Palestra - Gestão Eficaz e Qualidade da Educação - Arnaldo Niskier

Estamos vivendo novos tempos, de transformações velozes. Ainda há pouco, vibrávamos com a existência do computador de teclado macio. Hoje, a realidade nos coloca diante do computador portátil sem teclado, com tela de dez polegadas sensível ao toque. Parece um mundo de fantasia, em que se deve incluir a existência dos e-books de peso inferior a 300 gramas, nos quais são armazenados milhares de livros. Onde a ciência vai nos levar, só Deus sabe. Diante desse quadro, cabe o registro de que o ensino superior brasileiro, com todas as suas dificuldades, carece de um novo equacionamento. O que a nossa universidade produz serve e, se serve, para quem se destinam os seus esforços? Ela é um precioso instrumento para a construção de um mundo melhor, mas há muito a ser feito, no sentido do seu aperfeiçoamento e da adequada compreensão da sua tríplice função de ensino, pesquisa e extensão.

Uma gestão eficaz tem tudo a ver com a qualidade da educação. Apesar de todos os óbices mais ou menos conhecidos. Com a nossa experiência no comando da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro, em duas oportunidades, deu para inferir que muito do que se passava de bom, na escola, dependia estritamente da capacidade de gestão e de adesão à tarefa dos diretores eventuais. Os salários sempre foram baixos, as verbas para as reformas eram mínimas, mas deu para perceber que, quando uma gestora era eficiente e dedicada, os problemas diminuíam de intensidade, como num passe de mágica. Os mesmo pode ser dito em relação à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde exercemos atividades docentes e administrativas durante 37 anos. Isso nos leva a uma primeira conclusão: a performance de um estabelecimento de ensino, seja de que grau for, depende muito da figura do administrador. Surge a pergunta: como eles lidam com as novas tecnologias? Pode-se afirmar que cerca de 90% dos jovens profissionais trabalham com a maior competência com as novas e abundantes tecnologias. Com um pormenor que não pode escapar. Tiveram um bom aprendizado dos princípios da ética, do direito, da justiça, da liberdade, da responsabilidade social e do proclamado empreendedorismo, em sua formação. É a base de tudo, ao lado de liderança, criatividade e raciocínio lógico. Os novos gestores têm ojeriza à rotina e costumam se valer, nas situações que surgem, de um bom senso muitas vezes admirável. São os que sobem na carreira, melhoram de salário, graças ao seu empenho e o conhecimento do novo, que muda diariamente. Muitos deles alcançam a sonhada pós-graduação, que, em nosso país, goza de um grande e merecido prestígio, graças à sua reconhecida qualidade. Tais princípios precisam ser levados em conta, quando o objetivo é dar modernidade ao trato empresarial das instituições superiores de ensino, hoje submetidas a uma acirrada concorrência. Ganhará, é claro, a que demonstrar maior competência e capacidade de transmitir aos seus alunos conceitos e valores que serão de extrema utilidade dentro e fora de sua vida laborativa. Sempre respeitados adequados padrões éticos.


OS EFEITOS DA CRISE

Como vivemos num mundo globalizado, o que ocorre no exterior é também objeto do nosso interesse. Vejamos o caso dos Estados Unidos, onde as universidades encontram-se em flagrante crise financeira, alimentada pela disparada dos custos e pela diminuição dos subsídios e doações. Justamente no país em que a democratização do sistema de ensino superior foi uma conquista memorável. Historicamente, os Estados Unidos foram os primeiros a adotar o ensino superior em massa, “deselitizando” o sistema e conquistando, com isso, o respeito e a supremacia da economia mundial, apesar dos percalços recentes.

Segundo matérias publicadas na revista Business Week, na Virgínia o governo estadual reduziu as verbas do Instituto Politécnico local em 12%; como consequência, a escola aumentou a anuidade em 38%. No Dallas County Comunity College, no Texas, com mais de 60 mil alunos, o corte nas verbas foi também de 12%. Na Universidade Estadual de Nova Iorque, com 403 mil alunos, o aumento da anuidade foi de 20%. Como se pode depreender, o panorama não é dos mais animadores, exigindo, é claro, medidas severas de contenção por parte dos administradores do sistema. Vejamos a realidade brasileira. Chegamos com distorções variadas a cerca de 6 milhões de universitários, quando o lógico seria termos hoje exatamente o dobro. O número nos deixa atrás de nações próximas, como a Argentina, o Chile e o México. Temos cerca de 17 mil cursos, 67% dos quais destinados a formar para profissões regulamentadas. O drama que se vive é a qualidade, que deixa muito a desejar. Não procede o argumento de que a inclusão de cotistas ou jovens das classes C e D tenham sido fatores determinantes dessa constatação. Ela é devida muito mais à falta de ajustamento do magistério aos novos tempos. Quantos professores sabem lidar com os computadores em salas de aula, para aperfeiçoar os conteúdos curriculares? As máquinas, em geral, têm sido utilizadas para serviços administrativos. Outro pormenor, que convém insistir: os pagamentos são baixos, há atrasos sucessivos em certos estabelecimentos de ensino, muitos dos quais estão em débito com o FGTS e não pagam em dia suas obrigações relativas ao 13o salário. Será culpa simplesmente da dita inadimplência dos alunos? É um caso a estudar. Jovens chegam ao diploma, no Brasil, sem os mínimos conhecimentos básicos. Isso levou o MEC, com o nosso aplauso, a reduzir as vagas em determinadas instituições, especialmente em Direito e Medicina. A batalha é inclemente, para que os conhecimentos em História, Literatura, Ciências, Língua portuguesa, Inglês, Informática, etc, sejam aperfeiçoados nos cursos respectivos, levando a nossa juventude a um bom preparo humanístico e tecnológico, nessa ordem, para inserir definitivamente o país na Sociedade do Conhecimento. O presidente Lula tem sido homenageado internacionalmente, mas ele ainda deve muito à educação. É grave o que aconteceu com o Enem e com o Enade (53 questões anuladas), levando esses importantes exames ao descrédito. Um choque de seriedade animaria o setor.


O REFORÇO DA EAD

Temos hoje cerca de 60 milhões de estudantes frequentando as mais de 20 mil escolas brasileiras, em todos os níveis. Cerca de 33% da população. Ultimamente, a grande inovação do processo foi a oficialização da Universidade Aberta do Brasil, que trabalha com cursos de administradores e de formação de professores, num consórcio de universidades públicas federais e estaduais de 18 estados e do Distrito Federal.

Essa ideia é antiga. Vindo de uma viagem à Inglaterra, em 1971, o então ministro da Educação, Jarbas Passarinho, convocou um Grupo de Trabalho, coordenado pelo professor Newton Sucupira, para estudar a implantação da Universidade Aberta no Brasil. Tivemos o privilégio de participar desses estudos iniciais, que foram levados com muita parcimônia, mas logo depois padeceram do mal nacional do exagero sem sentido. Lá pelas tantas, a ideia engordou e estava na mesa de discussão uma universidade maior do que a UFRJ. Levou “bomba”, como não poderia deixar de ser. Com um país desse tamanho, chegou finalmente a hora de utilizar a educação à distância em grande escala. Um pormenor a ser destacado, na modalidade brasileira, é que os exames finais serão todos presenciais, o que impede o esquema de facilitário, temido por muitos educadores. Não será modismo, nem uma educação de segunda classe. Incluindo as universidades corporativas, estamos hoje com cerca de 2 milhões de estudantes participando de programas de educação à distância, com cerca de 60 cursos reconhecidos pelo MEC.

Data de 1904 a criação, no Brasil, dos antigos cursos por correspondência, que tiveram uma grande divulgação, com o surgimento do Instituto Monitor, em 1931, e com o Instituto Universal Brasileiro, em 1941. Tempos depois, na década de 70, o assunto foi tratado com muita determinação e seriedade, no âmbito do Ministério da Educação. Hoje, com o surgimento de modernas técnicas, e também com a massificação da internet, ganhou nome de educação à distância (EAD). Vale lembrar que no exterior a chamada universidade virtual conquistou seu espaço desde a década de 70. Na Inglaterra, por exemplo, a EAD é uma realidade e a Open University tem o respeito de todos, hoje com 80 mil alunos.

América Latina, o Brasil é um dos cinco maiores produtores de softwares para a área e o segundo país em número de alunos, perdendo apenas para o México, que possui universidades virtuais há mais de 30 anos. Hoje, com o avanço tecnológico, os alvos da EAD passaram a ser os indivíduos que já estão inseridos no processo produtivo, com faixa etária acima dos 25 anos e problemas de tempo ou geográficos, para frequentar uma faculdade normal. São gerentes de bancos ou de supermercados, por exemplo, que fazem os cursos de educação à distância com o objetivo de melhorar o desempenho em seus trabalhos. E sem a necessidade de abandono de emprego ou de afastamento da família.


O USO DO TALENTO LOCAL

É apavorante a decisão de algumas grandes empresas nacionais quando anunciam que, se faltar pessoal qualificado, para as obras estruturantes que se encontram em andamento, “importaremos técnicos de fora”. Ao ouvir isso de um dirigente, quase perdemos o sono. Fica provado que as empresas nacionais operam em defasagem com o mundo universitário, sob a complacência do Governo.

Deve-se buscar essa aproximação, com uma gestão inteligente e oportuna, exatamente no momento em que o Brasil vê crescer a sua economia, integrando o grupo do Bric, ao lado da Rússia, da Índia e da China. Dados recentes apontam para o percentual de 1,13% do PIB utilizado em pesquisa e desenvolvimento de mercadorias e técnicas (nos EUA o percentual é de 2,68% e na China é 1,49%, com o pormenor de que são PIBs bem maiores do que o nosso). Há uma grande esperança de que os nossos números sejam bastante ampliados, neste ano de 2010. Veja-se o caso da General Electric, que se considera o maior conglomerado do mundo, segundo pesquisas da revista Forbes. Bate a Shell e a Toyota (que já esteve em primeiro lugar). O seu presidente visitou o Brasil e anunciou que instalará um grande centro de pesquisas, no eixo Rio-SP-MG, com a aplicação de 10 bilhões de dólares nos próximos três anos, gerando no mínimo 600 novos empregos diretos. Isso é bastante sintomático, sabendo-se que a GE opera em nosso país em campos diversificados, como a produção de turbinas (Petrópolis/RJ), locomotivas, equipamentos de diagnóstico por imagem, petróleo, gás, energia e aviação de um modo geral, já possuindo 15 fábricas no Brasil. O que anotamos foi a declaração de um diretor da GE: “Queremos prestigiar a cultura nacional, contratando engenheiros brasileiros, ou seja, valorizando o talento local.”

Se a GE, que tomamos como exemplo, vai aplicar 21 milhões de dólares na expansão de equipamentos de prospecção e produção de petróleo em Jandira (SP) e Macaé (RJ), estamos confiantes de que irá gerar bons empregos para os nossos jovens formandos, antes desanimados pela falta de oportunidades de trabalho. Não cabe aqui a discussão se se trata ou não de uma multinacional, o que importa para nós é que ela está há 90 anos no Brasil e oferece a chance de abrigar, com salários compatíveis, os recursos humanos, que certamente aperfeiçoarão os seus conhecimentos com a nossa reconhecida capacidade criativa. Não devemos temer o que já foi uma característica de tempos idos. Formávamos os jovens (como ocorreu muito na Física) e, por falta de oportunidades, eles eram tragados por empresas estrangeiras, estimulados também por salários bem mais elevados. Esse êxodo foi grandemente responsável pela demora no crescimento industrial brasileiro, em áreas estratégicas. Ou ainda com a falta de reconhecimento da profissão de pesquisador. Lembro de uma visita do cientista César Lattes, de uma feita, à Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, nos idos de 1969, para se queixar que, reconhecido no mundo, aqui precisava dar aulas para sobreviver: “Sou um cientista e não um professor!” Recorremos ao sociólogo Max Weber para lembrar que só por acaso se encontra em um mesmo homem as vocações de cientista e professor. Aqui, confundimos tudo.


A PRIORIDADE NACIONAL

Não há candidato à presidência da República que deixe de priorizar a educação, em seus planos de Governo. Uns pensam no próximo quadriênio, outros alongam a vista para o ano de 2022, quando se irá comemorar o bicentenário da Independência do Brasil. Prevê-se que, em três tempos (2007-2015 e 2022), o direito à educação pública de qualidade será para todos os jovens pertencentes à educação básica, a partir de agora considerada uma prioridade essencial.

Sempre será possível duvidar das projeções para o futuro. Planos decenais fracassaram redondamente, e até mesmo plano quinquenais, razão pela qual as certezas são temerárias. O jornalista Merval Pereira cita a relação de prioridades estabelecidas pelo Núcleo de Assuntos Estratégicos do Governo Federal, o que vale como ponto de partida de estudos mais acurados. Vejamos a sequência: 1) investimentos em educação; 2) melhoria do ensino; 3) violência/criminalidade; 4) desigualdade social; 5) emprego; 6) saúde. Demais prioridades em ordem decrescente: 7) investimento em ciência e tecnologia; 8) taxa de investimento; 9) infra-estrutura; 10) sistema judiciário; 11) estrutura tributária; 12) controle da inflação; 13) exportações; 14) carga tributária; 15) despesas correntes e 16) contas públicas.

Em nosso caso, concordamos com a ênfase dada à educação e reiteramos as propostas apresentadas, no trabalho realizado de pesquisa nacional:
) Implementar um programa emergencial de professores.
2) Implementar programa do Fust (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações, que consiga implantar laboratórios de informática em todas as escolas de educação básica da rede pública.
3) Implementar conselhos escolares em todas as escolas brasileiras.
4) Efetivar um Movimento Nacional pela Qualidade da Educação, como resultado de uma conferência.
5) Implantar o turno integral em todas as escolas públicas de educação básica do Brasil.
) Oferecer a merenda escolar a todos os alunos de ensino médio da rede pública.
7) Oferecer programa de descontos especiais para os docentes de educação básica na aquisição de livros e assinaturas de jornais e revistas.
8) Criar uma linha de crédito especial de aquisição da casa própria, com taxas reduzidas, para os docentes de educação básica.
9) Conceder descontos especiais para docentes de educação básica nos ingressos para museus, cinemas, shows e teatros.
10) Adotar um piso salarial nacional para educadores.
Ainda há outros itens, mas podemos nos concentrar nos que foram citados, até mesmo para criticá-los, no seu excesso de patente assistencialismo. Os professores precisam de bons salários, e não de descontos paternalistas, inclusive para aquisição de remédios e alimentação. Não é por aí o caminho, que provoca naturais reflexos no ensino superior.


GESTÃO EFICAZ

É comum o comentário, nas escolas de nível superior, de que necessitamos de uma gestão eficaz para que os seus frutos sejam colhidos a tempo e a hora. Que frutos são esses? Não é só a viabilidade econômica e financeira do empreendimento, como a formação adequada de profissionais para o mercado de trabalho, hoje agitado por ofertas inacreditáveis. Citamos, em São Paulo, no Congresso educacional promovido pela Humus o fenômeno da governança corporativa, em que há um empenho solidário na solução dos problemas administrativos da instituição. Organizações familiares ou a direção discricionária sofrem os efeitos de novos tempos, em que é preciso buscar a participação solidária de todos os envolvidos no processo. A gerência vertical cedeu espaço, na modernidade, para a horizontalização dos procedimentos, caracterizando a saudável democratização, que deixou de ser mera referência demagógica.

Uma gestão eficaz pressupõe a existência de líderes bem formados, determinados e inspiradores. Assim se pode chegar à melhoria contínua de uma escola, sobretudo se ela estiver devidamente apetrechada por um bom projeto pedagógico. O envolvimento da direção, supervisão e coordenação de cursos facilita o encontro de soluções, promovendo um ambiente de soluções criativas. É assim que se processa um planejamento eficaz. Para Roberto L. Katz, da Universidade de Harvard, existem pelo menos três tipos de habilidades básicas para que o administrador execute com eficiência suas tarefas: a habilidade humana, a técnica e a conceitual, sendo a primeira o denominador comum e o ponto crucial da administração. Vale lembrar Peter Drucker, para concordar que não existem países desenvolvidos ou subdesenvolvidos, mas sim países que sabem administrar seus recursos e tecnologias existentes, e países que não sabem fazê-lo. O exemplo pode ser aplicado às universidades. Sempre valerá a pena citar Max Weber (1864-1920), com a sua teoria da burocratização. Pelo menos para lembrar a racionalização, para ele o resultado da especialização científica e da diferenciação técnica peculiar à civilização ocidental. Foi pioneiro da Teoria das Organizações, com a ênfase que deu às normas escritas, a divisão do trabalho, o princípio hierárquico, a separação entre propriedade e administração (fato relevante em nosso sistema) e a profissionalização. Anos decorridos, suas ideias permanecem, devidamente adaptadas a novas circunstâncias, perfeitamente atuais.

Quando esteve no 9o Conic/Semesp, em novembro passado, em São Paulo, o presidente Luís Inácio Lula da Silva enfatizou o papel do setor privado, afirmando que o Estado não cumpriu na totalidade com suas obrigações com a educação e que, graças ao setor privado, foi possível a inclusão de milhões de brasileiros nas universidades. Voltando à missão do professor, não pode mais ser apenas aquele que aplica a lição, nem os currículos devem permanecer estagnados, como se fossem verdades imutáveis. Arriscamo-nos a considerar que, parte do desinteresse dos alunos, provém exatamente da falta de renovação dos conteúdos curriculares e da sua forma de apresentação. Aí está um grande desafio à criatividade dos nossos mestres e dirigentes. O professor, definitivamente, precisa se sentir parte de uma organização que possui metas e busca resultados. O futuro da universidade depende do entendimento de que o professor e aluno não podem ter uma ligação burocrática, mas trabalhar solidariamente para que a instituição alcance os seus objetivos.


MAIOR AUTONOMIA


O ensino superior, com todas as suas dificuldades, precisa de um novo equacionamento.
As universidades oficiais estão cobrando das autoridades maior autonomia, ou, mais simplesmente, uma verdadeira autonomia. Pelas propostas das quase 50 universidades federais pode-se medir a extensão do problema:
Reconhecimento do Sistema Público Federal de Ensino Superior como patrimônio nacional indispensável ao pleno desenvolvimento do país.
Garantia de uma autonomia efetiva e responsável do sistema público de ensino superior, compreendido como abrangendo o conjunto das Ifes, (Instituições Federais de Ensino Superior), respeitada a diversidade de cada uma.
Comprometimento com a consolidação da presença do Brasil como nação autônoma no circuito internacional da pesquisa e avanço do conhecimento.
Criação de medidas capazes de promover um desenvolvimento solidário do conjunto das Ifes.
Estabelecimento de uma política de médio e longo prazos, favorecedora de uma maior consolidação das Ifes como instâncias qualificadas de ensino, pesquisa e extensão nas áreas científica, tecnológica e cultural.
Criação e implementação de programas institucionais de duração permanente, e de ampla abrangência, que permitam às Ifes dispor de instrumentos eficazes de auto-avaliação.
Manutenção e consolidação de instrumentos instáveis de fomento a pesquisa.
Estabelecimento de financiamento estável e apropriado à natureza dos Hospitais Universitários, que levem em consideração o fato de serem laboratórios didáticos.
Criação das condições necessárias ao aumento das vagas no sistema público superior, sobretudo no ensino de graduação, mediante programas.
Ampliação qualificada da educação à distância como instrumento capaz de intensificar a abrangência do sistema público de ensino.
Unificação no Ministério da Educação da política educacional do país.
Comprometimento com a qualificação da licenciatura.
Implementação de políticas propiciadoras de inclusão social.
Definição de um plano nacional de atuação consorciada das universidades.
Fortalecimento das relações da universidade com os demais setores da sociedade para o apoio à implementação de políticas públicas capazes de beneficiar a sociedade como um todo.


POLÍTICAS E ESTRATÉGIAS

Nesta visão concisa da educação brasileira, podemos estabelecer as seguintes políticas e estratégias:
1) Aumentar de 72 para 93 bilhões anuais a participação pública nos investimentos em educação, que deveriam receber 7% do PIB, pois é o setor que mais crescerá no mundo, nas próximas duas décadas, e assim tornar viável o Projeto Brasil Alfabetizado, atendendo a 15 milhões de adultos analfabetos;
2) Elaborar um grande plano de assistência ao magistério, compreendendo a progressão funcional e salários compatíveis, abrangendo o total de 1,5 milhão de professores;
3) Aplicar intensivamente a modalidade de ensino à distância na formação e treinamento de professores e especialistas;
4) Determinar às universidades oficiais que promovam gratuitamente a formação de professores em nível superior, no período 2003/2007, como exige o Plano Nacional de Educação;
5) Criar um Fundo de Pensão de Professores, a exemplo do que ocorre em muitos países no mundo, para melhorar os salários da categoria quando chegar a hora da aposentadoria;
6) Estender o salário-educação à educação infantil, para ampliar em quatro milhões o número de vagas no pré-escolar. Viabilizar, assim, uma adequada assistência à alimentação na educação infantil;
7) Rever a legislação relativa ao ensino médio, hoje caótico;
8) Dobrar o número de escolas públicas de ensino médio, com um grande planejamento que envolva a preparação dos professores e o devido equipamento dos laboratórios;
9) Ampliar o atendimento aos nossos 25 milhões de deficientes e aos 5 milhões de indivíduos portadores de altas habilidades (superdotados);
10) Ampliar significamente o número de vagas nas escolas públicas de nível superior (cursos noturnos);
11) Trabalhar no sentido de dobrar, no período de oito anos, o número de alunos universitários, chegando a 5 milhões, com boa qualidade;
12) Apoiar iniciativas educacionais do Sistema S (Senac, Sesc, Senai, Sesi e Senar), pelo sucesso e seriedade dos seus empreendimentos nacionais;
13) Acabar com o analfabetismo eletrônico, utilizando para isso recursos do FAT;
14) Intervir com rigor na capacitação dos trabalhadores, acabando com os desvios hoje existentes; eliminar o trabalho infantil, que hoje atinge 5,4 milhões de brasileiros;
15) Promover cuidadosa reforma congressual do Plano Nacional de Educação, com ênfase absoluta na Qualidade do Ensino, em todos os níveis;
16) Criar projeto de valorização da língua portuguesa e da nossa literatura. O objetivo maior é trabalhar o idioma em todos os graus de ensino – e de forma obrigatória. Os livros doados pelo Poder Público, segundo criteriosa avaliação, devem ser acompanhados por um treinamento adequado dos mestres, com a garantia de que as obras chegarão aos alunos, o que hoje nem sempre ocorre;
17) Modernizar todo o sistema, com o amplo emprego das tecnologias educacionais que marcam a Sociedade do Conhecimento;
18) Fazer da qualidade o grande projeto nacional de aperfeiçoamento do ensino brasileiro.
Por aí existe um caminho. É só acreditar e seguir por ele.


O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Deveríamos aceitar o adjetivo “admirável” como Shakespeare o expressou, ou na acepção crítica de Aldous Huxley. Na epígrafe do livro, Huxley cita o pensador místico russo Nicolas Berdiaeff (1874-1948): “As utopias parecem bem mais realizáveis do que julgávamos antigamente. E nos encontramos atualmente diante de uma questão bem diversa e angustiante: Como evitar a sua realização definitiva?... As utopias são realizáveis. A vida marcha para as utopias. E talvez um século novo comece, um século em que os intelectuais e a classe cultivada sonharão com os meios de evitar as utopias e de retornar a uma sociedade não utópica, menos ‘perfeita’ e mais livre.” No pesadelo futurológico de Huxley, os homens são gerados artificialmente em laboratórios, situados em gigantescas incubadoras, sem pai nem mãe, e distribuídos em classes de alfas, betas, gamas, deltas e épsilons. Nesta civilização totalitária governada pela tecnologia, Nosso Senhor, Our Lord, agora é Our Ford, Não tardou para que a fertilização in vitro, os bebês-de-proveta e a clonagem superassem em muito as visões que, na época da publicação de Admirável mundo novo pareciam meras fantasias. Outro inglês, George Orwell, publicou o seu notável 1984. Bem antes de chegar ao ano de 1984, todas as previsões pessimistas de Orwell já haviam se concretizado: o controle total da vida do cidadão pelo Estado, a invasão da privacidade por um arsenal de câmaras que são os olhos onipresentes do tirano-mor, chamado de Big Brother. Ironicamente, Big Brother virou a marca de um reality show em que o exibicionismo dos participantes e o voyeurismo do público, num espetáculo de morbidez assumida, rendem uma audiência fabulosa e muito dinheiro. É impressionante o aparato de câmaras que vigiam o indivíduo, hoje em dia — sejam como dispositivos de segurança pessoal e coletiva, sejam como equipamento policial para pilhar o cidadão desobedecendo a lei, como os famosos “pardais” que controlam a velocidade nas estradas. O lema de 1984 — “Big Brother is watching you/ O Grande Irmão está de olho em você” — também encontrou o seu equivalente em nosso cenário urbano, através do mordaz aviso “Sorria, você está sendo filmado”, com a carinha redonda e sorridente do Smiley  — curiosamente um símbolo da cultura das drogas e da discoteca nos anos 1970. O computador, nascido há apenas meio século, depois de um início tímido, passou a ser comercializado em massa, a preços acessíveis à população, e provocou uma verdadeira revolução na vida do ser humano. Quando atingiu o nível de consumo individual, através do PC (private computer), causou efeitos de uma magnitude que nossa cultura ainda não conseguiu assimilar e avaliar de todo. Quando a Informática se uniu a diferentes tecnologias de comunicação surgiu a internet, que viria desencadear uma onda avassaladora de informações por todo o planeta. A internet deu praticamente os seus primeiros passos em fins da década de 1950, utilizada para fins militares e estratégicos, visando a comunicações rápidas para impedir uma guerra nuclear entre as superpotências hostis. A “rede das redes” entraria aos poucos na esfera privada e teria a sua grande expansão entre 1980 e 1990. No ano de 1990, era usada em 20 países por 35 mil pessoas. No final da década, atingiu 226 países e 560 milhões de usuários que, em apenas cinco anos, ascenderam para a cifra de 1,5 bilhão, ou seja, praticamente um quarto da população da Terra. A internet é a grande ferramenta — ou arma — do “admirável mundo novo” que se desenha no horizonte. Ainda não podemos prever se será uma arma do Bem ou do Mal, tudo depende do bom senso e do entendimento entre as pessoas. Por exemplo, com sua grande penetração na vida das pessoas, a net tem se prestado a relacionamentos interpessoais que vão desde casamentos felizes e saudáveis a redes de pedofilia e de prostituição; de trocas sexuais a pactos suicidas (no Japão virou moda macabra). Como se vê na Universidade, a internet, dotada de alta velocidade para todos os tipos de comunicação e com facilidade de acesso para o grande público, forma o conceito da Superinfovia — uma ampla avenida global de múltiplas pistas pelas quais a informação correrá ininterruptamente. É louvável que a inclusão digital chegue para todos, mas não se deve esquecer também a inclusão de um bilhão de seres humanos ao direito de comida, água potável e saúde.


UM OLHAR SOBRE O FUTURO DA HUMANIDADE

O cientista norte-americano Raymond Kurzweill, também escritor e cientista, é um pioneiro nos estudos da inteligência artificial, singularidade tecnológica e de futurologia. No livro The singulary is near, lançado no ano passado, fez uma série de considerações instigantes sobre o cérebro humano. O jornalista Jorge Pontual, da Globo News, entrevistou Kurzweill e disso resultou uma série de oportuníssimas considerações, que devemos levar em conta, mesmo que a elas se deva associar uma perigosa dose de futurologia. Diz ele que hoje, há mais de 100 softwares que fazem coisas que antes exigiam a inteligência humana. Mas em 2029 não haverá mais limites. Existirá uma poderosa combinação entre os padrões da inteligência humana e a capacidade das máquinas. A civilização homens-máquinas crescerá exponencialmente. “Haverá uma só civilização e, em 2045, a parte artificial da inteligência será 1 bilhão de vezes mais poderosa do que a parte biológica.” A essa profunda transformação chamamos de singularidade.

Enquanto patinamos em modelos convencionais de universidades, o mundo se prepara para os estudos bimodais, em que o presencial e o virtual se misturam, com grande proveito para o alunado. Assim se poderá aproveitar melhor o aumento significativo que ocorrerá brevemente na ciência, na música, nas artes, em tudo o que o cérebro humano é capaz de produzir. O cientista Raymond Kurzweill acredita na inteligência emocional, parte sofisticada da inteligência humana, que produzirá máquinas que ficarão tristes, irritadas, furiosas, assim como nós ficamos. Na década de 2030 isso poderá estar existindo, quando tudo ficará misturado. “Haverá humanos biológicos, mas com inteligência 99% artificial.” Para ele, os humanos têm espiritualidade e não será impossível encontrá-la também nas máquinas: “O verdadeiro passo para se ter uma máquina espiritual é ter uma máquina consciente. O sinônimo de consciência é subjetividade. O sinônimo de ciência é objetividade.” Vamos acreditar nisso quando o computador alcançar a profundeza da compreensão linguística que os seres humanos têm.

Para o sociólogo francês Michel Maffesoli, “a modernidade se caracteriza por uma racionalização generalizada da existência.” Defende na pós-modernidade, a existência de uma “razão sensível”, aberta para a emoção.” Por outras palavras e em outros continentes, não se estará falando da mesma coisa? Voltando a Kurzweill, ele garante que a maior parte do que importa hoje para nós é a informação. A maioria das pessoas cria informações. O conhecimento humano duplica a cada 14 anos. A uma pergunta de Jorge Pontual, o cientista americano respondeu à questão das questões: “Estamos mais perto de Deus do que se possa imaginar. A evolução é um processo espiritual, que vai na direção de uma complexidade maior, com todos os atributos que conferimos a Deus: inteligência, criatividade, beleza, amor, tudo isso crescendo exponencialmente. Deus tem esses atributos de maneira infinita.” São pensamentos para refletir sobre o nosso futuro, neste mundo de tantas e tão variadas complexidades.



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