe em todo ser humano.
Todo o processo educativo tradicional é baseado na cognição, ou seja, como se aprende e como se ensina. O mais importante no futuro será a metacognição: o aluno terá que entender o processo a que está submetido e conhecer seus avanços, obstáculos e deficiências. Isso abre a porta para um novo ponto: a classe não se dividirá mais entre aqueles que sabem e os que não sabem, mas dará espaço para um terceiro, que não sabe o conteúdo, mas sabe onde encontrá-lo. No mundo atual e futuro, é mais relevante a atitude de uma pessoa diante de uma pergunta para a qual ela não tem resposta, porque o acesso à informação não é mais crítico.
A sociedade do conhecimento é uma sociedade de aprendizagem. O sucesso econômico e uma cultura de inovação contínua dependem da capacidade de atualização socioeducativa. A era atual não funciona mais a partir da força das máquinas, mas a partir da força do cérebro, do poder de pensar, de aprender e de inovar. Pretende-se trocar a educação conteudística, marcada pelos decorebas, por uma educação comportamentalista que envolve, basicamente, a formação do caráter dos jovens, transmitindo tanto conhecimentos, quanto comportamentos éticos, práticas sociais e habilidades gerais.
A tradição educativa ocidental tem determinado uma educação voltada para o saber cumulativo de conteúdos, intimamente ligado ao comportamento verbal dos professores, onde a preocupação maior é a obtenção de grau quantitativo e não qualitativo.
O grande problema das organizações atuais é a relação fragmentada do poder. No caso da organização escolar, as lideranças dispersas em ilhas formam um arquipélago organizacional, onde cada um cumpre burocraticamente seu papel.
Esse modelo de escola já não nos leva a uma aprendizagem efetiva, pelo fato de estar em desarmonia não só com as mudanças de comportamento social, quanto aos avanços tecnológicos. Se o professor não estiver atento à estrutura cognitiva e emocional do aluno, o aprendizado fica comprometido. Segundo especialistas, conhecer o funcionamento do cérebro contribui para o rendimento dos estudantes.
Pesquisas recentes revelam que a neurociência potencializa a inteligência dos alunos. O professor precisa trabalhar a mesma informação de modos diferentes, buscando as individualidades e tornando as aulas atraentes. Para prestar atenção em algo, o cérebro está sempre lutando contra pensamentos e elementos visuais que se dispersam. É preciso buscar melhores caminhos para a assimilação de informações, reforçando a necessidade de se combater um modelo de ensino que reduz a aprendizagem à memorização de conteúdos.
Não por acaso, vemos professores investindo em práticas ligadas à música e à dramatização em suas aulas. Os ritmos e sons abrem muitas conexões para a memória de longo prazo, que é a que fixa a aprendizagem.
O professor é o agente educacional básico. É ele quem interage com o aluno quase o tempo todo. Por paradoxo, o magistério, em geral, não recebe a consideração merecida e, por frustração, reage inconscientemente, adotando atitudes incompatíveis às suas funções.
Por mais controvérsias que existam sobre métodos de ensino, um conjunto de ideias virou praticamente consenso entre educadores nas últimas décadas. Algumas delas: o aluno deve gostar do que aprende; decorar informações é negativo; e desenvolver competências como pensamento crítico, mais do que ensinar o conteúdo curricular, é o verdadeiro papel da escola do século XXI.
A verdadeira pedagogia moderna, baseada nas ciências cognitivas do século XXI, mostra que não basta saber ler. Os jovens devem ter fluência na leitura e nas operações matemáticas. Português e matemática são duas disciplinas estruturantes, que permitirão progredir nas outras. Isso permite aos alunos libertar a mente para as outras atividades de ordem cognitiva. É impossível aplicar criativamente conceitos se não se conhecem esses conceitos. Não se podem saltar etapas.
As escolas não são máquinas de ensino. O papel de liderança do professor é fundamental para reverter a situação mecanicista que ainda predomina em nossas salas de aula. Mas para isso é necessária a mudança na cultura organizacional, criando-se um clima motivador à participação e à criatividade. Uma escola competente integra lideranças e motivações. Cria uma cultura de participação e criatividade. Está aberta à comunidade, a intercâmbios enriquecedores, às vivências de situações-desafio.
A incompetência camuflada em exteriorizações burocráticas de poder acadêmico formal é fonte de insucessos. Todos têm condições de exercer influência na construção do bem coletivo - dirigentes, professores, orientadores, auxiliares, alunos e pais. A integração sistêmica desses personagens no contexto pedagógico-organizacional é relevante à sinergia e aos resultados.


DESAFIOS

Segundo a educadora americana Karen Cator, executiva da área de educação da Apple, ex-diretora do Departamento de Tecnologia Educacional dos Estados Unidos, durante o primeiro governo Obama, os cursos superiores de educação nos Estados Unidos e no Brasil enfrentam problemas semelhantes: mais teoria do que prática, além de pouca ênfase no uso da tecnologia para melhorar o aprendizado dos alunos, mesmo que os novos professores já sejam nativos da era da internet.
Ao ser perguntada sobre os maiores desafios para o Brasil usar tecnologia na educação, Karen respondeu: “A educação pública no Brasil tem muito o que melhorar em termos de garantir que todos os estudantes tenham acesso a um ensino de qualidade. Tanto no Brasil como na maior parte do mundo, há boas iniciativas ocorrendo, mas não há equidade. Elas não são distribuídos igualmente. O desafio real é dar acesso equitativo à tecnologia para todos os alunos e, em seguida, melhorar a habilidade das pessoas de fazer bom uso deste acesso para uma educação de qualidade. Uma das coisas que a tecnologia pode fazer é ajudar os professores a melhorarem e também os alunos, especialmente se os alunos estão em um local sem um professor bem formado.”
E Karen Cator prosseguiu: “Se eu e você precisássemos aprender algo novo hoje, provavelmente entraríamos na internet para procurar respostas, especialistas e recursos, porque a tecnologia dá à internet, com seus materiais, livros de domínio público, e uma miríade de recursos que ajudam os alunos, além de oferecer plataforma para publicar e conseguir feedback.”
À pergunta que lhe foi feita, indagando que bons exemplos de uso da tecnologia nas salas de aula, os Estados Unidos poderiam oferecer, Karen respondeu: “Nos Estados Unidos, assim como no Brasil e em outros países, existem algumas escolas muito boas, algumas ilhas de excelência nas quais coisas inspiradoras e interessantes estão acontecendo nas salas de aula. Já vi salas de aula muito bem-sucedidas nas quais os professores permitiam que os alunos usassem seus telefones celulares e os próprios professores os utilizavam de maneira produtiva, por exemplo, para saber se os alunos estão compreendendo o que está acontecendo durante a aula, se sabem buscar as informações necessárias para resolver problemas.”
O interesse dos alunos em tecnologia ainda é visto como dor de cabeça por muitos professores, que reclamam da distração que a internet e os celulares, por exemplo, podem representar em sala de aula. Em relação à pergunta que lhe foi feita sobre quais são as habilidades do século XXI que os alunos devem ter, Karen respondeu: “Habilidades de resolução de problemas, pensamento crítico, comunicação, criatividade, método de abordar problemas que valorizem contexto, conhecimento, empatia ajudam os alunos a terem mentalidade de aprender durante toda a vida. E aprender durante toda a vida é uma das coisas mais importantes que os estudantes podem desenvolver enquanto estão na escola.”
Além de conhecer a tecnologia, o professor do século XXI deve saber administrar uma sala de aula, arrebatar os corações e mentes dos alunos e engajá-los na resolução de problemas complexos usando a tecnologia.


O ENSINO DE LITERATURA

Na análise da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), deve-se prestar muita atenção aos conteúdos das matérias – e o ensino da literatura deve ser devidamente considerado.
Observa-se na realidade brasileira que a crítica literária goza hoje de menos prestígio, por motivos que não são claros. Até meados do século XX ainda havia certo fervor, mas isso foi decrescendo. A prova disso é a drástica redução da presença da crítica literária nos jornais existentes. Até mesmo O Globo, de tamanha tradição, reduziu o seu caderno Prosa e Verso a menos de duas páginas semanais, o que seria impensável há 50 anos. Feiras, prêmios e lançamentos têm o seu espaço, mas a crítica literária cedeu lugar aos crescentes espetáculos audiovisuais. Menos lugar para a literatura, embora seja graças a ela que podemos apreciar grandes textos no cinema, no teatro e na TV.
Como valorizar o ato de pensar com o decréscimo do interesse pela literatura? Será com ela presente ostensivamente no currículo que se vai elevar o nível dos alunos, hoje uma reivindicação dos nossos educadores.
Escrever cada vez mais parece plenamente justificável, se essa verdade for bem compreendida pelos mestres. Devem eles estimular a leitura no espírito dos seus alunos, pois esse é o começo de tudo. Quem lê muito escreve melhor. Por essa razão, temos criado uma série de iniciativas culturais de grande sucesso, como as maratonas escolares que se realizam há quase dez anos no sistema municipal de ensino do Rio de Janeiro. São concursos de redação, tendo como mote a biografia de grandes imortais da Academia Brasileira de Letras, com uma participação bastante expressiva dos alunos das séries mais elevadas do ensino fundamental.
A metodologia de ensino tradicional da Literatura, como disciplina, no Ensino Médio, focava-se na periodização literária, no acúmulo de teoria. Não estimula, dessa forma, o jovem estudante a pensar. A matéria deveria ter como premissa primordial formar leitores críticos.
Será preciso uma reestruturação do ensino da disciplina nos currículos a serem elaborados pelas escolas, objetivando o desenvolvimento crítico do pensamento, tão importante para facilitar a argumentação nas redações propostas pelo ENEM. Textos contemporâneos, mais próximos da realidade dos alunos, romperiam o bloqueio inicial que se cria ao apresentar a Literatura ao estudante a partir, por exemplo, de obras do trovadorismo, classicismo, barroco etc.
Fazendo um caminho contrário, partindo do mais contemporâneo, o professor poderia vir a conquistar o aluno e, após certa maturidade de leitura, este teria bagagem para ler uma obra clássica, compreender e apreciar, ou renegar, mas já com argumentos sólidos para isso.
É imprescindível que o professor abandone o preconceito destinado a certos tipos de leitura. Não se deve ter preconceito quando um jovem manifesta interesse por um tipo de livro. Qualquer livro é melhor do que livro nenhum. Um exemplo: a crença de que jovens se assustam com livros grandes, com muitas páginas, foi por água abaixo quando começou o fenômeno Harry Potter. Pode, quem quiser, falar mal do bruxinho inglês, mas a verdade é que ele fez muitos meninos e meninas perderem o medo de ter na mão um livro de trezentas páginas ou mais. Daí a chegar ao “Guerra e Paz” é um passo.
A partir de um necessário amadurecimento como leitor, o aluno terá condições de ler, compreender e apreciar outras obras literárias, consideradas por ele, a princípio, mais complexas e, dessa maneira, estabelecer as relações para o entendimento da história da Literatura, verificando que não existe uma separação, propriamente dita, da obra, do autor e do contexto histórico-social, tendo em vista que eles se complementam na análise literária.
O Brasil detém uma das piores posições no ranking dos não leitores em todo o mundo. Dados oficiais informam que no país se lê pouco; a população de leitores, embora cresça em números absolutos, mantém-se estável em números relativos. Significa afirmar que, em 2011, o público leitor cresceu para 71,9 milhões, mas os livros não passaram de 3,1 exemplares por pessoa/por ano. Ou seja, no universo dos letrados não se consegue ler sequer quatro livros por ano. Não se criou o gosto pela leitura.
A escola tem poder para promover essas mudanças e fazer da leitura um instrumento de libertação. Considerando que o país vive a triste dicotomia – “escolas do século XIX, professores com recursos do século XX e alunos conectados com o século XXI” – percebe-se o despreparo de instituições para envolver e canalizar ações pedagógicas eficazes.
Uma inovação que merece nossa atenção é a flipped classroom (sala de aula invertida), que propõe que os alunos estudem os conteúdos antes das aulas, utilizando vídeos, games ou outros recursos. O professor fica mais concentrado na tarefa de tirar dúvidas, o que aumenta a eficácia das aulas.
No formato de aula invertida, o professor grava vídeos de curta duração (5 a 15 minutos) em que apresenta os conceitos fundamentais de um determinado conteúdo. Os alunos, respeitando o ritmo individual, assistem às apresentações fora da sala e do período de aula. No encontro seguinte, os estudantes usam os conceitos apresentados no vídeo para solucionar problemas, com a ajuda do professor e de seus colegas. Assim, o que é entendido como aula no esquema tradicional (a exposição de conceitos) transforma-se em “lição de casa”, e a resolução de questões para aprofundamento e sistematização, antes feita em casa, passa a ser uma das atividades em sala de aula.


INOVAÇÃO

Segundo números presentes no Censo Escolar 2013, 65% das unidades de ensino do país, públicas e privadas, não têm biblioteca regularmente constituída e 44% delas não conhecem laboratórios ou computadores.
Desde 2010, quando entrou em vigor a lei 12.244 — que obriga todos os gestores a providenciar, até 2020, espaços estruturados de leitura em suas unidades educacionais —, a situação praticamente não evoluiu. Naquele ano, só 33,1% das escolas tinham bibliotecas; em 2013, eram 35%.
Embora em melhor situação, as escolas particulares ainda estão longe da universalização dos espaços de leitura: apenas 59% delas os têm, ante 28,9% das públicas.
Com a modernização e a facilidade de acesso à informação, é urgente a necessidade brasileira de democratização do conhecimento. O digital não inviabiliza ou inutiliza o impresso. Eles se complementam e permitem às poucas bibliotecas existentes no país oferecer mais opções de conteúdo ao usuário, com variação de suporte, formato etc. A tendência é de acervos híbridos, com os ajustes que cada tipo de documento exige. O digital favorece a preservação ao eliminar a manipulação e deslocamento de originais. O acesso é ampliado, com títulos disponíveis nos catálogos das bibliotecas, podendo ser consultados de qualquer lugar, em qualquer horário.
A evolução tecnológica é uma tendência sem volta. Mas somente tecnologia não basta. É preciso inteligência para fazer com que a tecnologia fomente o interesse dos alunos e os ajude a enxergar uma dimensão mais ampla de mundo.
A conexão à internet implica que as situações de ensino-aprendizado não precisam se limitar ao espaço físico e ao tempo escolar. A internet cria o aluno 24 horas por dia, sete dias por semana.
O desafio das escolas será combinar metodologia de ensino e tecnologia, atualizando-se sempre com os novos aplicativos, com base no tripé competitividade, capacitação dos professores e gestão.
O computador e os demais aparatos tecnológicos, que no passado eram vistos como instrumentos de especialistas ou de pessoas com maior poder aquisitivo, hoje são vistos como bens necessários. Isso se dá também nos ambientes educacionais. Dentro dos estabelecimentos de ensino, as tecnologias eletrônicas constituem-se em condição de empregabilidade, de ensino e de domínio dessa nova cultura.
No processo ensino-aprendizagem, a penetração das tecnologias eletrônicas se dá com alguns obstáculos. Boa parte das escolas, embora trabalhe com diversos equipamentos modernos segue, na prática do ensino, paradigmas tradicionais e de simplicidade. Isso porque há muitos professores que não se sentem preparados para o uso das tecnologias eletrônicas em sala. Para que o trabalho pedagógico seja desempenhado em sintonia com o cenário atual é necessário que o professor tenha domínio técnico, pedagógico e crítico da tecnologia.
Como a maioria dos professores não foi formada para ensinar por meio da tecnologia seria urgente a qualificação do docente. Muitos, heroicamente, estão aprendendo a fazer fazendo, mesmo não tendo intimidade com todos os recursos hoje disponíveis.


PRIORIDADE ABSOLUTA

A Educação de que o Brasil precisa, certamente, é prioridade nacional, que requer a mobilização de todos que vislumbram um país melhor.
Devemos enfatizar o descontentamento com o quadro atual, de uma situação nitidamente precária. São necessários recursos apreciáveis para que se viva os tempos de uma nova escola.
A produtividade do trabalho, muito baixa no Brasil, é também uma consequência da falta de políticas que procurem melhorar o desempenho da mão de obra no País. Isso se faz com o aperfeiçoamento da qualidade de ensino e de treinamento.
O mau desempenho dos estudantes brasileiros nas avaliações internacionais e os movimentos generalizados de greves de professores mostram a situação crítica do ensino no Brasil.
O resultado da forma com que o governo brasileiro vem tratando seus professores, alunos e funcionários veio em forma de números. Dentre os 76 países avaliados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil ficou em 60º, à frente dos países sul-americanos Argentina (em 62º), Colômbia (em 67º), e Peru (em 71º), que fazem parte das quinze últimas posições. No topo da tabela, sem nenhuma surpresa, estão os países asiáticos: em primeiro lugar Cingapura, seguido de Hong Kong e Coreia do Sul.
Discute-se hoje no Brasil o que são políticas públicas. Há uma pletora de significados, o que é compreensível, dada a diversidade cultural do nosso país. Uma coisa é certa: o emprego dos recursos financeiros disponíveis, que ainda são escassos, se faz de forma confusa. Querem um exemplo?
Nada menos de 21 estados brasileiros deixaram de aplicar R$ 1,2 bilhão de reais no ensino básico, em 2009. A acusação é do Ministério da Educação. Esses recursos não foram repassados ao Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica). Foram desviados para outras atividades, possivelmente menos prioritárias.
Não é pouco dinheiro: no Rio foram 28 milhões, mas em São Paulo a irregularidade foi superior a 600 milhões. Se isso acontece e é denunciado publicamente, pode-se inferir que a perda é da própria educação, no seu conjunto, pois estremece a convicção de que a principal prioridade do nosso país estaria isenta de equívocos lamentáveis.
As políticas públicas devem ser transparentes, para que sejam apoiadas de forma total, numa representação do que chamamos de vontade política de corrigir os rumos do setor que, atavicamente, sempre recebeu críticas, desde os primórdios do Brasil. Quando foi candidato à presidência da República, no início do século passado, Ruy Barbosa já reclamava do elevado número de analfabetos existentes. Se ele voltasse à vida e à política, hoje, o seu discurso seria atualizado somente em relação aos números.
Estratégias, táticas e ações, que configurem o planejamento a médio e longo prazos, requerem mudanças que ainda estão longe de acontecer. Quando citamos desenvolvimento de competências, gestão integrada ou gestão corporativa, para o devido compartilhamento de tarefas, na discutida relação ensino-aprendizagem, parece que atraímos expressões de outro planeta. É natural que o resultado desse atraso secular seja a reduzida satisfação de alunos e professores, comprometendo a necessária fidelização dos mesmos às escolas em que atuam. Vestir a camisa passou a ser expressão somente do futebol, mas deve valer também para o mundo da educação, com vistas aos seus resultados. A má qualidade da educação pública opera a favor da condenável desigualdade social. É isso que devemos modificar, com a urgência possível.


FIM.

  • Twitter - Arnaldo Niskier