Palestra - Atualidade em Euclides da Cunha- Arnaldo Niskier

“Os Sertões não é um volume de literatura, é um livro de ciência e fé. E são essa duas molas que faltam para o desencadear da nossa cultura popular: crer e aprender.”
Roquette-Pinto

13a Jornada Nacional de Literatura - Passo Fundo, 28-30 de outubro de 2009


Cada um de nós, quando escreve, tem naturalmente o seu próprio estilo. O estilo é o homem, dizia o escritor francês Buffon (1707-1788). Para o crítico literário Wilson Martins, dos mais respeitados em nosso país, “Euclides da Cunha é um nome sagrado, mestre dos mestres.”
A propósito do centenário da sua morte, a Academia Brasileira de Letras programou uma série de homenagens. Fizemos uma pesquisa sobre a rica terminologia utilizada pelo autor de “Os Sertões”, livro escrito em 1902 para retratar a imagem de uma raça sofrida, feita por um homem de sangue caboclo, uma voz nacional, plantada no centro da cultura brasileira, como gosta de afirmar o escritor José Louzeiro, para quem o livro descreve a terra e a gente sertaneja, dentro da realidade histórica e social do Brasil, dando-lhe uma visão nova, numa obra que mistura ensaio, história, ciências, filosofia, drama e lirismo. Aliás, uma bela mistura.
Para os iniciados em Euclides da Cunha, sempre é bom ler a sua obra-prima com um dicionário ao lado. Para que não se perca a riqueza do uso adequado de cada palavra. “A terra sobranceia o oceano” é uma expressão logo do início que se refere à altura das escarpas. Cita o gongorismo, que é uma escola literária nascida na Espanha, e depois alcança o curvetear, que é sinônimo de corcovear.
Há os aguaceiros fortes sobre os desertos recrestados (requeimados), aprende-se que exsicado é sinônimo de ressequido e uma frase representa bem a forma de comunicação do escritor fluminense: “Ajusta-se sobre os sertões o cautério das secas; esterilizam-se os ares urentes... alimenta-se das reservas que armazena nas quadras remansadas.” Ou seja , cautério é secar bem, urente é o que queima e remansada é tranquila, sossegada.
O empardecer de uma tarde é o escurecer, que faz sentido, e relâmpagos precipites são velozes, enquanto rebojos são redemoinhos, na descrição enriquecida por uma série de citações científicas, de que o engenheiro era pródigo. As luras dos fragueados são tocas dos rochedos. A uberdade da terra é a sua fertilidade, fartura, riqueza, e logo se chega à frase lapidar do livro: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” A seguir, fala nas lendas arrepiadoras do caapora travesso e maldoso, palavra herdada do tupi e que significa habitante do mato.
Considera que falta ao sertanejo uma plástica invejável, afirma que sua religião é, como ele, mestiça e encontra crianças à procura de flagícios, ou seja, ações criminosas. Chega a Antonio Conselheiro, para considerá-lo um gnóstico bronco (herege). Era o profeta, o emissário das alturas, transfigurado por ilapso estupendo, traduzindo, a influência de Deus nas almas das pessoas, segundo os crentes.
Farândula de vencidos da vida é referência a um bando de maltrapilhos. As beatas retransidas de susto quer dizer tolhidas e há tempo para saber que filolatria é culto às plantas. As homilias são pregações e côngrua é uma ajuda monetária aos párocos. Camândulas são contas grossas de rosários, matula é a multidão de vadios, atrium é a palavra latina que significa vestíbulo e iço é uma erva daninha. Para concluir com gilvazes, que são cicatrizes. Uma importante aprendizagem 3ingüística. Vale a pena ler o livro.


A ATUALIDADE DE EUCLIDES DA CUNHA

Pede-me a direção da 13a Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo (RS) que lhes fale sobre a atualidade de Euclides da Cunha, um dos maiores (e mais complicados) escritores brasileiros de todos os tempos. Sua narrativa a respeito de Antônio Conselheiro, em “Os Sertões”, é bem elucidativa do seu personalíssimo estilo:
“Apareceu no sertão do norte um indivíduo, que se diz chamar Antônio Conselheiro, e que exerceu grande influência no espírito das classes populares, servindo-se de seu exterior misterioso e costumes ascéticos, com que impõe à ignorância e à simplicidade. Deixou crescer a barba e cabelos...”
Dois paulistas se encontram, na Academia Brasileira de Letras, e o tema é o centenário da morte de Euclides da Cunha, nascido em Cantagalo (RJ), no dia 20 de janeiro de 1866. A recordação foi até aquela manhã de domingo, 15 de agosto de 1909, quando o genial autor de “Os Sertões” morreu, no duelo com o aspirante Dilermando de Assis, com quem trocou tiros no bairro carioca da Piedade. Um dos interlocutores (Cícero Sandroni) lembrou as sucessivas ausências de Euclides do lar, absorvido pelas obras a que estava obrigado, como engenheiro, inclusive a famosa ponte de São José do Rio Pardo, até hoje de pé. O outro (Paulo Nathanael Pereira de Souza) confirmou esses vazios: “Foi no interior paulista que ele escreveu as sucessivas matérias do jornal “O Estado de São Paulo”, que deram origem à epopéia de “Os Sertões”. E construiu diversas casas.
Deixando de lado a tragédia que marcou o fim de um dos nossos maiores escritores, concentramo-nos na obra literária do acadêmico Euclides da Cunha. Homem de grande cultura, misto de civil e militar, foi engenheiro, historiador, geógrafo, jornalista, poeta e permanente defensor da natureza, o que na sua época não era muito comum. Podemos qualificá-lo como engenheiro das palavras. Ajudou, com a sua métrica poética, a compreender melhor o Brasil. Condenou veementemente o crime cometido pela República nascente, no interior baiano, dizimando a população sertaneja de Canudos.
Antes do episódio histórico, chegou a condenar o movimento messiânico de Antônio Conselheiro, “que deveria ser debelado com pulso forte”, mas ao testemunhar pessoalmente, durante pouco menos de dez dias, o horror da chacina, mudou drasticamente de posição, produzindo o seu libelo de repercussão internacional. Foi então se convenceu que o sertanejo é capaz de resistir com bravura a toda espécie de óbice natural ou humano.
Euclides foi além e condenou, há mais de 100 anos, as queimadas e desmatamentos. Utilizou o seu linguajar erudito, para defender a Amazônia e os seus rios caudalosos. Tornou-se um ecologista indignado, como ao dissertar sobre as cidades mortas do interior paulista, após o auge da cultura do café. Sob esse aspecto, os textos euclideanos são extremamente coerentes e, certamente, despertam grande interesse por parte dos estudantes sobretudo de ensino médio.
No livro “Contrastes e confrontos”, Euclides da Cunha, que discursou diante do caixão de Machado de Assis, seu contemporâneo, parece adivinhar que a leitura dos seus textos não é um exercício dos mais fáceis. Para maior proveito, sugere que se considere o “remanso das culturas, na disciplina da atividade, adstrita a longos esforços consistentes.” É preciso dissecar esse pensamento, para compreender o sentido do que ele pretendeu com os seus escritos. Vale a advertência, para os que se irão iniciar em Euclides da Cunha, de que é importante ultrapassar os primeiros passos da caminhada literária. Mesmo em “Os Sertões”, se não houver paciência, é bem possível que o leitor desista antes da metade. Mas se vencer essa etapa, conhecerá as luzes de um dos textos mais bonitos da língua portuguesa, tão rica de grandes autores.
No dia 20 de janeiro de 1866, o município de Cantagalo viu nascer o seu filho mais ilustre e que se tornaria famoso não só no Brasil como também no exterior: Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha. A cidade, na microrregião Centro-Norte Fluminense, integrando a Região Serrana do Estado do Rio, ficaria marcada para sempre por este fato. No decorrer de sua vida, Euclides da Cunha desenvolveu uma longa lista de atividades, o que mostra a amplitude de sua força criativa. E não seria exagerado dizer que ele foi um especialista em todas as áreas onde atuou.
No coração do povo brasileiro, a figura do escritor talvez seja o de maior importância, principalmente pelo livro Os Sertões, sua principal obra, que além do grande sucesso entre nós, também foi traduzido para diversos países: Alemanha, China, Suécia, Itália, Holanda, Espanha, Dinamarca, Inglaterra e França.
Em 2009, a lembrança dos 100 anos da morte de Euclides da Cunha, que ocorreu no dia 15 de agosto de 1909, deve ser encarada como um dos fatos mais importantes da literatura brasileira, ombreando-se com os eventos que marcaram, no ano passado, os centenários das mortes de Machado de Assis e Arthur Azevedo.


A INFÂNCIA SOFRIDA E INÍCIO DOS ESTUDOS

Euclides da Cunha viveu na Fazenda Saudade, em Cantagalo, com os pais Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Moreira da Cunha, até que, aos três anos, com o falecimento de sua mãe, vítima de tuberculose, passou a morar juntamente com sua irmã Adélia, de um ano, em Teresópolis, com os tios Urbano e Rosinda Gouveia. Dois anos depois, com a morte da tia Rosinda, ele e sua irmã passaram a morar com os tios maternos, Laura e Cândido, em São Fidélis, no Norte Fluminense.
O início dos estudos se deu em 1874, no Instituto Colegial Fidelense, e teve prosseguimento em Salvador, na Bahia, quando morou naquela cidade durante dois anos, na casa de sua avó paterna. De volta ao Rio de Janeiro, em 1879, frequentou o Colégio Anglo-Americano e o Colégio Aquino. Datam desta época os seus primeiros poemas e também o seu primeiro artigo, no jornal O Democrata, editado pelos alunos do Colégio Aquino.
Aos 19 anos, ingressou na Escola Politécnica, onde pretendia fazer o curso de Engenharia, mas as dificuldades financeiras o levaram a desistir do intento. Até que em 1886 iniciou o curso de Estado-Maior e Engenharia Militar na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Teve como amigos de bancos escolares figuras que também se tornariam famosas, como Alberto Rangel, Cândido Rondon e Lauro Müller.
Depois de ter ficado fora da Escola Militar por um ano, após ser desligado em função de um protesto contra a visita de um ministro da Monarquia, ele foi reintegrado, em 1899, graças a pedidos dos amigos, já com o país vivendo no regime republicano.


O CASAMENTO E OS DIVERSOS TRABALHOS

Euclides da Cunha casou-se com Ana Emília Ribeiro, em 1890. No ano seguinte, já morando na Fazenda Trindade, em Nossa Senhora do Belém do Descalvado (que hoje tem a denominação de Descalvado), no interior de São Paulo, a perda da filha recém-nascida, Eudóxia, marcaria o início de uma série de acontecimentos trágicos que acompanhariam sua vida.
O nascimento do seu filho, Solon Ribeiro da Cunha, e a conclusão do curso na Escola Militar, em 1892, foram dois acontecimentos importantes, que ajudaram Euclides da Cunha a lutar ainda mais para alcançar seus objetivos. Além disso, foi promovido a tenente, começou a estagiar na Estrada de Ferro Central do Brasil e foi nomeado auxiliar de ensino teórico na Escola Militar.
Mas, nos anos seguintes, alguns fatos provocaram mudanças radicais na vida do escritor: teve um artigo com críticas ao Marechal Floriano Peixoto recusado pelo jornal O Estado de S. Paulo; encerrou sua colaboração neste jornal depois de uma pneumonia; retomou o trabalho como engenheiro na Estrada de Ferro Central do Brasil; viu seu sogro ser preso durante a Revolta da Armada; teve que enviar sua mulher e seu filho para a fazenda do sogro, em Descalvado; e foi nomeado para a Diretoria de Obras Militares. Para piorar, foi transferido para a cidade mineira de Campanha, depois de ter realizado um protesto contra um senador simpático a Floriano Peixoto, que defendia a execução de prisioneiros políticos.
O nascimento de seu filho Euclides Ribeiro da Cunha Filho, o Quidinho, em 1894, com certeza serviu para amenizar um pouco os últimos acontecimentos. Devido à tuberculose, conseguiu licença do Exército, por incapacidade, e passou a desenvolver atividades agrícolas, na fazenda do pai. Mas logo voltou a trabalhar como engenheiro, na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo, até que em 1897 voltou a colaborar no jornal O Estado de S. Paulo, para fazer a cobertura da Guerra de Canudos.


UM PERFIL DE OS SERTÕES, SUA OBRA-PRIMA

Para relatar a campanha de Canudos, Euclides da Cunha dividiu a obra em três partes. Na primeira, chamada de A Terra, amplamente ilustrada por mapas, desenhados pelo próprio autor, há uma descrição da região do sertão, enriquecida pelos seus fartos conhecimentos na área de Ciências Naturais. É considerado um ensaio profundo sobre os aspectos geográficos e geológicos do sertão baiano.
A segunda parte, O Homem, pode ser considerada um tratado etnológico brasileiro, com informações sobre a formação das raças e descrições sobre os tipos brasileiros. Ele analisa do ponto de vista antropológico o surgimento de Antônio Conselheiro, o beato visionário criador do arraial de Canudos, que queria implantar no local o que as autoridades viam como um movimento antirrepublicano.
Na parte final do livro, A Luta, Euclides da Cunha descreve como eram o arraial e seus moradores e como foi o confronto com as tropas do Exército, culminando com a morte de todos os moradores do local.
Antônio Conselheiro, cujo nome verdadeiro era Antônio Vicente Mendes Maciel, nasceu no sertão cearense. Vivia de forma simples, em Quixeramobim, com sua família, mas alguns problemas conjugais afetaram profundamente seu comportamento, fazendo com que ele vivesse sempre mudando de endereço e trabalhando em variados ofícios. Até que a esposa foi raptada por um policial, fato este que acabou determinando o seu sumiço da região, envergonhado e desmoralizado. Ele só viria a reaparecer depois de uma década, já incorporado na figura do beato Antônio Conselheiro.


O DEFENSOR DA REPÚBLICA, DO ABOLICIONISMO E DO POSITIVISMO

Republicano assumido, quando estudou Engenharia na Escola Militar da Praia Vermelha, a partir de 1886, Euclides da Cunha teve como um de seus professores Benjamim Constant, o maior representante do Positivismo no Brasil.
Um episódio que faz parte da História, e que comprova a sua opção pela instauração da República e pela abolição da escravatura ocorreu em 1888, durante uma visita do Ministro Tomás Coelho, que fazia parte do gabinete da Monarquia, à Escola Militar. Euclides da Cunha, simplesmente, de forma desafiadora, saiu da fila de onde se encontrava e jogou o sabre no chão. Resultado: foi preso e posteriormente expulso da escola, sob a alegação de que era incapaz fisicamente. Mas uma coisa positiva aconteceu em função do seu ato: ele foi contratado para escrever no jornal O Estado de S. Paulo, que na época defendia os ideais republicanos.
Com o advento da República, sua atitude nunca deixou de ser lembrada. Dizem até que ele chegou a ficar conhecido como o “Garoto da Baioneta”. E mais: Euclides da Cunha acabou sendo readmitido na Escola Militar, formando-se mais tarde em Engenharia Militar, Matemática e Ciências Físicas.
A carreira militar parecia que se moldava bem ao escritor, tanto que em 1896 já detinha a divisa de capitão. Mas sua presença no jornalismo foi a responsável pela interrupção de sua trajetória no Exército. Não por sua vontade, pois ele tinha o poder de conseguir conciliar diversas funções. O grande problema era o forte teor crítico de seus artigos no jornal, que gerou uma nova punição por parte dos seus comandantes. Desolado, Euclides da Cunha resolveu desistir da carreira militar.


OS SERTÕES NA ÓTICA DO TEATRO, DO CARNAVAL E DO CINEMA

A importância de Os Sertões transcendeu o espaço da literatura e os limites do Brasil. A obra foi adaptada para o teatro pelo diretor Zé Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina, e segundo suas próprias palavras, o ambiente de Canudos seria uma representação, uma maquete da guerra que impera hoje no mundo, que é o terrorismo. Na avaliação do diretor teatral, a obra de Euclides da Cunha, lançada no início do século passado, teria respostas para muitos dilemas atuais.
A peça foi apresentada em três partes (A Terra, O Homem e A Luta), e alcançou uma grande repercussão durante apresentações na Alemanha. No Brasil, foi levada às cidades próximas a Canudos, e também o próprio local onde o arraial foi construído por Antônio Conselheiro e seus seguidores.
Em 1976, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Em Cima da Hora desfilou tendo como enredo Os Sertões, baseado no livro homônimo de Euclides da Cunha. Até hoje o samba enredo é lembrado como um dos mais belos já feitos na história do carnaval carioca. A escola de samba, com seus 2.200 componentes, mostrou as três partes que compõem a odisséia retratada no livro (no caso das escolas de samba, são chamados de setores). A novidade do desfile é que além do trinômio contido no original do autor, o carnavalesco responsável pelo enredo apresentou um quarto setor, chamado A Paz. Talvez tenha sido uma forma poética de avaliar o fim do conflito, que acabou com o sofrimento dos moradores e também dos soldados que tiveram suas vidas ceifadas durante a ação militar.
Apesar de o samba ter sido cantado por todo o público com empolgação, e o desfile ter sido marcado por grande beleza plástica, infelizmente a Escola de Samba Em Cima da Hora amargou o penúltimo lugar naquele ano, sendo rebaixada para o grupo secundário.
No cinema, o drama relatado pela obra de Euclides da Cunha teve sua versão lançada em 1997, através do filme Guerra de Canudos, com direção de Sérgio Rezende. Em 170 minutos, o cineasta mostrou, numa linguagem singela e dramática, todo o sofrimento vivido naquele período pelos sertanejos. O enredo da história é uma família que segue Antonio Conselheiro, apesar de não concordar plenamente com suas idéias. No elenco, José Wilker (como Antônio Conselheiro), Cláudia Abreu, Paulo Betti, Marieta Severo, Selton Mello, Roberto Bomtempo, Tonico Pereira, Tuca Andrada e Dandara Ohana Guerra. Posteriormente, foi transformado em uma minissérie de quatro capítulos, sendo exibida pela Rede Globo, possibilitando a um grande número de telespectadores assistir à obra.
Outra versão sobre o tema foi lançada em 2007: Sobreviventes - Filhos da Guerra de Canudos, um documentário dirigido por Paulo Fontenelle, com depoimentos de sobreviventes do conflito e seus familiares. No elenco, personagens reais, como os próprios nomes sugerem: Antônio de Isabel, João de Régis, Zefa de Mamede, Dona Júlia, Ioiô da Professora, Ana de Bendegó, Maria Batista, Dona Salustiana e Antônio Olavo.
Vale a pena também lembrar que Glauber Rocha, um dos grandes nomes do cinema nacional, filmou, em 1964, em Monte Santo, o local da batalha de Canudos, cenas do seu filme Deus e o Diabo na Terra do Sol.


SÃO JOSÉ DO RIO PARDO, A MECA DO EUCLIDIANISMO

A cidade de São José do Rio Pardo, em São Paulo, promove todos os anos, desde 1912, a Semana Euclidiana. No local, está instalada a Casa de Cultura Euclides da Cunha, no endereço onde o escritor morou, de 1898 a 1901, com os familiares, quando trabalhou na reconstrução de uma ponte metálica. O imóvel foi desapropriado pelo governo de São Paulo, em 1946, e o tombamento oficial ocorreu em 1973. Desde 1925 também é comemorado o “Dia de Euclides”, um feriado municipal estabelecido por lei municipal.
Além dos diversos eventos culturais e apresentações artísticas, todos em homenagem ao autor de Os Sertões, também são realizados ciclos de debates, palestras, feiras de livros, concursos, competições esportivas, maratonas intelectuais e gincanas. Participam também delegações de Cantagalo (cidade natal do escritor, onde existe uma Casa de Cultura com o seu nome) e de Canudos e Euclides da Cunha (ambas na Bahia, locais onde aconteceram os conflitos descritos no livro). Grandes nomes da literatura brasileira proferiram palestras durante o evento, como Pedro Calmon (1936), Menotti del Picchia (1944), Cassiano Ricardo (1947), Afonso Arinos de Mello Franco (1949), Plínio Salgado (1953) e Alceu Amoroso Lima (1957).
Em 1982, os restos mortais de Euclides da Cunha e de seu filho Quidinho (Euclides da Cunha Filho) foram trasladados do Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, para São José do Rio Pardo, a pedido dos seus moradores.
Um dos locais de visitação mais concorridos é a cabana de zinco onde Euclides da Cunha escreveu grande parte dos capítulos de Os Sertões, no período em que era o responsável pela reconstrução da ponte. A cabana recebeu uma redoma de vidro, em 1928, e foi tornado patrimônio histórico nacional, em 1937. A ponte metálica também foi tombada, em 1986.
Como a afluência é muito grande, e a cada ano aumenta o número de pessoas interessadas em partilhar um pouco da história ali presente, alguns especialistas chegam a comparar o fenômeno a um culto à personalidade do escritor.


A CRÔNICA SOBRE A MORTE DE MACHADO DE ASSIS

A crônica A Última Visita, escrita por Euclides da Cunha na edição do Jornal do Commercio de 30 de setembro de 1908, e reproduzida no dia seguinte, por ter sido publicada com incorreções, tornou-se um texto clássico da literatura brasileira. De forma emocionante, ele relata os últimos momentos daquele que é considerado um dos maiores escritores brasileiros, como podemos inferir observando este pequeno trecho: “Na sala de jantar, para onde dava o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras – ontem meninas que ele carregava nos braços carinhosos, hoje nobilíssimas mães de família – comentavam-lhe os lances encantadores da vida e reliam-lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados nos álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas, e a palidez completa no recinto onde a saudade glorificava uma existência, além da morte”.
Estavam reunidos, naquele momento, além de Euclides da Cunha, amigos de Machado de Assis como Raimundo Correia, Mário de Alencar, Coelho Neto, Graça Aranha e José Veríssimo. Segundo o cronista, “gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heroico na morte”. Um fato curioso, e que por algum tempo povoou o imaginário de muitos como um grande mistério, foi a visita de um adolescente desconhecido. Sem querer dizer o nome, desejava apenas saber notícias do escritor que ele não conhecia pessoalmente, “a não ser pela leitura de seus livros, que o encantavam”, como assinalou o cronista.
O jovem conseguiu o seu intento, e pôde enfim conhecer o seu escritor predileto. Euclides da Cunha assim se expressou, ao testemunhar este momento mágico: “Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre, beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu. À porta, José Veríssimo perguntou-lhe o nome. Disse-lho. Mas deve ficar anônimo. Qualquer que seja o destino desta criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade.”
O mistério em torno da identidade do adolescente só foi desvendado tempos depois: tratava-se de Astrojildo Pereira, que mais tarde se tornou um dos maiores especialistas da obra machadiana e também foi um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro, em 1922.


UM PRECURSOR NA DEFESA DO MEIO AMBIENTE

A defesa da Amazônia, que hoje serve de discurso para algumas personalidades, e também de plataforma política para alguns partidos, preocupados com a questão ambiental, já era uma bandeira defendida por Euclides da Cunha, no início do século passado. Em 1904, nomeado pelo Barão do Rio Branco, ele partiu para o Alto Purus, na Amazônia, como chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, que definiria as fronteiras entre Brasil e Peru. A viagem serviria também para a realização de um estudo, que seria posteriormente lançado como um livro: Um Paraíso Perdido. Infelizmente, os originais foram perdidos.
A missão teria aberto uma nova fase no entendimento da importância de se preservar aquela região, que despertava, e até hoje desperta, a cobiça de países estrangeiros. Segundo Antônio Olinto, “sabe-se hoje que o Euclides da Cunha da Amazônia pode ombrear-se com o Euclides da Cunha de Os Sertões”.
A viagem marcou-o profundamente, a ponto de relatar o fato em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. Ele visitou o Museu Paraense, na época dirigido por Emílio Goeldi, e esteve um bom período em Manaus, com os componentes da missão.
O belo trabalho realizado por Euclides da Cunha, nesse período, todo desenvolvido de acordo com os mais modernos conceitos hidrográficos, acabou recebendo o reconhecimento de Roquette-Pinto, que chegou a afirmar ter sido "um dos mais importantes fatos geológicos adquiridos pela ciência brasileira".


UMA OBRA-PRIMA REESCRITA POR OUTRO ESPECIALISTA

A beleza e a força do texto de Os Sertões não atingem apenas seus admiradores aqui no Brasil, mas também atravessa fronteiras, como podemos concluir a partir da paixão despertada pela obra em Mario Vargas Llosa. Não satisfeito em ler e absorver com paixão toda a atmosfera contida na obra, com as descrições do sertão brasileiro castigado pela natureza, das pessoas que tiravam forças do fundo do coração para sobreviver na região, da figura mística de Antônio Conselheiro e do conflito que tirou a vida de milhares de pessoas, o escritor peruano resolveu recontar a história.
Ao publicar A Guerra do Fim do Mundo, Vargas Llosa preocupou-se em traçar um perfil mais apurado do beato que era seguido cegamente por todos aqueles que buscavam uma nova vida naquele local, como se ali fosse o verdadeiro paraíso. Vejamos um pequeno trecho: “Os vaqueiros e peões do interior o ouviam em silêncio, intrigados, atemorizados, comovidos, e da mesma maneira o ouviam os escravos e os libertos dos engenhos do litoral e as mulheres, pais e filhos de uns e de outros. Ocasionalmente, alguém — mas era raro, porque sua seriedade, sua voz cavernosa ou sua sabedoria os intimidava — o interrompia para esclarecer alguma dúvida. O século iria terminar? O mundo chegaria a 1900? Ele respondia sem olhar, com uma segurança tranquila e, muitas vezes, com enigmas”.
A obra foi escrita a partir de 1897 e durante três anos. A pesquisa de campo foi exaustiva, com visitas aos locais por onde Antônio Conselheiro passou. O escritor registrou as histórias incríveis ouvidas de moradores, o que prova que o impacto do conflito, passados tantos anos, ainda permanece, atingindo diretamente a vida das pessoas que habitam a região, com certeza descendentes daqueles que presenciaram as pregações e o conflito.
Um dos aspectos que torna o livro emocionante é a existência de um personagem muito especial, envolvido na apuração dos fatos. Trata-se de um jornalista que tinha alguns problemas de saúde, e com certeza foi esta a forma que o autor encontrou para homenagear Euclides da Cunha. O envolvimento de Mario Vargas Llosa foi tão grande que ele elegeu A Guerra do Fim do Mundo sua obra mais importante e gostaria de ser lembrado por este livro, caso não voltasse mais a escrever.


CANUDOS: UM RELATO FIDEDIGNO E COM ESTILO

O sucesso do livro Os Sertões poderia ser entendido pelo próprio tema abordado: a campanha militar para destruir um arraial com mais de 20 mil habitantes, comandado por um beato que era seguido por todos cegamente. Mas o que chama a atenção é que foi uma ação polêmica, historicamente mal explicada até hoje, principalmente pelo número de mortes envolvidas. E isto está registrado no livro, por Euclides da Cunha, com seu estilo pessoal e inconfundível, com riqueza de detalhes e a facilidade incrível que teve ao relatar os fatos presenciados, como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo.
Existe uma certa polêmica entre especialistas sobre a que gênero literário pertence o livro. A discussão sobre como enquadrá-lo vem revestida de grande complexidade. Eles buscam definir o que é factual e o que é ficcional na obra. Quais seriam os limites entre os dois discursos? Alguns consideram Euclides da Cunha um historiador, outros um ficcionista. Alguns já até defenderam a classificação de Os Sertões como um tratado de sociologia.
Afrânio Coutinho, em certa ocasião, falando sobre o estilo usado pelo escritor chegou até a citar Homero e Tolstoi. Segundo ele, Os Sertões era “obra de ficção, narrativa heroica, epopeia em prosa, da família de Guerra e Paz, de Canção de Rolando, cujo antepassado mais ilustre é a Ilíada”. Alceu Amoroso Lima considerava Machado de Assis e Euclides da Cunha representantes de aspectos decisivos da inteligência e da literatura brasileiras.
Quando fugimos dessa polarização – ficção x história – e nos detemos apenas na leitura da obra, sem preocupações estilísticas, observamos os dois estilos convivendo de forma convergente, um complementando o outro. Quem ganha com isso é o texto final, aliás, considerado um dos melhores da nossa literatura. Resumindo: Euclides Cunha tornou possível em Os sertões a existência da figura que poderíamos denominar de historiador-literato.
Alguns estudiosos achavam que Euclides da Cunha se considerava um cientista por causa de sua opção de abordar o tema de Canudos através de aspectos como o da raça. O professor Leodegário A. de Azevedo Filho destaca alguns recursos linguísticos contidos na obra do autor, incluindo a adjetivação, que, segundo ele, foi utilizada de forma admiravelmente estética, apesar de críticas recebidas de alguns estudiosos que viram um certo exagero em seu uso. E afirma, de forma enfática: “O próprio Euclides da Cunha, em sua evolução intelectual posterior, recusaria os erros científicos da obra, como declarou em cartas escritas a vários amigos. Por tudo isso, e mais uma vez, a ciência é o que menos importa em todo o livro, sendo mesmo a sua parte perecível. O que vai importar, assim, é o seu valor literário, exatamente porque a obra representa a derrota da ciência e a vitória da literatura”.


A PRESENÇA DO ESCRITOR NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

A partir da publicação do livro Os Sertões e da grande repercussão registrada, Euclides da Cunha passou a ser visto como uma espécie de símbolo de um Brasil novo. Só faltava mesmo a eleição para a Academia Brasileira de Letras, o que acabou ocorrendo. Formou um bom círculo de amigos, que incluíam Machado de Assis, Lúcio de Mendonça, Coelho Netto, Oliveira Lima, Vicente de Carvalho, Garcia Redondo e Sílvio Romero.
sua posse, no dia 18 de dezembro de 1906, quando ocupou a cadeira de Castro Alves, o autor de Os Sertões procurou demonstrar que a simplicidade seria uma das marcas de sua atuação na casa. Antônio Olinto avalia que o seu discurso de posse foi de alto nível literário e seu estudo sobre o poeta baiano (Castro Alves e seu tempo) colocou seu nome “entre os bons analistas de poesia do Brasil”.
Eis um trecho do discurso: “Avaliai, portanto, os meus embaraços ao ocupar a cadeira de Castro Alves. Estou, mais uma vez, ante uma grandeza que à primeira vista não admiro, porque não a compreendo. O que diviso é dúbio e incaracterístico; certo, um grande lírico, entre os maiores engenhados pela nossa ardente afetividade, mas como tantos outros que aí andam dobrando os joelhos diante de todas as virtudes e aformoseando todos os pecados. Recito-lhe os versos; e a breve trecho, sobretudo se insisto na maneira que tanto o extrema dos demais cantores, o meu espírito fatiga-se, sem essa intensa afinidade de estímulos que forma o parentesco virtual entre o pensador e os que o leem. Por fim, quedo-me atônito ante uma espécie de Carlyle da rima – extravagante, genial, rebelde – que nos abala poderosamente em cada verso, mas cuja ação é infinitamente breve, como a de uma pancada percutindo e morrendo ao fim dos hemistíquios.”
Foi recebido por Sílvio Romero, que assim se expressou: “A Academia recebe em seu seio um poderoso escritor, mas um que pode colocar idéias, além de pronomes, porque estuda e medita, porque sabe ver e inquirir. Mas afinal, é preciso generalizar e concluir. Que lição podemos tirar do discurso, dos artigos, dos estudos, do livro do Sr. Euclides da Cunha, eu digo lição que possa aproveitar ao povo que já anda cansado de frases e promessas, desiludido de engodos e miragens. Sequioso de justiça, de paz, de sossego, do bem-estar que lhe foge, esse amado povo brasileiro, paupérrimo no meio de incalculáveis riquezas de sua terra”
Euclides da Cunha teve a honra de presidir a Academia Brasileira de Letras, logo após a morte de Machado de Assis, passando depois o cargo para Rui Barbosa.


AS OBRAS DO AUTOR

Além de Os Sertões, lançado em 1902, com diversas reedições no decorrer dos anos, Euclides da Cunha lançou, em vida, apenas duas obras: Contrastes e Confrontos e Peru versus Bolívia, ambos em 1907.
As obras póstumas do autor foram as seguintes: À margem da história (1909), Canudos - Diário de uma expedição (1939, depois reeditado, com o título Canudos e inéditos, em 1967), O rio Purus (1960), Obra completa (1966), Caderneta de campo (1975), Um paraíso perdido (1976), Canudos e outros temas (1992), Correspondência de Euclides da Cunha (1997), Diário de uma expedição (2000).


REFERÊNCIAS
Cunha, Euclides da Cunha. Os Sertões, São Paulo, Círculo do Livro, 1994.
Cunha, Euclides da Cunha. Os Sertões (adaptação de José Louzeiro), Rio de Janeiro, Edições Consultor, 2007.
Viva, Astrojildo Pereira!. Fundação Astrojildo Pereira/Editorial Abaré, 2005.
Revista Isto É, número 1.854, 27/4/2005 (matéria: Antes de tudo, um forte).
Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, nº 7, Fase VII, Ano II (abril a maio de 1996).
Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, nº 14, Fase VII, Ano IV (janeiro a março de 1998).
Jornal de Letras, número 32, abril de 2001.
Jornal de Letras, número 126, fevereiro de 2009.

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