Palestra - Línga Portuguesa, inculta, bela e difícil- Arnaldo Niskier

CIEE, 24 de setembro de 2007


É preocupante o descaso de diversos profissionais de diferentes áreas com a Língua Portuguesa. Alegam essas pessoas que a simples troca de um z por um s não muda o valor de uma petição advocatícia, nem o sucesso de uma boa reportagem. Puro engano: um texto mal escrito abala a imagem do profissional que o escreveu e, sem dúvida, desqualifica o trabalho. Infelizmente, o descaso com o nosso idioma é notório e generalizado.

Devemos ter cuidado com o que se fala e com o que se escreve, pois a imagem do profissional, seja qual for a sua formação, está sempre sendo avaliada.

Muitos comunicadores, até renomados, com a desculpa da modernidade, atropelam tratamentos, as devidas abreviaturas, abandonam o trema, alegando que não existe mais, o que não é verdade. Isto sem esquecer as freqüentes derrapadas nas concordâncias verbal, nominal e pronominal. A proliferação de “houveram”, hs (para representar horas), o uso da 2ª pessoa para o pronome V.Sa. e de termos coloquiais impróprios para textos que exigem linguagem formal, ditada pela norma culta. Parece um festival de mau-gosto. Não deveria ser assim. O idioma português é o quinto mais falado do mundo, alcançando mais de 230 milhões de pessoas. A comunidade lusófona é constituída por Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe (os cinco últimos na África) e por Macau, Timor e Goa, no Oriente, onde também esteve presente a colonização portuguesa. O especialista Sílvio Elia tinha certeza: apesar dos pesares, o português está em expansão no mundo.

A existência de duas ortografias oficiais da Língua Portuguesa, a lusitana e a brasileira, tem sido considerada como largamente prejudicial à unidade intercontinental do português e para seu prestígio no mundo. Tal situação remonta a 1911, ano em que foi adotada em Portugal a primeira grande reforma ortográfica, mas que não foi extensiva ao Brasil.

Por iniciativa da Academia Brasileira de Letras, em consonância com a Academia das Ciências de Lisboa, com o objetivo de se minimizarem os inconvenientes desta situação, foi aprovado em 1931 o primeiro acordo ortográfico entre Portugal e o Brasil, Todavia, por motivos que não importa agora mencionar, o acordo não produziu, afinal, a tão desejada unificação dos dois sistemas ortográficos, fato que levou mais tarde à convenção ortográfica de 1943. Diante das divergências persistentes nos Vocabulários publicados pelas duas Academias, que evidenciavam os parcos resultados práticos do acordo de 1943, realizou-se em Lisboa, em 1945, novo encontro entre os representantes daquelas duas agremiações, o que levou à chamada Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945. Mais uma vez, entretanto, o acordo não produziu os efeitos esperados, já que foi adotado em Portugal, mas não no Brasil.

No Brasil, em 1971, e em Portugal, em 1973, foram promulgadas leis que reduziram substancialmente as divergências ortográficas entre os dois países. Apesar disso, ainda restavam diferenças sérias entre os dois sistemas ortográficos. Orientadas no sentido de reduzir tais divergências, a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras elaboraram em 1975 um novo projeto de acordo que não foi, no entanto, aprovado oficialmente por motivos de ordem política, sobretudo vigentes em Portugal. Nesse contexto houve o encontro do Rio de Janeiro, em 1986, no qual se congregaram, pela primeira vez, na história da língua portuguesa, representantes não apenas de Portugal e do Brasil, mas também dos cinco países africanos de língua portuguesa, emergidos da descolonização portuguesa. E aqui vale fazer um parêntese, pois implica falar em cidadania.

O Fórum de Debates da XIII Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro foi excelente pretexto para focalizar alguns aspectos essenciais da nossa língua e literatura. A começar pela discutida entrada em cena do Acordo Ortográfico de Unificação, a que Portugal resiste bravamente. Segundo seus filólogos, estaria havendo um “colonialismo dos ex-colonizados”, querendo impor 1,4% de alterações ortográficas para Portugal, contra 0,5% do Brasil. Com o apoio de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, parece que existia uma forte disposição de avançar na matéria, como prevê o regimento da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (CPLP). Se três países aderem ao Acordo, ele poderia entrar em fase de execução. Parece-nos, entretanto, uma temeridade cindir a ligação Brasil-Portugal. Na prática, cada um seguiria o seu caminho, adotando o nosso país as pequenas mudanças sugeridas: o fim do trema, das consoantes dobradas, a simplificação do hífen, a volta do k, y e w ao alfabeto, de onde jamais se afastaram, etc. O MEC está escolhendo os 128 milhões de livros didáticos para distribuição gratuita, em 2008. Já se manifestou contra a entrada em vigor, no ano próximo, do tão falado acordo ortográfico. Francamente, o interesse das editoras é o que pouco importa. Nem serão custos tão altos assim.

Devemos tratar de um tema instigante: “Adjetivos, verbos e advérbios: armadilhas da construção literária”. A proposta representa um desafio, pois adjetivos e advérbios são mais formais, enquanto lidar com verbos, fora das regras estabelecidas, é mais perigoso, envolve riscos. Veja-se o caso dos escritores José Cândido Carvalho (“O Coronel e o Lobisomem”) e Dias Gomes (“O bem amado”), este último alavancado por uma enorme audiência da telenovela global. Quando se vulgarizou o emprego de termos como “apenasmente”, do herói da história, quantas crianças adotaram esse aparente linguajar interiorano, “vamos deixar de entretantos e ir direto aos finalmentes”? Assim mesmo no plural, embora o advérbio seja invariável. É preciso estabelecer um consenso entre liberdade acadêmica e licença poética. Enquanto a esta quase tudo se permite, àquela ainda há escrúpulos quanto ao ato de transgredir as regras da norma culta. A gramática, que deve ser ensinada nas escolas, necessariamente, passa pelas lições dos nossos maiores especialistas, como é o caso de Celso Cunha e Antonio Houaiss. A liberdade, aí, é mais que relativa.

Vejamos a questão do “houveram”. Ficamos horrorizados quando um ex-ministro da Educação ocupou o horário nobre da televisão e agrediu os nossos ouvidos com um sonoro “houveram fatos lamentáveis a considerar...” Do princípio da eufonia, uma barbaridade. Mas como condenar esse uso se ele está em Machado de Assis, o maior dos nossos escritores? Pode-se argumentar que é coisa do passado, modernamente a forma não teria mais razão. O verbo haver, no sentido de existir, é impessoal – uma oração sem sujeito. Só costuma ser usado na 3a pessoa do singular (houve). Mas os arcaísmos podem ser considerados errados? Um professor tiraria pontos de um aluno que os utilizasse, livremente? A questão da liberdade de escolha é muito séria. O filme “Primo Basílio”, de Dainel Filho, é um primor de execução. Baseia-se no romance “O primo Basílio”, de Eça de Queirós. Pode a adaptação brasileira dispensar o artigo definido escolhido pelo genial escritor português? Alguém dirá que tanto faz, o que não é a nossa opinião.

Devemos examinar a alternância entre adjetivos e advérbios. Na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, Editora Lucerna, 37a edição, há casos em que a língua permite usar ora o advérbio (invariável), ora o adjetivo (variável). Os exemplos são múltiplos e bastante esclarecedores. O primeiro exemplo pode ser encontrado em Camilo Castelo Branco: “Vamos a falar sérios” ou “Vamos a falar sério”. O escritor Mário Barreto adotou essa liberdade ou dualidade, sem que nada lhe tenha sido cobrado.

Outro exemplo está em Augusto Rebelo da Silva:

“Os momentos custam caros” ou “Os momentos custam caro”. Podemos citar Alexandre Herculano: “Era esta a herança dos miseráveis, que ele sabia não escassearem na quase solitária e meia arruinada Cartéia.” Meia ou meio? Pelo ouvido, a segunda hipótese seria mais simpática, mas vale a escolha do autor, na construção literária que lhe é peculiar. Como diz o comentarista de árbitros na televisão, a regra é clara: a distinção entre adjetivos e advérbios só se dá nitidamente quando a palavra determinada está no feminino ou no plural, caso em que a flexão nos leva a melhor interpretar o termo como adjetivo. Diz Bechara: “Na língua padrão atual, a tendência é para, nesses casos, proceder dentro da estrita regra da gramática e usar tais termos sem flexão, adverbialmente.” E mais adiante: “Entram nessa possibilidade de flexão as construções de tanto mais, quanto menos, pouco mais, muito mais, em que o primeiro elemento pode concordar ou não com o substantivo.

O escritor Camilo Castelo Branco dispôs da seguinte maneira: “Com quando mais razão, muito mais honra.” Ou: “Com quanta mais razão, muita mais honra.” Existe o caso da palavra alerta, rigorosamente um advérbio: “Estamos todos alerta.” Mas há uma tendência, não recomendada pela norma culta, para utilizar essa palavra como adjetivo, conforme o fez Carlos de Laet:

“A moça aguardava com inteligência curta, os sentidos alertas.” Como se deve dizer, a respeito do adjetivo quite: “Estou quite” e “Estamos quites.”

São muitos os mistérios da nossa língua, que é difícil. O fato se agrava, a nosso ver, pela enorme repercussão do que faz a imprensa diária, capaz, num mesmo caderno, de colocar manchetes como: “Um mundo de recalls” e “A era do jihadismo light”. Já temos de lidar com as nossas palavras, o que dizer da inserção inglesa de forma desmesurada? Ainda bem que, no final do mencionado caderno, surgiu a revelação de que “a linguagem de adultos e bebês é universal.” Afirmou estudo da Revista “Psychological Science”: “As pessoas são capazes de reconhecer significado numa língua que não falam. Em diferentes culturas, quando os adultos falam tendem a soar de forma bastante parecida.” O que dá razão a um amigo que, não falando nada de inglês, insiste em utilizar o português quando viaja aos Estados Unidos: “É só falar devagar que eles entendem tudo...” Naturalmente, com a ajuda gestual.


UMA ESPERANÇA

Está em funcionamento, em Brasília o Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, que hoje presido com muita honra.

A ele incumbe zelar, como órgão auxiliar do Senado, pelas questões normativas que se referem à radiodifusão e às telecomunicações brasileiras. O nosso pensamento é comprometer o CCS com a valorização da língua portuguesa. Por que, por exemplo, não estimular a realização de programas de rádio e TV que abordem tal problema, de suma gravidade para a nossa cultura?

Discute-se quem ficará responsável pela elaboração dos conteúdos dos programas que serão exibidos. Talvez seja a principal tarefa da futura TV Pública, produto da fusão Radiobrás – TVE/RJ. Se vem aí a nova Lei de Comunicação Eletrônica de Massa, incluindo outras mídias, devemos estar atentos ao que se chama de "cadeia de valor da comunicação social". A entrada de grandes grupos internacionais na produção de conteúdos de informação e entretenimento suscita uma discussão de relevo indiscutível.

O Centro de Integração Empresa-Escola é uma instituição sempre engajada na resolução das difíceis questões que assolam o nosso País. Preocupados com a falta de respeito com que é tratada a língua portuguesa, investiu na edição do quarto livro da série Na Ponta da Língua. Com mais os três volumes anteriores, sendo que o segundo teve três edições, abordamos cerca de 2.800 questões que suscitam dúvidas no falar e no escrever do dia-a-dia das pessoas.

O povo brasileiro, em geral, faz questão de acertar, o que lhe falta é o acesso ao conhecimento. Como vimos, o rádio e a TV, às vezes, dão contribuições negativas, quando repórteres e atores falam errado, esquecendo as concordâncias nominal e verbal. Devemos estar atentos a todo esse processo.

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