Palestra - Alberto Faria, entre a Literatura e o Jornalismo - ABL - Arnaldo Niskier

Academia Brasileira de Letras
Rio de Janeiro, 14 de outubro de 2009.

Alberto Faria era carioca.
Aos 12 anos, redigiu o jornalzinho O Arauto e, aos 14, fundou, na cidade de São Carlos (SP), A Alvorada. Realizou seus estudos no interior de São Paulo. Em 1889, fixou-se em Campinas (SP), onde exerceu o jornalismo. Fundou O Dia, em 1894, e escreveu para o Correio de Campinas, tornando-se seu diretor entre 1895 e 1896. Em 1897, lançou a Cidade de Campinas , por ele dirigida até 1904. Obteve grande êxito a seção “Ferros velhos”, sob o pseudônimo de Adelino. Em 1901, prestou concurso para a cadeira de Literatura, no Ginásio de Campinas, concorrendo com Coelho Neto e Batista Pereira, e logrou o primeiro lugar. Além de professor de literatura e jornalista, destacou-se como crítico e historiador de cunho erudito (scholarship), ao lançar mão dos processos de investigação e análise aplicados à literatura, para a decifração de problemas intrincados de autoria ou datação de obras. Polemista, manteve nos diversos jornais em que colaborou debates e discussões com escritores da época, tratando de temas de alto interesse para a cultura histórico-literária.
Orientou seus estudos para a crítica externa e interna das obras e da história literária. Foi um dos primeiros críticos brasileiros a se preocupar com o estabelecimento dos textos ou da autoria, a descoberta de influências, datas e fontes, e com a análise de formas e temas. Os seus estudos sobre o problema da autoria das Cartas chilenas destacam-se entre os que mais luzes trouxeram à questão. Pseudôminos: Adélio, Adelino e Marcos Tuim.
Faleceu em Paquetá, cidade do Rio de Janeiro, em 8 de setembro de 1925.

OBRAS: Cartas chilenas, 1913 (crítica); Aérides, 1918 (crítica); Acendalhas, 1920 (crítica); Discurso de recepção, em Discursos Acadêmicos, vol. IV; numerosos trabalhos na Revista da ABL; Almanaque Garnier, Revista do Brasil, Revista de Língua Portuguesa, Revista do Arquivo Mineiro.

TRECHOS DE ARTIGOS DE ALBERTO FARIA:

PIROLITO

Nos Cantos populares do Brasil, de Sílvio Romero, encontra-se a quadrilha:
Pirolito que bate, que bate
Pirolito que já bateu:
Quem gosta de mim é ela,
Quem gosta dela sou eu.

O coletor patrício não a acompanhou de explicação particular, enxertando-a na série dos “Versos gerais”, cuja rubrica é: “Origens do português e do mestiço; transformações pelo mestiço.” Só o fato de acharmo-la também nas coletâneas de Portugal, sem diferença mínima, certifica-nos da procedência exata.
Mas em nossa ex-metrópole corre outra, de maior ancianidade, da qual cumpre considerá-la mera variante. E é essa que nos fornece a chave do sentido afetuoso, uma imagem comparativa tomada ao reino vegetal.
Ouçam-na, antes da revelação:
Loureiro que bate, bate.
Loureiro que já bateu.
Loureiro que bate, bate.
Num amor que já foi meu.

 PARÁBOLA DA GOTA DE MEL

Era uma vez um homem que fugia perseguido por um rinoceronte furioso; aterrado pelos rugidos do animal, corria com quanta força tinha e caiu em um abismo que se lhe deparou na frente; mas ao cair pode agarrar-se ao ramo de uma árvore que havia aí e ficou empoleirado nela.
Seu coração ia pouco a pouco serenando; ao debruçar-se, porém, sobre o precipício, viu dois ratos, um branco e outro preto, que roíam sem cessar a raiz da árvore e que dentro em breve teriam consumado a tarefa.
Mergulhou o olhar mais profundamente ainda e avistou um dragão que vomitava chamas e que abria fauces formidáveis para tragá-lo.
Passando com angústia olhares em torno de si, viu ainda quatro cabeças de serpentes que saíam de um rochedo, erguendo-se para ele. Mas como levantasse a fronte, eis que uma gota de mel, deixada pelas abelhas em um dos mais altos ramos da árvore, lhe caiu na boca entreaberta.
Não pensando nos perigos circundantes – monstro que o persegue, dragão que o espera, serpentes que o ameaçam, árvore que vai desabar, – O insensato dá-se todo inteiro à doçura desse prazer de um átimo. 
Esta a lembrança amável com que homenageamos a memória de Alberto Faria, que ocupou a cadeira no 18 da Academia Brasileira de Letras.


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