Palestra - Euclides da Cunha, O Homem e o Estilo - ABL - Arnaldo Niskier

Academia Brasileira de Letras
Rio de Janeiro, 27 de agosto de 2009.

“Euclides da Cunha é o criador de um estilo. “Os Sertões” é um livro nacional por excelência.” Wilson Martins

Maratona Escolar sobre Euclides da Cunha - Academia Brasileira de Letras/Secretaria Municipal de Educação do RJ

Euclides da Cunha é um dos maiores (e mais complicados) escritores brasileiros de todos os tempos. Sua narrativa a respeito de Antônio Conselheiro, em “Os Sertões”, é bem elucidativa do seu personalíssimo estilo:

“Apareceu no sertão do norte um indivíduo, que se diz chamar Antônio Conselheiro, e que exerceu grande influência no espírito das classes populares, servindo-se de seu exterior misterioso e costumes ascéticos, com que impõe à ignorância e à simplicidade. Deixou crescer a barba e cabelos...”

Dois paulistas se encontram, na Academia Brasileira de Letras, e o tema é o centenário da morte de Euclides da Cunha, nascido em Cantagalo (RJ), no dia 20 de janeiro de 1866. A recordação foi até aquela manhã de domingo, 15 de agosto de 1909, quando o genial autor de “Os Sertões” morreu, no duelo com o aspirante Dilermando de Assis, com quem trocou tiros no bairro carioca da Piedade. Um dos interlocutores (Cícero Sandroni) lembrou as sucessivas ausências de Euclides do lar, absorvido pelas obras a que estava obrigado, como engenheiro, inclusive a famosa ponte de São José do Rio Pardo, até hoje de pé. O outro (Paulo Nathanael Pereira de Souza) confirmou esses vazios: “Foi no interior paulista que ele escreveu as sucessivas matérias do jornal “O Estado de São Paulo”, que deram origem à epopéia de “Os Sertões”. E construiu diversas casas. Deixando de lado a tragédia que marcou o fim de um dos nossos maiores escritores, concentramo-nos na obra literária do acadêmico Euclides da Cunha. Homem de grande cultura, misto de civil e militar, foi engenheiro, historiador, geógrafo, jornalista, poeta e permanente defensor da natureza, o que na sua época não era muito comum. Podemos qualificá-lo como engenheiro das palavras. Ajudou, com a sua métrica poética, a compreender melhor o Brasil. Condenou veementemente o crime cometido pela República nascente, no interior baiano, dizimando a população sertaneja de Canudos.

Antes do episódio histórico, chegou a condenar o movimento messiânico de Antônio Conselheiro, “que deveria ser debelado com pulso forte”, mas ao testemunhar pessoalmente, durante pouco menos de dez dias, o horror da chacina, mudou drasticamente de posição, produzindo o seu libelo de repercussão internacional. Foi então que nasceu a expressão “o sertanejo é antes de tudo um forte”, capaz de resistir com bravura a toda espécie de óbice natural ou humano. Euclides foi além e condenou, há mais de 100 anos, as queimadas e desmatamentos. Utilizou o seu linguajar erudito, algumas vezes até incompreensível, para defender a Amazônia e os seus rios caudalosos. Tornou-se um ecologista indignado, como ao dissertar sobre as cidades mortas do interior paulista, após o auge da cultura do café. Sob esse aspecto, os textos euclideanos são extremamente coerentes e, hoje, certamente despertarão grande interesse por parte dos estudantes sobretudo de ensino médio, desde que devidamente orientados por mestres competentes. No livro “Contrastes e confrontos”, Euclides da Cunha, que discursou diante do caixão de Machado de Assis, seu contemporâneo, parece adivinhar que a leitura dos seus textos não é um exercício dos mais fáceis. Para maior proveito, sugere que se considere o “remanso das culturas, na disciplina da atividade, adstrita a longos esforços consistentes.” É preciso dissecar esse pensamento, para compreender o sentido do que ele pretendeu com os seus escritos. Vale a advertência, para os que se irão iniciar em Euclides da Cunha, cujo centenário comemorarmos este ano, de que é importante ultrapassar os primeiros passos da caminhada literária. Mesmo em “Os Sertões”, se não houver paciência, é bem possível que o leitor desista antes da metade. Mas se vencer essa etapa, conhecerá as luzes de um dos textos mais bonitos da língua portuguesa, tão rica de grandes autores.


O CASAMENTO E OS DIVERSOS TRABALHOS

Euclides da Cunha casou-se com Ana Emília Ribeiro em 1890. No ano seguinte, já morando na Fazenda Trindade, em Nossa Senhora do Belém do Descalvado (que hoje tem a denominação de Descalvado), no interior de São Paulo, a perda da filha recém-nascida, Eudóxia, marcaria o início de uma série de acontecimentos trágicos que acompanhariam sua vida. O nascimento do seu filho, Solon Ribeiro da Cunha, e a conclusão do curso na Escola Militar, em 1892, foram dois acontecimentos importantes, que ajudaram Euclides da Cunha a lutar ainda mais para alcançar seus objetivos. Além disso, foi promovido a tenente, começou a estagiar na Estrada de Ferro Central do Brasil e foi nomeado auxiliar de ensino teórico na Escola Militar. Mas nos anos seguintes, alguns fatos provocaram mudanças radicais na vida do escritor: teve um artigo com críticas ao Marechal Floriano Peixoto recusado pelo jornal O Estado de S. Paulo; encerrou sua colaboração neste jornal depois de uma pneumonia; retomou o trabalho como engenheiro na Estrada de Ferro Central do Brasil; viu seu sogro ser preso durante a Revolta da Armada; teve que enviar sua mulher e seu filho para a fazenda do sogro, em Descalvado; e foi nomeado para a Diretoria de Obras Militares. Para piorar, foi transferido para a cidade mineira de Campanha, depois de ter realizado um protesto contra um senador simpático a Floriano Peixoto, que defendia a execução de prisioneiros políticos. O nascimento de seu filho Euclides Ribeiro da Cunha Filho, o Quidinho, em 1894, com certeza serviu para amenizar um pouco os últimos acontecimentos. Devido à tuberculose, conseguiu licença do Exército, por incapacidade, e passou a desenvolver atividades agrícolas, na fazenda do pai. Mas logo voltou a trabalhar como engenheiro, na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo, até que em 1897 voltou a colaborar no jornal O Estado de S. Paulo, para fazer a cobertura da Guerra de Canudos.


UM PERFIL DE OS SERTÕES, SUA OBRA-PRIMA

Para relatar a campanha de Canudos, Euclides da Cunha dividiu a obra em três partes. Na primeira, chamada de A Terra, amplamente ilustrada por mapas, desenhados pelo próprio autor, há uma descrição da região do sertão, enriquecida pelos seus fartos conhecimentos na área de Ciências Naturais. É considerado um ensaio profundo sobre os aspectos geográficos e geológicos do sertão baiano. A segunda parte, O Homem, pode ser considerada um tratado etnológico brasileiro, com informações sobre a formação das raças e descrições sobre os tipos brasileiros. Ele analisa do ponto de vista antropológico o surgimento de Antônio Conselheiro, o beato visionário criador do arraial de Canudos, que queria implantar no local o que as autoridades viam como um movimento antirrepublicano. Aliás, é neste capítulo que está a frase que se tornou um símbolo: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Na parte final do livro, A Luta, Euclides da Cunha descreve como eram o arraial e seus moradores e como foi o confronto com as tropas do Exército, culminando com a morte de todos os moradores do local. Antônio Conselheiro, cujo nome verdadeiro era Antônio Vicente Mendes Maciel, nasceu no sertão cearense. Vivia de forma simples, em Quixeramobim, com sua família, mas alguns problemas conjugais afetaram profundamente seu comportamento, fazendo com que ele vivesse sempre mudando de endereço e trabalhando em variados ofícios. Até que a esposa foi raptada por um policial, fato este que acabou determinando o seu sumiço da região, envergonhado e desmoralizado. Ele só viria a reaparecer depois de uma década, já incorporado na figura do beato Antônio Conselheiro.


UM PRECURSOR NA DEFESA DO MEIO AMBIENTE

A defesa da Amazônia, que hoje serve de discurso para algumas personalidades, e também de plataforma política para alguns partidos, preocupados com a questão ambiental, já era uma bandeira defendida por Euclides da Cunha, no início do século passado. Em 1904, nomeado pelo Barão do Rio Branco, ele partiu para o Alto Purus, na Amazônia, como chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, que definiria as fronteiras entre Brasil e Peru. A viagem serviria também para a realização de um estudo, que seria posteriormente lançado como um livro: Um Paraíso Perdido. Infelizmente, os originais foram perdidos. A missão teria aberto uma nova fase no entendimento da importância de se preservar aquela região, que despertava, e até hoje desperta, a cobiça de países estrangeiros. Segundo Antônio Olinto, “sabe-se hoje que o Euclides da Cunha da Amazônia pode ombrear-se com o Euclides da Cunha de Os Sertões”. A viagem marcou-o profundamente, a ponto de relatar o fato em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. Ele visitou o Museu Paraense, na época dirigido por Emílio Goeldi, e esteve um bom período em Manaus, com os componentes da missão. O belo trabalho realizado por Euclides da Cunha neste período, todo desenvolvido de acordo com os mais modernos conceitos hidrográficos, acabou recebendo o reconhecimento de Roquette-Pinto, que chegou a afirmar ter sido "um dos mais importantes fatos geológicos adquiridos pela ciência brasileira".


UM NOME SAGRADO DA LITERATURA

Cada um de nós, quando escreve, tem naturalmente o seu próprio estilo. O estilo é o homem, dizia o escritor francês Buffon (1707-1788). Para o crítico literário Wilson Martins, dos mais respeitados em nosso país, “Euclides da Cunha é um nome sagrado, mestre dos mestres.” A propósito do centenário da sua morte, a Academia Brasileira de Letras programou uma série de homenagens. Fizemos uma pesquisa sobre a rica terminologia utilizada pelo autor de “Os Sertões”, livro escrito em 1902 para retratar a imagem de uma raça sofrida, feita por um homem de sangue caboclo, uma voz nacional, plantada no centro da cultura brasileira, como gosta de afirmar o escritor José Louzeiro, para quem o livro descreve a terra e a gente sertaneja, dentro da realidade histórica e social do Brasil, dando-lhe uma visão nova, numa obra que mistura ensaio, história, ciências, filosofia, drama e lirismo. Aliás, uma bela mistura. Para os iniciados em Euclides da Cunha, sempre é bom ler a sua obra-prima com um dicionário ao lado. Para que não se perca a riqueza do uso adequado de cada palavra. “A terra sobranceia o oceano” é uma expressão logo do início que se refere à altura das escarpas. Cita o gongorismo, que é uma escola literária nascida na Espanha, e depois alcança o curvetear, que é sinônimo de corcovear.

Há os aguaceiros fortes sobre os desertos recrestados (requeimados), aprende-se que exsicado é sinônimo de ressequido e uma frase representa bem a forma de comunicação do escritor fluminense: “Ajusta-se sobre os sertões o cautério das secas; esterilizam-se os ares urentes... alimenta-se das reservas que armazena nas quadras remansadas.” Ou seja, cautério é secar bem, urente é o que queima e remansada é tranquila, sossegada. O empardecer de uma tarde é o escurecer, que faz sentido, e relâmpagos precípites são velozes, enquanto rebojos são redemoinhos, na descrição enriquecida por uma série de citações científicas, de que o engenheiro era pródigo. As luras dos fragueados são tocas dos rochedos. A uberdade da terra é a sua fertilidade, fartura, riqueza, e logo se chega à frase lapidar do livro: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” A seguir, fala nas lendas arrepiadoras do caapora travesso e maldoso, palavra herdada do tupi e que significa habitante do mato. Considera que falta ao sertanejo uma plástica invejável, afirma que sua religião é, como ele, mestiça e encontra crianças à procura de flagícios, ou seja, ações criminosas. Chega a Antonio Conselheiro, para considerá-lo um gnóstico bronco (herege). Era o profeta, o emissário das alturas, transfigurado por ilapso estupendo, traduzindo, a influência de Deus nas almas das pessoas, segundo os crentes. Farândula de vencidos da vida é referência a um bando de maltrapilhos. As beatas retransidas de susto quer dizer tolhidas e há tempo para saber que filolatria é culto às plantas. As homilias são pregações e côngrua é uma ajuda monetária aos párocos. Camândulas são contas grossas de rosários, matula é a multidão de vadios, atrium é a palavra latina que significa vestíbulo e iço é uma erva daninha. Para concluir com gilvazes, que são cicatrizes. Uma importante aprendizagem linguística. Vale a pena ler o livro.




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