Palestra - Língua Portuguesa, uma Paixão - CIEE/SP - Arnaldo Niskier

Academia Brasileira de Letras
São Paulo, 14 de abril de 2010.

“Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se à janela e mostra-o ao sol.”

Machado de Assis
Memórias Póstumas de Braz Cubas


No contexto de renovação da língua portuguesa, sob os efeitos da implementação do Acordo Ortográfico de Unificação, uma unanimidade é a competência do filólogo, gramático e acadêmico Evanildo Bechara, responsável maior pelo lançamento da 5a edição do VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), uma obrigação legal da Academia Brasileira de Letras. Ao falar no Teatro R. Magalhães Jr., no Rio de Janeiro, Bechara relatou a responsabilidade da ABL pela matéria, objeto de diversos acordos anteriores com o mundo lusófono(1943, 1945, 1971 e 1990). O lançamento do VOLP, com 381 mil verbetes atualizados, representa uma vitória dos praticantes da nossa língua, que passam a ter uma orientação oficial sobre a grafia das palavras, apesar da permanência de pequenas “zonas de sombra” que certamente serão corrigidas com o tempo (caso do hífen).

Não é um trabalho conjunto com a Academia das Ciências de Lisboa. O texto original do Acordo, de 1990, assinado pelo então presidente José Sarney, previa a existência de um outro Vocabulário, destinado a nomenclatura, para abrigar termos técnicos e científicos. Este, sim, terá a colaboração futura de outras instituições culturais, como a Academia Brasileira de Ciências, a Academia Nacional de Medicina, a Academia das Ciências de Lisboa etc. O atual VOLP, cuja primeira edição é de outubro de 1981 – e no qual tive o ensejo de trabalhar, ao lado de Antonio Houaiss – é um vocabulário da língua, nascido com o espírito de simplicidade que é sua maior característica. O objetivo é ser compreendido por todos. Bechara explicou as razões pelas quais as palavras ideia e herói deixaram de ser acentuadas. Para aproximá-las da pronúncia mais fechada (abafada) dos demais países da comunidade lusófona. Da mesma forma voo e perdoo perderam o circunflexo. Assinala-se uma vertente de grande respeito à tradição ortográfica, razão pela qual palavras como pontapé, passatempo e montepio continuaram a ser escritas junto, contrariando regras que estão no Acordo. Prevaleceu a tradição de mantê-las aglutinadas.


O PORTUGUÊS COMO LÍNGUA DE CULTURA

A reforma é ortográfica e ortografia é a parte da gramática que nos ensina a escrever corretamente as palavras. Vejam, por exemplo, o problema do espanhol. O espanhol pertence a 400 milhões de falantes e sabemos perfeitamente que o espanhol de Madri não fala como o mexicano nem como o argentino, mas na hora de escrever todos eles escrevem a palavra da mesma forma. É isso que se quer para a língua portuguesa. Já chegamos tarde a esse clube de línguas que tem uma só ortografia. O espanhol tem uma só ortografia, o francês tem uma só ortografia, o italiano tem uma só ortografia, e o português, já atrasado, vai chegar a esse clube somente agora. O português é a única língua de cultura que tem duas ortografias oficiais, o que é prejudicial, no concerto das nações. O caso do hífen é complicado, todos sabemos, mas é possível encontrar uma certa lógica no seu emprego. Tenente-Coronel tem o hífen, mas General de Brigada não tem, o que pode infernizar um pouco a nossa vida. Questão de hábito. Em geral, todas as locuções perderam a hifenização, já as onomatopeias têm hífen (cri-cri, tique-taque, ping-pong, zás-trás etc). Como o “re” foi esquecido pelo Acordo (indevidamente), manteve-se a tradição: reeleição. Tudo junto. Quem ficou separado, como exceção, é o popular vaga-lume, assim como rega-bofe. Diz-se que a reforma ortográfica é para ser apreendida pelas gerações futuras, como se a nossa estivesse condenada à confusão. Aconselha-se o estudo acurado das suas modificações, sem o emprego indesejável de “pegadinhas”, para que aos poucos o povo brasileiro, especialmente os estudantes, se familiarize com os seus conceitos. A nossa língua é difícil, mas bela, como afirmou Olavo Bilac, e merece toda a carinhosa atenção. Não é à toa que somos por ela


OUTROS EXEMPLOS

São vários os exemplos de modificações da língua portuguesa, a partir da aplicação do Acordo Ortográfico. Vamos conhecer outras regras que serão obrigatórias a partir de janeiro de 2012:

Restabelecer o acento gráfico nos paroxítonos com os ditongos ei e oi quando incluídos na regra geral dos terminados em “r”: Méier, destróier, blêizer. Restabelecer o acento circunflexo nos paroxítonos com o encontro ôo quando incluídos na regra geral dos terminados em “n”: herôon. Incluir na regra geral de acentuação os paroxítonos terminados em – om: iândom, rádom (variante de rádon).

Incluir o emprego do acento gráfico na sequência ui de hiato, quando a vogal tônica for i, como na 1ª pessoa do singular do pretérito do indicativo: arguí. Incluir no caso 1o da Base XV o emprego do hífen nos compostos formados com elementos repetidos, conforme preceitua o texto oficial: blá-blá-blá, reco-reco, zigue-zague. Se for usado o verbo, escreve-se ziguezaguear. Incluir no caso 3o caso da Base XV, relativo às denominações botânicas e zoológicas, as formas designativas de espécie ou produtos afins e derivados, conforme prática da tradição ortográfica: azeite-de-dendê, bálsamo-do-canadá. Excluir do emprego do hífen as formas homógrafas de denominações botânicas e zoológicas que têm significações diferentes àquelas: bico de papagaio, nariz adunco, saliência óssea.

Incluir, por coerência e em atenção à tradição ortográfica, os prefixos re-, pre- e pro- à excepcionalidade do prefixo co-: reaver, reeleição, preencher. Excluir o emprego do hífen nas expressões latinas quando não aportuguesadas : ab ovo, ad immortalitatem, carpe diem, in octavo. Excluir o emprego do hífen nos casos em que as palavras não e quase funcionam como prefixos: não agressão, não fumante, quase delito, quase irmão.


A GUERRA DAS PALAVRAS

Tem havido confusão em torno do Acordo Ortográfico de Unificação da Língua Portuguesa. Enquanto os meios intelectuais, no Brasil, aceitaram bem a reforma, em Portugal há uma grande reação. Um abaixo-assinado de mais de 100 mil pessoas pediu a revisão do assunto. Alguns escritores chamam a decisão de “bizarrice” e acusam o texto do Acordo de “inúmeras contradições e até mesmo de equívocos”, o que não representa nenhuma tragédia, pois a correção poderá ser feita até 2012.
Em 1911, quando se pensou pela primeira vez no assunto, escreveu-se muito a respeito, mas a decisão foi unilateral: fez-se o que foi determinado pelo governo português. Ninguém “deu bola” para a posição brasileira, então uma nação bastante atrasada e com altíssimo índice de analfabetos. Hoje, temos um grande peso específico na matéria, pois somos mais de 190 milhões de falantes, quase 20 vezes a soma de todos os demais países da Comunidade de Língua Portuguesa.
Mas parece impossível o entendimento. Demonstramos uma grande boa vontade, não ocorrendo o mesmo por parte dos parceiros. Dirigentes de Angola concordam com tudo, desde que palavras como quitanda sejam escritas com K, como acontece naquele país africano. Portugal não abre mão do António, como se pronuncia a palavra em seu território – e aí se estabelece a confusão, apesar de haver um acordo de cavalheiros para que não se altere a fonética, o que é bastante inteligente.
O Ministério da Educação avaliará os livros didáticos somente se estiverem de acordo com a “nova ortografia”. Serão comprados para distribuição gratuita em 2011. A Academia Brasileira de Letras lançou o seu primeiro Dicionário Escolar, com 30 mil verbetes. A Casa de Machado de Assis editou a nova versão do Vocabulário Ortográfico, com cerca de 381 mil verbetes.
Temos a solidariedade completa de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. O que dói um pouco, nisso tudo, é a posição de alguns escritores de Lisboa. Escrevem contra o Acordo e contra o Brasil, acusando-nos de tentativa de neocolonialismo. Seguramente, esse não é o melhor caminho para que venha o entendimento desejado.
Em meio a essa tormenta transatlântica, tem havido muita troca de informações e até visitas por parte da Academias Brasileira de Letras e de Ciências de Lisboa. Os de lá vêm, os de cá vão. Sem qualquer pretensão de arrogância ou predomínio, pois isso é coisa do passado. Enquanto aqui o Ministério da Educação, para cumprir o decreto do presidente Lula, marcou prazo para as alterações nos livros didáticos, em Portugal há um eloquente silêncio quanto às novas regras gramaticais. Condena-se o Acordo, considerando que para os brasileiros é mais fácil a sua implementação. Para o filólogo João Malaca Casteleiro, que foi companheiro de Antonio Houaiss nas discussões iniciais do projeto de unificação, “o ideal teria sido que todos os países lusófonos implementassem as mudanças simultaneamente, o que infelizmente não está acontecendo.”
Os meios culturais de Portugal estimulam uma “guerra de palavras.” Só três jornais, dos mais importantes, adotam os novos procedimentos. A explicação é até curiosa: nosso público, dizem eles, não aceitaria de bom grado se aparecesse a palavra exceção sem o p ou espetacular sem o c. “Isso retira qualidade estética às palavras”, afirmou um especialista, num evidente exagero. Há um fato positivo, nisso tudo: intelectuais como o acadêmico António Valdemar, que é presidente da Academia Nacional de Belas Artes de Lisboa, são francamente favoráveis à imediata implantação do Acordo Ortográfico. Segundo ele, que também é da Academia das Ciências, “quanto mais rápido isso acontecer, melhor será para o destino comum dos povos que têm o privilégio de utilizar a mesma língua de Camões, Fernando Pessoa e Euclides da Cunha.”



LIMA BARRETO

Uma das originalidades do romance “O triste fim de Policarpo Quaresma”, do escritor carioca Lima Barreto, lançado em 1915, foi o seu firme desejo de trocar a língua portuguesa pelo tupi-guarani. Segundo ele, seria mais legítimo porque tinha tudo a ver com as nossas raízes, antes mesmo do Descobrimento do Brasil. Fizemos agora a adaptação do romance – e tivemos o enriquecimento gráfico das belíssimas ilustrações de Mário Mendonça.
Hoje, vive-se uma fase de globalização intensa. Tanto que, nos meios acadêmicos, discute-se muito a necessidade de domínio de um segundo idioma, no caso com larga preferência pelo inglês, o que é normal em virtude do progresso desmesurado do emprego do computador, na vida de cada um de nós.
A questão que se coloca é muito simples: boa parte da nossa população, que não tem bons conhecimentos da língua mater, está sendo induzida a aprender o inglês. É preciso enfatizar o aperfeiçoamento da língua portuguesa. Até para entender o estilo de escritores como Machado de Assis, de origem humilde, que se tornou o maior de todos, em nosso País.
Numa viagem casual, em avião de carreira, de volta de Brasília, conversamos detidamente sobre o assunto com o ministro Carlos Lupi, do Trabalho e Emprego. Do papo também participou o acadêmico Marcos Vilaça, que manifestou o seu entusiasmo quando o ministro confessou o desejo de dar um tratamento especial aos jovens aprendizes que, na idade entre 14 e 24 anos incompletos, estão em busca do primeiro emprego.
Concordamos que os incentivos hoje são vastos e se registra um interesse crescente dos empresários pelas inovações legais. O que nos pareceu prioritário é criar condições para que os jovens recebam uma eficiente capacitação em língua portuguesa, o que será a base de tudo. Como poderão dominar outras matérias, como a Matemática, por exemplo, sem conhecer em pormenores os mistérios e as riquezas do idioma de Euclides da Cunha? Ou devemos voltar ao tupi-guarani?
A cada momento sofremos o choque das informações que hoje têm um nível de conhecimento crítico. Chegar a quarta série convencional sem dominar o idioma, com a capacidade de raciocínio prejudicada pela ignorância e a impossibilidade de apreensão adequada de conhecimentos é mais comum do que se deveria desejar. Pior é quando isso se revela na nona série. O que esperar do futuro desses jovens?



NA PONTA DA LÍNGUA

Para facilitar a compreensão das inovações que estão ocorrendo, criamos no “Jornal do Brasil” do Rio de Janeiro uma seção, aos domingos, que faz muito sucesso. Trata-se de “Na ponta da língua.” Vejam alguns exemplos:


“Internetês”: qual é o limite?

A Internet é uma realidade com inúmeros aspectos positivos. Sobre a linguagem adotada, principalmente pelos jovens, entendo que o objetivo de tais sinais seja tornar mais rápida a comunicação. Entretanto, é preocupante se este recurso extrapolar o meio virtual.
Na escola, por exemplo, não se pode permitir que uma redação seja escrita em “internetês”. É preciso bom senso, principalmente daqueles que têm por obrigação orientar os filhos, os netos e os alunos, enfim, os mais novos.



Algumas dúvidas

É sempre prazeroso ter contato com nossos leitores. Maria Carmen, da Tijuca, enviou o seguinte e-mail:
Tenho uma dúvida, quase uma certeza, sobre o gênero da palavra DENGUE que, para mim, é masculino.
Na consulta ao dicionário Aurélio, encontro dengue: substantivo masculino, inclusive com o exemplo “dengue hemorrágico”.
No VOLP, da ABL, encontro dengue: substantivo masculino.
No Centro de Informações em Saúde para viajantes, CIVES, também é masculino.
Entretanto, toda a mídia, com raras exceções, trata a palavra como FEMININA, “a dengue”. Até o Ministério da Saúde, em seus anúncios!
Como sou taquígrafa e redijo bastante, pergunto: qual é o tratamento certo?
Recomendo uma pesquisa mais apurada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academias Brasileira de Letras, que registra a palavra dengue como um substantivo masculino e feminino, logo, tanto faz escrever a dengue ou o dengue.
Entretanto, concordo com a leitora que devemos incentivar a mídia a contribuir para a melhoria do trato da Língua Portuguesa.



Paredão neles

“É possível que Max e Francine se consolidem, depois de terem passado alguns dias xipófagos.”(Revista da TV, O Globo, 15/02/09)
Assim, não tem jeito. O destino é o paredão.
A palavra certa é xifópagos, cuja origem é o apêndice xifóide, por onde os irmãos ficam presos. Esse erro é muito comum, mas indesculpável.
Período certo: É possível que Max e Francine se consolidem, depois de terem passado alguns dias xifópagos.



Viva o nacionalismo

“O cupuaçú é nosso”! Assim, vamos perdê-lo. Defendamos a produção e as mudanças ortográficas.
Entretanto, não houve mudanças em relação às palavras oxítonas, isto é, todas as oxítonas terminadas em i ou u não são acentuadas. A única exceção é quando formam hiato com a sílaba anterior.
Exemplo: Nas margens do Rio Jaú (hiato a/ú), no Amazonas, temos árvores de cupuaçu (sem acento).
Frase correta: O cupuaçu é nosso!



Trema na base

“A queda do trema levou a intranqüilidade à turma da professora de Matemática”.
Não há motivo: o trema (¨), que era colocado sobre a letra u para indicar que deveria ser pronunciada nos grupos qui, que, gui e gue, acabou. Entretanto, a pronúncia não foi modificada.
Os alunos podem ficar tranquilos. É muito simples: basta não usar mais os pontinhos.
Frase correta: “A queda do trema levou a intranquilidade à turma da professora de Matemática”.


Superstição

Na transmissão do desfile do Carnaval, este ano, a TV Globo brindou-nos com a palavra “supertição”, na legenda de umas das grandes escolas. Como sou supersticioso, não gostei da suspensão do “s”. A palavra certa é SUPERSTIÇÃO.


Ludopédio, não!

O leitor Mauro M. Flores, de Belo Horizonte, escreve para protestar contra a palavra futebol, hoje consagrada, mas que se originou de uma palavra inglesa(football). Prefere que use ludopédio. Isso foi tentado, há tempos, mas não “colou”. Hoje, o futebol é um esporte tão popular que não se cogita mais abrir mão dessa expressão.
Vocês já imaginaram ouvir um locutor gritar que “o Brasil é campeão mundial de ludopédio?” Ninguém ia acreditar.


LULA E O ACORDO ORTOGRÁFICO

Sem pressa e sem pausa, como aconselhava o poeta Goethe, o presidente Luís Inácio Lula da Silva foi muito aplaudido, na leitura do discurso com que saudou a assinatura dos quatro documentos fundamentais da implantação do Acordo Ortográfico de Unificação da Língua Portuguesa. Vencendo barreiras internas e externas, inclusive de intelectuais portugueses, Lula marcou o início do emprego das alterações (menos de 1% do nosso Vocabulário Ortográfico), com os livros didáticos.
O ato ocorreu no Salão Nobre da Academia Brasileira de Letras, que celebrava o centenário de morte de Machado de Assis, seu patrono e primeiro presidente. Lula mostrou respeito à ABL: “Testemunho a sua importância como instituição que reconhece e consagra o talento literário e artístico brasileiro. Todos os seus feitos concretos a tornam um organismo único em nossa vida cultural.”
Na sequência da cerimônia, o presidente da República elogiou o significado estratégico do Acordo Ortográfico, com o imprescindível resgate dos nossos laços substantivos com a África, “em particular a África de língua portuguesa.” Para o presidente, é o reencontro do Brasil consigo mesmo, consideradas algumas das suas raízes mais profundas. Lembrou que, nos seus mandatos, realizou 21 visitas a países da África, “engajando o nosso país em parcerias com as mais diversas nações africanas, em especial as de língua portuguesa. São acordos de cooperação cultural, científica e educacional com os países da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa, prevendo a circulação de obras literárias e de obras artísticas em geral, o que será grandemente facilitado pela implementação do Acordo Ortográfico (com o pormenor de que ele não se refere à pronúncia, que seguirá os padrões culturais dos povos respectivos).
Como educador, fiquei particularmente feliz com a promessa de incrementar a ação dos professores brasileiros em cada um dos países irmãos. A padronização da língua escrita será um formidável instrumento de intercâmbio, como, por exemplo, a edição de material didático compartilhado. No caso da Matemática, para citar disciplina essencial, superado o obstáculo da grafia, o conteúdo poderá ser apreendido com a mesma metodologia que aplicamos em nossas escolas. Ou a geometria euclideana terá diferenças entre uma e outra regiões?
Foi ainda muito oportuna uma outra lembrança do presidente Lula, quando se referiu as quase 8 milhões de lusófonos radicados fora dos nossos países, dispersos pelo mundo. “Estou certo de que eles também desejam assegurar aos seus filhos o domínio do português falado e escrito.”



A CPI DA LÍNGUA PORTUGUESA

Em noticiário da Folha de São Paulo, foi registrado o recorde de reprovação na secional paulista da OAB. Dente os 20.237 candidatos (advogados formados – bacharéis em Direito), o índice de reprovação foi de 92,8%, apenas 1.450 conseguiram aprovação. O Dr. Luiz Flávio Borges D’Urso, presidente da OAB/SP, acha que “há pessoas que chegam à prova e não sabem conjugar verbos ou colocar as palavras no plural”, recomendando que “é preciso reagir”. Concordamos inteiramente.
Muitos comunicadores, até renomados, com a desculpa de modernidade, erram à vontade. Pensamos, até, para ficar na moda, que se poderia criar a CPI da Língua Portuguesa. Os erros mais escandalosos seriam punidos com multas e até prisões, com leituras obrigatórias, como um dia pensou o deputado Aldo Rebelo. Isto sem esquecer as frequentes derrapadas nas concordâncias verbal, nominal e pronominal.
Fui convidado pela equipe do “Fantástico” (TV Globo) para acompanhar um grupo de estudantes de 14/15 anos, às voltas com uma novidade cibernética: linguagem icq, sigla da expressão inglesa “I seek you”. O experimento teve lugar num colégio da Zona Sul do Rio de Janeiro. Os jovens, meninos e meninas, eram sete, cada um pilotando o seu computador.
Insisti em saber da Júlia se ela gosta de ler. Afirmou peremptoriamente que não: “Os livros são muito chatos.” Perguntei se a escolha não tinha sido infeliz, ela diz que não. E confessa que o icq é um barato, às vezes fica horas conversando com colegas, amigos e até professores. Perde-se no horário. Em determinada ocasião, deu-se conta, ficou até depois da meia-noite nesse exercício de comunicação. Foi dormir feliz da vida.
O “eu procuro você” nasceu no Estado de Israel, provavelmente por motivos locais. Nós adotamos e, se for como brincadeira, tudo bem. Mas trocar pelo livro, que é notoriamente um instrumento insubstituível de cultura, francamente, nem pensar. Discuti com os alunos, na frente das câmeras, o que é linguagem popular e o que é norma culta. O João sabia direitinho a diferença e deu uma explicação convincente: “Se um dia depender de concurso público, para exercer uma profissão, precisarei da norma culta.” Se os jovens tomarem consciência dessa necessidade, separando o joio do trigo, o icq valerá como curiosidade. Mas se for permanente e substitutivo da nossa língua inculta e bela, estaremos perdidos.
Não se pode defender a existência de uma separação linguística, dividindo o falar do rico e do pobre. Temos uma realidade plurilinguística, considerando-se basicamente que a norma culta deve ser respeitada sobretudo nos códigos escritos. Existe a sedução do novo, mas tudo tem os seus limites. Vejam o que afirma o acadêmico Domício Proença sobre o Acordo como coisa nova: “Eu às vezes assusto as pessoas, mas tenho certeza de que acontece um Acordo e é o que acontece com o novo, ou seja, a sedução do novo supera a resistência à mudança, quer dizer, o Acordo é alguma coisa nova, provoca um certo estranhamento, então esse jogo de estranhamento e novidade acaba sendo vencido pela novidade, acredito que vai ser bem assimilado, até porque as mudanças que ele traz não são tão numerosas assim.”



LÍNGUA PORTUGUESA, UMA PAIXÃO

A expressão é da romancista Lygia Fagundes Telles, com o seu jeito personalíssimo de falar: “Tenho paixão pela língua portuguesa, desde que comecei a escrever. Devemos tratar bem dela, amá-la, não permitir as invasões, seduzir os nossos leitores com a língua que é, no dizer de Olavo Bilac, a um só tempo esplendor e sepultura.”
Esta é a principal obrigação da Academia Brasileira de Letras. No artigo 1o do seu Estatuto, afirma-se: cuidar da língua portuguesa e da cultura nacional. Nos seus mais de 100 anos de vida, tem sido essa a sua missão essencial. Alguém perguntará por que a Academia é que cuida disso. A resposta é simples: existe a Lei no 5.765, de 18 de dezembro de 1971, que confere essa obrigação à Casa de Machado de Assis. O VOLP, como dissemos, nasceu em 1981 e agora está na 5a edição. A partir de 1998 veio à tona também o Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, uma edição de bolso, com 100 mil verbetes, que tem sido utilíssimo nas escolas brasileiras.
Faço referência a outra significativa realização: o Vocabulário Onomástico da Língua Portuguesa, também obrigação legal, hoje uma das atrações da Livraria Acadêmica, que criamos ao lado da Galeria Manuel Bandeira e do Espaço Machado de Assis, na sede da ABL, no centro do Rio de Janeiro.


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