Palestra - Exaltação a Dinah Silveira de Queiroz - ABL - Arnaldo Niskier

Academia Brasileira de Letras
Rio de Janeiro, 12 de abril de 2011.

As obras de Dinah Silveira de Queiroz transitam em diversos gêneros literários e mostram a genialidade dessa escritora, nascida em 9 de novembro de 1911, em São Paulo, filha de Alarico Silveira e de Dinorah Ribeiro Silveira. Sua irmã, Helena Silveira, também se tornou escritora de sucesso. A infância de Dinah Silveira de Queiroz foi marcada por um fato triste: sua mãe faleceu aos 22 anos de idade, vitimada por uma doença. Por esta razão, as duas filhas tiveram que ser criadas por parentes. Dinah foi então morar com sua tia-avó Zelinda, cujo nome, aliás, ela daria a uma de suas filhas. À outra, a escritora deu o nome de Léa.
Uma parte feliz e produtiva da sua infância se dava quando passava férias ou fins de semana numa fazenda em São José do Rio Pardo, a mesma cidade onde Euclides da Cunha viveu. Seu avô conviveu com o autor de Os Sertões. As visitas ao local se estenderam por toda a infância e foram além de sua adolescência, passando a fazer parte da história literária de Dinah Silveira de Queiroz. Afinal, foi lá que ela escreveu boa parte do seu primeiro sucesso, Floradas na Serra.
Ela estudou no Colégio Les Oiseaux, em São Paulo, onde se destacou por sua inteligência e discernimento. A prova disso é que no chamado “livro de ouro”, onde eram recolhidas as contribuições mais destacadas dos alunos do colégio, a maioria das composições pertencia a ela ou a sua irmã, Helena Silveira. Começava neste período, ainda que de forma um pouco improvisada, a carreira de uma das maiores escritoras brasileiras.
Ela ficou conhecida na literatura brasileira pela elegância na arte de produzir histórias carregadas de emoção e dramaticidade, criando personagens simples e fraternos, que traziam dentro de si grandes lições de vida. Outro acontecimento marcante na trajetória da autora foi o fato de ter sido a segunda mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, a de número 7, seguindo a trajetória de sua “cunhada”, Rachel de Queiroz, a acadêmica pioneira. Na verdade, Rachel era prima-irmã do primeiro marido Dinah - Narcélio de Queiroz – aquele com quem casou aos 19 anos e que lhe daria o sobrenome que carregou até o fim da vida.  


O MOVIMENTO CAFÉ DA MANHÃ

Uma das qualidades de Dinah Silveira de Queiroz era a solidariedade e o cultivo de amizades. Uma demonstração clara e histórica disso pode ser comprovada pela sua preocupação com os autores que estavam começando na arte de escrever. Ela acabou encampando um movimento, que ficou conhecido como “Café da Manhã”, onde os autores novos reivindicavam oportunidades para mostrar suas produções nos suplementos literários dos grandes jornais da época. Simplesmente ela passou a dividir o espaço que conquistara na mídia com textos de Jones Rocha, Fábio Lucas, Fausto Cunha, Renard Perez, Rui Mourão, Samuel Rawet, Renato Rocha, Terezinha Éboli, Nataniel Dantas, Luiz Canabrava, Rocha Filho e outros.  Como se dava essa espécie de “mecenato artístico-cultural”? Como Dinah Silveira de Queiroz conseguiu abrir as portas para escritores desconhecidos, ávidos para conquistar a atenção de potenciais leitores? Não era um patrocínio financeiro como o mecenato oficial, que existe hoje. Na época, ela assinava a coluna “Café da Manhã” no suplemento literário do jornal A Manhã, do Rio de Janeiro. De forma singela e louvável, em um determinado dia da semana, a escritora transformava sua coluna em “Página de Novos”, com textos de outros autores. Além da ajuda que se dava, com a cessão do seu espaço, o autor escolhido também recebia o mesmo valor do pró-labore a que a titular tinha direito. Coincidentemente, foi nesta coluna que Samuel Rawet publicou um trecho de sua peça teatral, Os Amantes, inspirado em um conto de Dinah Silveira de Queiroz (Os amantes de Chiloé). Tempos depois, com Rawet já reconhecido como um autor consagrado, a peça foi encenada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, tendo como atores principais Paulo Goulart e Nicette Bruno.  


A ESCRITORA CATÓLICA

Dinah Silveira de Queiroz também se aventurava em histórias de cunho religioso. São exemplos: Eu Venho: Memorial de Cristo I, Eu Jesus: Memorial de Cristo II e O Oitavo Dia, esta uma peça teatral. A repercussão de suas obras atravessou fronteiras, a ponto de o Papa Paulo VI ter enviado uma mensagem elogiando a autora pela versão poética e apaixonada da vida de Cristo.
No prefácio do livro O Oitavo Dia, Dinah Silveira de Queiroz fazia questão de mostrar a importância da peça teatral na sua vida. Segundo ela, “foi a obra em que sintetizei todo o meu pensamento e meu julgamento. Se quiserem saber de mim, conheçam O Oitavo Dia, direi com sinceridade. Aí estarei contida nas breves personagens de uma peça teatral”. Baseada na história da Bíblia, os personagens tinham uma significação especial para a autora: Eva era Hava, enquanto Adão era Límun. Caim e Abel viraram Líbur e Rebel.
No seu discurso de posse, na ABL, ela também fez questão de realçar esse seu lado, quando assim se expressou: “Outrora dizia de mim mesma que era uma católica escritora. Depois de dedicar-me durante cinco anos a escrever um livro sobre Cristo, em que pretendi que ele por minha pena narrasse sua própria Vida e sua Doutrina, considero que tomei a condição de escritora católica”.  


A PRECURSORA NO GÊNERO FICÇÃO CIENTÍFICA

Dinah Silveira de Queiroz é considerada a precursora da ficção científica no Brasil. O que a teria influenciado tanto a ponto de se especializar nesse gênero tão específico? Com certeza, foram as histórias contadas por seu pai, homem ligado às letras, com fortes laços com o movimento modernista. Na infância de Dinah, ele gostava de contar histórias de escritores como H. C. Wells, especialista nos chamados romances científicos, que teve em Guerra dos Mundos a sua história mais famosa. Obras de Júlio Verne e Camille Flamarion também povoavam o imaginário da nossa escritora, nos tempos juvenis, graças aos relatos paternos.
A primeira cria no gênero foi um conto despretensioso, intitulado Pecado, que anos depois foi traduzido para o inglês e, sem que ela soubesse, foi inscrito num concurso que contou com a participação de mais de 150 trabalhos. Resultado: conquistou o prêmio de melhor conto latino-americano de ficção científica. Mais tarde, Pecado, escrito muito antes do seu primeiro grande sucesso, Floradas na Serra, de 1939, foi incluído no volume de contos Sereia Verde, lançado pela José Olympio.
Ao lado de figuras representativas, como Eneida, Macedo Miranda e Silveira Sampaio, Dinah Silveira de Queiroz colaborava na revista Jóia, na seção de literatura. Foi nesta publicação de Bloch Editores que saiu, em 1957, o conto Eles herdarão a terra, que trazia uma coincidência que com certeza intrigou os leitores da época: o texto era datado de 4 de outubro de 1957, exatamente o dia em que o primeiro Sputnik foi enviado ao espaço. Em 1960 foi lançado o livro homônimo, trazendo outros contos com temáticas semelhantes. Uma outra incursão da autora no gênero que chamou a atenção foi Universidade Marciana, de 1959. O texto, já confirmando o seu amplo domínio do gênero, chamou a atenção do escritor Antonio Olinto, que chegou a afirmar que o colocaria entre as melhores obras de autores de ficção científica do mundo.  
Em 1961 foi lançada a Antologia Brasileira de Ficção Científica, com contos de autores nacionais, onde se destacavam nomes como o de Dinah Silveira de Queiroz, Rachel de Queiroz, Antonio Olinto, Fausto Cunha, Lúcia Benedetti e Zora Seljan, entre outros.  


EXPERIÊNCIA POSITIVA NA RÁDIO MEC

Alguns programas elevavam a atividade literária a um posto de destaque, nas décadas de 1950 e 1960, dos quais podemos relacionar alguns que eram veiculados na Rádio MEC:

a) Páginas de Outro da Literatura Brasileira, comandado por Tristão de Athayde

b) Como Compreender Shakespeare, por Eugênio Gomes

c) Camões, Poeta de Todos os Tempos, por Cleonice Berardinelli

d) Obras-Primas da Literatura Universal, por Cecília Meirelles
Completando a programação da Rádio MEC, surgiu então aquele que, além do sucesso radiofônico, também teve sua trajetória estendida para o plano editorial: Quadrante, que apresentava contos de diversos escritores nacionais. A repercussão foi tão positiva junto ao público que foram lançados duas coletâneas – Quadrante 1 e Quadrante 2 –, com a equipe de cronistas da rádio que contava, além de Dinah Silveira de Queiroz, com os escritores: Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. Os contos escolhidos nas duas obras foram interpretados na rádio pelo ator Paulo Autran.
Em nossa opinião, talvez esteja faltando na programação das nossas rádios exemplos de experiências como estas, que levavam cultura e entretenimento aos ouvintes. O papel hoje seria até muito mais amplo, ou seja, poderiam estimular o aumento do gosto pela de leitura ente os brasileiros.


A MURALHA: UM MARCO NA TELEVISÃO BRASILEIRA

As obras de Dinah Silveira de Queiroz, além de serem patrimônio da literatura brasileira, também se destacaram em outros segmentos, como rádio, cinema, teatro e televisão. O livro A Muralha, por exemplo, já teve cinco adaptações para a televisão: em 1954 (TV Record), 1958 (TV Tupi), 1963 (TV Cultura), 1968 (TV Excelsior) e 2000 (TV Globo). A história épica mostra os acontecimentos que acabaram gerando a Guerra dos Emboabas, a conquista da terra e de riquezas pelos bandeirantes, os conflitos de uma família e a luta para superar a verdadeira muralha que era a serra.
O livro mostra algumas coincidências: a autora costumava dar a seus personagens nomes de pessoas de sua família. São os casos de Cristina, homônima de sua avó materna, e Cândida, cujo nome é o mesmo de sua bisavó materna.
Rachel de Queiroz foi arrebatada pela força das tramas históricas e dos diálogos do livro e assim se expressou: “A escritora transpôs para o seu romance um mundo inteiro de gente, de paixões e de sucessos violentos, dentro de um cenário igualmente copioso e colorido: esse episódio da infância de um povo, turbulento e sensacional; não é apenas um quadro, de limites curtos: é todo um grande painel – um painel de proporções portinarescas”.
Outro entusiasta de A Muralha foi o escritor José Lins do Rego: “As figuras humanas crescem de vulto e assumem a importância de absorventes estados de alma. Aí o livro vence e se expande como força de criação autêntica”.


FLORADAS NA SERRA:

DO LIVRO PARA O CINEMA E A TELEVISÃO

O cinema sempre esteve presente nas obras de Dinah Silveira de Queiroz. Logo após o estrondoso sucesso do livro Floradas na Serra, o drama chegou às telas, numa produção da Vera Cruz, dirigido por Luciano Salce. O elenco, composto por Cacilda Becker, Jardel Filho, Ilka Soares, John Herbert e Renato Consorte, entre outros, era mais um chamariz para o filme, teve boa acolhida nas salas de exibição. Na tela, a linda história da passagem de Lucília pela cidade de Campos de Jordão, cheia de paixões e desencontros, em meio a passeios e tratamentos de saúde.
Anos depois, por ocasião da exibição do filme Love Story (Uma História de Amor), que abordava problemas de saúde da personagem principal, que tinha uma doença incurável, Dinah Silveira de Queiroz enxergou algumas coincidências com o drama vivido pela Lucília de Floradas na Serra. Tratava-se de uma tuberculose, aliás o mesmo mal que acabou sendo a causa da morte de sua mãe, com apenas 22 anos de idade.
A obra também foi adaptada para a televisão, em duas oportunidades: em 1981, na TV Cultura, com interpretação de Bete Mendes, e em 1990, na TV Manchete, com participações de Carolina Ferraz, Myriam Rios, Tarcísio Meira Filho e Marcos Winter.


A ENTRADA NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

Em 1970, Dinah Silveira de Queiroz resolveu se inscrever como candidata a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, e não conseguiu o seu intento, por força de uma interpretação do Regimento Interno da instituição, impedindo a eleição de mulheres. A partir de então, um debate intenso foi instalado, o que acabaria tornando possível a eleição feminina na Academia.
Seis anos passados, e o assunto novamente foi ventilado, até que na sessão de 14 de outubro de 1976 foi aprovada a proposta de supressão do aposto “do sexo masculino”, acabando então com o impedimento da eleição de escritoras.
Em depoimento no Programa Roda Viva, da TV Cultura, em 30 de junho de 1991, a escritora Rachel de Queiroz afirmou que foi a própria Dinah que a procurou, alegando que tinha criado um ambiente meio adverso por causa da luta para ingressar na Casa de Machado de Assis, pedindo: “Rachel, pelo amor de Deus, aceite essa candidatura, porque a única maneira de eu entrar é você entrar primeiro”.
E assim foi feito, cabendo a Rachel de Queiroz a glória de ter sido a primeira acadêmica, numa disputa ocorrida em 4 de agosto de 1977, na qual venceu o jurista Pontes de Miranda.
A primeira tentativa formal de Dinah Silveira de Queiroz para conquistar uma cadeira na Academia foi no ano de 1981, contra o jurista Pontes de Miranda, quando acabou derrotada. Com o falecimento do acadêmico, no mesmo ano em que tomou posse na Cadeira 7, Dinah Silveira de Queiroz tornou  a se inscrever e conquistou a vaga, suplantando na época o jurista Gustavo Capanema. Quando soube que havia sido eleita, Dinah Silveira de Queiroz afirmou com alegria e satisfação: “A Academia Brasileira de Letras é a nota 10 do intelectual”. 


A QUESTÃO DO ESTILO

Como cronista, contista, romancista, jornalista e ficcionista, Dinah Silveira de Queiroz escreveu seu nome com destaque na literatura brasileira. Como enquadrar, então, a obra de Dinah Silveira de Queiroz em termos de estilo? Seria possível criar um verbete sintetizando a sua obra dentro de uma escola literária? Não nos parece tarefa razoável e possível. Afinal, ela conseguia produzir, de forma sempre brilhante, obras variadas, atendendo a  leitores ávidos pela qualidade dos seus textos.

Lendo avaliações de especialistas em estilos, verificamos que a obra de Dinah realmente transcende as definições que possam ser firmadas sobre o tema. O acadêmico Domício Proença Filho, por exemplo, no livro Estilos de Época na Literatura, afirma:

“Os vários movimentos literários não admitem fronteiras; há, isto sim, como que uma interpenetração, um contínuo modificar-se que muitas vezes pode aparentar um retorno, mas que, na verdade, é uma transformação enriquecida”.

Alfredo Bosi, em sua História Concisa da Literatura Brasileira, analisa o romance brasileiro moderno, de 1930 para cá, na perspectiva da tensão existente entre o herói das histórias e o seu mundo, gerando quatro tendências: romances de tensão mínima, de tensão crítica, de tensão interiorizada e de tensão transfigurada. Ele mostra que também fazem parte deste período obras de narradores intimistas, que apresentam características diversas:

“A descida ou, pelo menos, a alusão às fontes pré-conscientes da conduta cotidiana (...) constitui processo largamente difundido na prosa contemporânea. E ainda dentro de um esquema tradicional de composição, essa tendência aparece em obras díspares como os contos de Dinah Silveira de Queiroz”.

Afrânio Coutinho, em seu livro As Formas da Literatura Brasileira, procurou simplificar a questão, classificando os gêneros literários “conforme o modo como o autor se dirige ao leitor para transmitir-lhe a sua interpretação artística da realidade”. Ao recorrer às opiniões de figuras proeminentes da nossa literatura, vemos que é impossível tentar delimitar a obra da escritora, visto que ela produziu obras que poderiam se encaixar perfeitamente em muitos estilos. O que não nos impede de considerá-la uma cronista marcante; uma romancista de destaque que criou duas obras-primas (A Muralha e Floradas na Serra); uma autora de peças teatrais de sucesso; e também uma escritora infantil que, apesar de uma produção pequena no gênero, deixou uma obra sempre lembrada (As Aventura do Homem Vegetal). Sem falar que foi ela a primeira escritora a elevar o nome do país no gênero ficção científica. Outras facetas em relação ao estilo de Dinah Silveira de Queiroz merecem ser registradas. Em 1962, ela se aventurou no romance policial, participando da coletânea O Mistério dos MMM, juntamente com Antônio Callado, Guimarães Rosa, Herberto Sales, Jorge Amado, José Condé, Lúcio Cardoso, Orígenes Lessa, Rachel de Queiroz e Viriato Corrêa.

O livro As Noites do Morro do Encanto é o exemplo típico de mais uma variedade no jeito de escrever da autora. Para alguns, ela também se especializou em histórias com fortes tendências do chamado realismo mágico ou realismo fantástico, e esta obra seria bem representativa deste momento. O livro narra 13 histórias que teriam sido vividas e/ou inspiradas na casa onde ele morou, em Petrópolis, o antigo Morro do Encanto, local onde fica a casa construída por Santos Dumont que virou ponto turístico da cidade (é conhecida como a Encantada). No prefácio, que ela denominou “oferenda”, Dinah Silveira de Queiroz afirma:

“Velha casa de segredos, com seu fantasma bobo, que à meia-noite fazia tropel. Podia-se acertar o relógio por ele. Era uma assombração que se contentava em dar sinal de sua presença... e só. Seu Otávio, marido de Maria, a caseira, desmoralizou o fantasma:

“Aquilo, é gambá. Gambá é a praga das casas velhas de Petrópolis”. Helena Silveira, irmã de Dinah, registrou a história desse “fantasma” em um conto que fez muito sucesso na época. Tratava-se de uma casa antiga, com mais de 70 anos, e que seria demolida. Por isso, os contos do livro foram escritos em sua homenagem. Neste local, ela escreveu o livro Margarida La Rocque (A Ilha dos Demônios).


Referências:

Antologia Brasileira de Ficção Científica (Contos de André Carneiro, Antonio Olinto, Clóvis Garcia, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Jerônimo Monteiro, Lúcia Benedetti, Rachel de Queiroz, Rubens Teixeira Scavone e Zora Seljan).  Rio de Janeiro, Edições GRD, 1961.

COSTA, Luiz Carlos Guimarães da. História da Literatura Brasiliense, Brasília, Thesaurus Editora, 2005.

COUTINHO, Afrânio. As Formas da Literatura Brasileira, Rio de Janeiro, Bloch, 1984.

Nove elas são (Contos de Dinah Silveira de Queiroz, Emi Bulhões de Carvalho da Fonseca, Francisca de Basto Cordeiro, Lasinha Luiz Carlos, Lygia Fagundes Telles, Maria Eugenia Celso, Ondina Ferreira, Rachel de Queiroz e Sra. Leandro Dupré). Editora Freitas Bastos, 1957.

JORNAL DO BRASIL, 10 de julho de 1980. Dinah Queiroz é imortalizada pela ABL.

PROENÇA FILHO, Domício. Estilos de Época na Literatura. Rio de Janeiro, Ediex Gráfica e Editora, 1967.

Quadrante 2 (Crônicas de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Dinah Silveira de Queiroz, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga). Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1963.

QUEIROZ, Dinah Silveira de. Elas Herdarão a Terra. Rio de Janeiro, Edições GRD, 1960.

QUEIROZ, Dinah Silveira de. Floradas na Serra. Rio de Janeiro, José Olympio, 1941.

QUEIROZ, Dinah Silveira de. Margarida La Rocque. Rio de Janeiro, José Olympio, 1949.

QUEIROZ, Dinah Silveira de. A Muralha. Rio de Janeiro, José Olympio, 1949.

QUEIROZ, Dinah Silveira de. As Noites do Morro do Encanto. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1953.

QUEIROZ, Dinah Silveira de. Verão dos Infiéis. Rio de Janeiro, José Olympio, 1949.  


TRECHOS DE LIVROS

“Se Deus bem quisesse, daí a momentos iria conhecer Tiago, seu primo, seu prometido, a resposta que dera à vida pequenina de Lisboa. O olhar crescia na água, atravessando as lágrimas que não queriam cair. Havia um apagado de luz branca, em torno da mancha vermelha e cinza de orlas verdes de São Vicente. Ali estava seu caminho, seu destino. “Sou como um inocente que entendesse seu próprio nascer.” Junto de Cristina, anunciada pelo seu cheiro de sândalo, Joana Antônia, companheira da longa viagem, apareceu. Trocara suas roupas simples. Trazia um vestido de adamascado escarlate, argolas de ouro e chapéu com uma pena frisada que o vento morno fazia viver. Hoje Joana Antônia estava decidida e cheia de coragem. Seus olhos cercados de tinta escura, como são os das mouras, luziam de bravata e não de choro:

— A menina bem me pode dar seu adeus... Se bem me fio em mim mesma, não lhe ajuntei mal ou desgraça nesta enorme viagem...

— Adeus... — respondeu Cristina com súbita secura, sem voltar-se de lado. Parecia um retrato com fala e gesto, quando mais disse: — Deus Nosso Senhor a acompanhe.

— Ai, quanto a isto, menina, Deus Nosso Senhor estará comigo, bem que não tenho dúvida. Ele é pessoa mais companheira e sem orgulho...

Chegava o Capitão-Mor. Nunca, como nesse momento, ele lhe pareceu um galo novo, passeando sua crista e seu esplendor em meio a outros apagados e servis emplumados. Era distinto, fino, engomado e lustroso como boneco de príncipe. O cabelo caía em ondas de mulher; a mão que o alisava para trás mostrava o grande anel de lápis-lazuli, com seu escudo.

— Bom dia, senhora minha — disse ele a Cristina, passando junto de Joana Antônia, que se retirava, não a vendo, nem a sentindo. — Se soubésseis o que é esta terra, e estes endemoninhados sem Lei nem Rei, não gastaríeis aqui vossa gentil presença — e, não esperando resposta, enquanto acenava para terra, acreditando que já fosse visto: — Em outros tempos, os desesperos de amor e as mágoas de família se aquietavam nos conventos. Agora, toca a passear a mágoa por um mundo diferente.

Cristina sorria, deslindando as palavras com alegre afetação:

— Basta de tristezas. Espero não ter gasto todo meu dinheiro em vão com tantos cobiçosos, neste barco. E saiba Vossa Senhoria que vou ser feliz e que não venho esquecer-me, mas viver...

O Capitão-Mor continuava a acenar; depois, brusco, pondo na moça seus olhos azuis frios, a puxou pelo braço tremente, falando em cor de voz mais íntima:

— Cure-se a menina de ilusões. A pobreza arrogante desta terra! Os índios feios como judas, os brancos sujos, fanfarrões briguentos, os negros fazendo o que lhes ensinam, como monos. Os padres disputando com os brancos, mas lhes dizendo as missas. E as mulheres escondidas em casa como coelhos nas tocas, ignorantes e obstinadas.

E enquanto cortejava a gente que já o podia distinguir, com um aceno altaneiro:

— Vede bem esta miséria. De perto ainda é pior! Porque este povo cheira diferente... Se algum dia descoroçoar, contai com minha valia.

Cristina foi prendendo a mantilha, enrolando-a no pescoço:

— Com esta gente de que fala não viverei eu. Há de ser com meu esposo, que tem meu próprio sangue, e será um homem igual a meu irmão.

O Capitão-Mor balançou a cabeça, mirou Cristina de cima a baixo:

— Deus Nosso Senhor conserve a alegria da menina, e também sua beleza, em terrão tão sem galas. Adeus! Cristina se viu, descida do bote, num atordoar de povo que a olhava como se ela viesse de outro mundo. (...) O moço que a acompanhava empurrou com o corpo, de lado, certa mulherinha escura, de duros cabelos, que passava a mão pelo seu vestido, como alguém encantado a alisar um bicho.

— Arreda! Arredem todos!

Nesta confusão se chegou uma figura estranha: um mestiço ruivo, de face sardenta e rosada, de olhos fendidos no rosto chato. Vestia roupa decente, calça de algodão, gibão de couro.

— Ei... Procuro a dona mandada pra meu senhor...

Cristina, embora em sua tonteira de emoção, quis ajudar. Seria o criado para levar Joana Antônia... E mostrou:

— Vai acolá. Espera ali à sombra...

Mas o criado a olhou, de lado, suspeitoso:

— Sou da Lagoa Serena. Meu senhor aqui me mandou pela dona de seu filho... Tiago, meu sinhozinho.

Cristina sentiu o sangue no rosto:

— Tiago não vem?

O mestiço olhou a moça... — triunfante:

— Aimbé leva a dona dele!”


(A Muralha)

“Encostada á amurada, eu contemplava as últimas luzes do Rio, que já ficava para trás. Ao meu lado, estava Luís, absorto também e entre nós dois subsistia um enleio estranho. Tudo fora tão rápido! Para trás, já para longe, o meu casamento com a pompa que deslumbrara a família e os amigos. O vestido de noiva que Marilda ajudara a vestir e no qual eu tive o reinado efêmero e maravilhoso. Sim, porque há motivos de reconciliação quando surgem essas raras ocasiões... Um casamento brilhante, por exemplo. Vovó também viera. Achei-a fatigada da viagem, mas não tive tempo para expansões. Nem com mamãe e papai. Abraços, algumas lágrimas e uma estranha sensação de irrealidade, como se tudo se desenrolasse num palco. Agora é diferente! Já é meu marido esse homem que mal conheço e que me toma pelo braço... Hora do jantar. A sala cheia, variedade, tipos de toilettes e esse cheiro característico de bordo, O maitre d’hotel nos vai guiando até a nossa mesa florida.

— “Pardon monsieur”, tive de colocar um casal aqui só por hoje.

— Ah! isso é que não, diz Luís, repentinamente furioso. Hoje, dia do meu...

Comprimi-lhe ligeiramente o braço, cortando-lhe a zanga. O casal já estava em nossa frente.

— “Pardon monsieur”, disse, mais uma vez, o maitre d’hotel que se retirava.

Sentados agora, olhávamos os nossos companheiros. Eram duas criaturas vermelhas e arruivadas. Ele de rosto largo, papada e olhinhos azuis. Ela, seca e rígida, ostentando os seus ombros pontudos, em toilette vermelha de soirée. Ingleses, franceses, alemães? Fiz um sorriso gentilíssimo e cumprimentei-os. Não me responderam, mas também não tiraram de cima de nós os seus olhares gelados, inflexíveis. Luís estava furioso, mas não dizia nada. Bebi um pouco demais e um curioso humorismo me veio. Olhava para o casal e dizia com candura que a mulher se assemelhava a um rabanete... Veja você a nossa sorte, dizia-lhe risonha, esses estrangeiros trombudos estragando o nosso jantar...

— O... oôo, disse a mulher, de repente, mais vermelha ainda. — Eu entende brasileiro, eu entende brasileiro. Puxou pelo braço o marido que se levantou, digna e pesadamente...

— Ai Luís, que vergonha! eu pensei que eles não entendessem...

— Que miolo, meu bem! Mas ria e me disse enquanto enchia a taça de champanhe, com uns olhos cheios de intenções. — “Estamos sós, afinal”!

A saIa ia-se esvaziando. Um violino, numa valsa romântica, tocava baixinho. Luís puxou para mais perto a sua cadeira. Tudo, com o champanhe estava a contento. Chamei o garçom.

— Diga à orquestra que repita a valsa.

Quantas vezes lhe dei a mesma ordem? Três? Quatro? Cinco?”


(A Sereia Verde)

“O baque estalou, então. Era perto de mim, e eu vi a sombra da cabana abalar-se, tal árvore que estremece profundamente ao ser arrancada. O sangue fugiu-me. Dei um grito. Novamente, com a força duma vaga bravia, aquilo abalou a nossa pobre casa, que resistia gemendo em sua madeira. Caiu uma quietude em que raciocinei: — Estou viva, e a cabana está como dantes. Não ouvi sequer a queda duma trave! Parece milagre! Mas não... Um pedaço de madeira se deslocava sem ruído. Por trás dele clareava, como se uma candeia surgisse dali. Arrepiei-me. A luz se fazia mais clara, luz branco-azulada, e fugia para o alto, para o teto. Em lugar de se me fecharem os olhos – eles, parece, esbugalhavam-se para tal horror. Então a claridade tomou uma configuração estupenda. Padre, já vistes a estrela que lembra a que anunciou a Nosso Senhor? Uma grande estrela com adelgaçado corpo luminoso, que se espraia pelo céu? Era assim aquela luminosidade! Mais acima – uma pesada cabeça brilhante, e uma haste de luz baça que vinha até o chão. Se a aparição se chegasse mais... eu morreria de medo, pensava. E aí aquela roda de luz escureceu mais ligeiramente no centro. Em tons verdes se desenhou uma face bestial e risonha, que baixou do alto, enquanto o fino corpo se encolhia de si próprio, sem dobrar, apagando-se aos poucos. Lancei um grito que estalou como um urro de fera a meus próprios ouvidos. Depois abri a porta da cabana, e corri açoitada pela chuva, sob o pálio das vozes da tormenta.”


(Margarida La Rocque)

“(Saem da gruta Límun e Hava. estão alquebrados e envelhecidos.

Límun estende as mãos para o sol e tirita de frio)
LÍMUN

(Olhando para cima)
Até o sol não nos quer servir. Sinto tanto frio! Tu também não tens frio?


HAVA

(Tirando uma pele dos ombros e agasalhando Límun)
Não, eu não tenho frio. Mas, queres saber? Tira de tua cabeça a ideia de que o sol foi feito por Jeová só para servir-te. Era assim no Jardim. Mas hoje não é mais. (Rancorosa.) Nem nossos filhos foram feitos para nós.


LÍMUN

E tu – afasta do pensamento a má ideia contra nossos filhos. Ah, tenho visto que eles nos imitam. Nós os criamos, não como Jeová nos fez, na grandeza e na felicidade, porém na dureza de uma vida difícil. (Anda, batendo os pés, para esquentar-se e ativar o corpo) Eu não sinto falta deles, não. Mas eles me ajudavam, e eu estou cansado.


HAVA

Foram todos... todos embora. E agora estamos sós. Ah, Límun, eu quisera que morrêssemos juntos. Eu tenho medo de ficar sozinha aqui.”


(O Oitavo Dia – peça teatral)

“Meu coração batia com violência.

— A Dama Verde?

— Ela ou a velha. A velha é mais completa, tem uma cabeça inteira. Polo disse que dois bichos do seu feitio se acasalavam na outra banda da ilha. Vi logo que deveria ser teu macho um deles.

Fiquei furiosa:

— Bicho mentiroso! Esqueceste de que disseste estar Polo longe daqui.

Filho tremeu de raiva. Seus olhinhos abriam e fechavam:

— Polo voltou, eu te digo! Deu-me notícias frescas. Viu um urso duas vezes maior que tu, um urso branco como leite, que vinha nadando para cá, fugindo dos males da sua ilha: os vendavais e os “faces riscadas”. Teu macho devia estar vigiando a toca. Compete isso a ele. O urso pode derrubá-la, pode matar-te e a teus filhotes.

— Que m’importam essas histórias inventadas, de ursos que viajam! Dize-me certo o que sabes de meu companheiro, ou te enxoto daqui, bicho intrigante e mau!

Filho adquiriu um ar de superioridade. Levantou os bigodes; os dentes branquinhos e afiados, pontudos, luziram nos finos beiços escuros.

— Teu mal é querer de mais, Barriga de Peixe. Estás cheia, nem podes com a ninhada que carregas, e ainda queres teu macho, e te afliges porque sabes que ele dorme com outra? Vejo bem — e a lebre deu uma risadinha áspera — que não mereces meu interesse. Tive pena da tua solidão, pois sei que os teus iguais andam em bandos, como as lebres. Mas sou inteligente de mais, para a tua companhia. As lebres têm mais senso do que tu! Não precisas enxotar-me. Vou-me embora.

Deu-me as costas, saltou algumas vezes. Estacou de repente; voltou-se do lado de fora da porta, impossibilitado de conter a vontade de falar:

— Mais tarde me encontrarás no areal. Os “faces riscadas” ensinaram aqui o costume de se invocar os entes invisíveis que moram no ar e nas águas. Temos festa, hoje. E a noite vai ser nossa, pois de lua é. Se quiseres verás que eu não minto, quando te visito.”


(Margarida La Rocque)

“Quando pisou cauteloso o quarto atapetado onde morreu Getúlio, prendeu a respiração. Era tão simples aquele cenário onde acabara o “Velho”. Parecia incrível que um presidente, a dominar por tantos anos a vida política do Brasil, não tivesse pensado em morar mais confortavelmente! A cama era dura, feia e estreita, de um estilo que ele não sabia se era Luís XV ou Luís XVI, ficava por aí. Escurona, tendo ao lado mesinhas antigas de cabeceira e, em cima, um crucifixo. Teria Getúlio o crucifixo naquela parede quando morrera? Devia consultar o arquivo. Estava sentindo uma admiração doída pelo desconforto de Getúlio. Examinava a mesa na qual deveria almoçar sozinho às vezes — ele, Almir, não dizia sempre: “quem come sozinho é suicida?”. Um contínuo já desbotado como as coisas dos museus veio vê-lo:

—“Qualquer dona de televisão tem quarto mais rico. Olhe o tamanho do armário; se isso é armário para presidente!”

Almir estava dentro da cena. Tinha diante de si a cama onde Getúlio morrera: via, ao lado, a janela que dava para o parque, na qual o Presidente sentira saudades do riso de Getulinho brincando. Esta mesa seria a de suas solitárias meditações ou talvez nela houvesse sido escrita aquela carta tão controvertida? Onde teria começado a idéia do suicídio? Na cama? À janela? Ao contato do travesseiro?

—“Você conheceu o Presidente?”

—“Conheci .“

—“Que é que você se lembra de particular?”

—“Do charuto. Ele sempre recebia as pessoas com o charuto queimando na mão. Tudo era para descarregar, o senhor pode estar certo. Ele sabia que corria perigo, tinha de tomar suas precauções. Por isso, aquele charutão queimando...”

Opinião idiota que não poderia vir na enquête. Almir forçou um assunto:

—“Você acha que foi o Presidente que escreveu aquela carta?”

—“Ué, então o senhor não sabe que presidente não escreve nunca? Ë só o secretário que bate à máquina o que ele dita.”

O homem era duro, mesmo. Mas Almir não queria fraquejar:

—“Vê se você me deixa sozinho. Quero pensar um pouco neste quarto. Pensar e tirar fotografias. Tenho licença.”

O homem saiu. Almir esteve observando o tapete. Compreendeu, sem poder exprimir claramente para si mesmo, a importância que o desenho intrincado, de um moderno duvidoso, tivera em imiscuir-se nas idéias de um Getúlio, aqui caído em melancolia. Quando alguém está sofrendo e observa um tapete, como que absorve o intrincado de desenhos que a vista recolhe, sentindo de instinto a semelhança com os riscos e figuras que lhe recobrem a alma. Um tapete, ponto por ponto, é um enredo estratificado de pensamentos sofridos e vividos e não há nada que perturbe mais os olhos e palpite vivo, dançando em cores, do que esse campo de tecido, observado em horas de nervos tensos. Ele, Almir, tinha horror a esses complicadíssimos desenhos: ocultavam o fundo que não se sabia mais de que cor era feito. O tapete, com seus desenhos, Getúlio meditando, os risquinhos entrando pelos olhos, confundindo-se às idéias. Seria possível escrever qualquer coisa em torno de? Mirou a poltrona escura e estofada onde Getúlio deveria ler os jornais a dialogar mentalmente com seus acusadores.”


(Verão dos infiéis)

”Uma noite, ao receber a visita de uma amiga, lembrei-me de lhe emprestar um romance. Fora a minha leitura da véspera e eu o deixaria na mesinha de cabeceira. Subi a escada, e entrei no quarto. Curioso, alguém acendera a luz... E, no entanto, eu estava certa de que ninguém subira. Caminhei intrigada, pressentindo qualquer acontecimento... Olhei minha cama e vi nela uma mulher deitada. Uma mulher... morta – ela estava morta! Tinha um horrível vestido de lantejoulas de todas as cores. E aparecia coberta de jóias baratas. Suando frio, procurando dominar o coração desordenado, cheguei mais perto. Meu Deus! Aquela face nojentamente pintada era a minha própria face! Como se alguém fizesse de mim um retrato da degradação... Meu próprio rosto... mais velho – muito mais velho! – com maquiagem de atriz decadente! Queria gritar... chamar todos... Não me foi possível. Fiquei fascinada, encarando aquele meu próprio eu degradado e envelhecido, coberto de jóias. De súbito, à altura do coração, de sob as lantejoulas, principiou a correr um esguicho de sangue, que ia engrossando, que se tornava maior. Nele iam submergindo o colo, os braços, o corpo, a longa saia rutilante de meu terrível “doublé”. A mulher estava coberta de sangue, e seu rosto dele se destacava estranhamente branco, como a face de um pierrô trágico. Então... ah, só então eu consegui gritar. Voltei correndo..., mas junto da escada, perdi os sentidos”. (As noites de Morro do Encanto)


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