Palestra - Peregrino Jr, um escritor Amazônico - Arnaldo Niskier

Conferência na UBE - Rio de Janeiro, 20 de agosto de 2008.


João Peregrino Júnior da Rocha Fagundes nasceu em Natal (RN), em 12 de março de 1898, filho de João Peregrino da Rocha Fagundes, professor de Línguas e Matemática, e de Cornélia Seabra de Melo.
Fez o curso primário no Colégio Diocesano Santo Antônio e no Grupo Escolar Augusto Severo, os estudos secundários no Ateneu Rio-Grandense, cursando ao mesmo tempo a Escola Normal. Ainda estudante exerceu grande atividade jornalística. Ele próprio lançou A Onda, jornal em que escreveu um artigo contra o diretor da Escola Normal e professor do Ateneu, que provocou enorme celeuma e custou-lhe a saída do colégio. Ainda em Natal, fundou mais dois jornais: A Gazeta de Notícias e O Espectador.
Proibido de estudar na cidade, mudou-se em 1914 para Belém, onde terminou o curso secundário no Ginásio Pais de Carvalho. Em A Folha da Tarde ocupou, gradativamente, as funções de suplente de revisor, repórter de polícia e redator. Trabalhou ainda em A Tarde e A Rua, além de secretariar A Semana. Fundou e dirigiu A Guajarina, antes de iniciar os estudos de Medicina. Aprimorou sua formação literária, mergulhado nos preceitos filosóficos e nas leituras de Nietzsche e Bérgson, mas logo se concentrou nos clássicos portugueses, nos românticos Herculano, Garret e Castilho.
Em 1920, fixou-se no Rio de Janeiro, mais precisamente na Glória, em uma pensão de estudantes e candidatos a escritores. Trabalhou na imprensa, como escrevente na Gazeta de Notícias, e começou a produzir literatura. Trabalhou por um tempo na Central do Brasil, onde teve como companheiro Pereira da Silva, a quem sucedeu na Academia.
De 1928 a 1938 publicou sua obra literária de ficção e de crítica. Após uma interrupção de mais de 20 anos, ele retomou os trabalhos e voltou a publicá-los, em 1960, com uma nova edição de Histórias da Amazônia, acrescida de novelas inéditas, inclusive A mata submersa. Organizou uma antologia de Ronald de Carvalho e escreveu ensaios sobre José Lins do Rego, Graciliano Ramos e estudos sobre temas da literatura brasileira.
Formou-se em Medicina em 1929, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Iniciou como interno da 20a Enfermaria da Santa Casa (Serviço do Professor Antônio Austregésilo) uma carreira médica longa e bem-sucedida, como médico adjunto da Santa Casa, chefe da 41a Enfermaria do Hospital Estácio de Sá, fundador e diretor do Serviço de Endocrinologia da Policlínica do Rio de Janeiro, docente de Clínica Médica da Faculdade de Biometria, professor da Faculdade Fluminense de Medicina e professor emérito da Universidade do Brasil. Durante 18 anos, foi membro presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, Biotipologia e Nutrição; diretor-presidente da Policlínica Geral do Rio de Janeiro; chefe da Divisão de Assistência Médico-Hospitalar do Ipase, entre outros cargos.
No terreno esportivo, além de professor e diretor da Escola Nacional de Educação Física, também foi membro do Conselho Nacional de Desportos.
Sua inclinação para as letras e o jornalismo nunca o deixou. Além da Gazeta de Notícias, escreveu para O Jornal, Rio Jornal, O Brasil, A Notícia, Careta, ganhando grande nomeada, sobretudo como cronista e como colaborador de numerosas revistas literárias e científicas do Brasil e do estrangeiro. Representou o Brasil em inúmeros conclaves internacionais, como as Comemorações Cervantinas (Espanha, 1946), Colóquios Luso-Brasileiros de Lisboa (1958), Conferências de Cooperação Intelectual de Santander (1957) e Granada (1958). Foi membro do Conselho Federal da Educação, do Conselho Federal de Cultura, presidente da UBE (União Brasileira de Escritores), membro titular da Academia Nacional de Medicina e membro da Sociedade Argentina para o Progresso da Medicina Interna, da Academia das Ciências de Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia.
Faleceu no Rio de Janeiro, aos 85 anos, em 12 de outubro de 1983.


CADEIRA nO 18

Na ABL, Peregrino Júnior eleito em 4 de outubro de 1945, na segunda eleição à vaga de Pereira da Silva. Foi recebido em 25 de julho de 1946 por Manuel Bandeira.
Na obra de Peregrino Júnior revelam-se as múltiplas facetas do autor, como contador de histórias, ensaísta, crítico, médico e professor. A temática central da sua ficção, em Puçanga, Matupá, A mata submersa e Histórias da Amazônia, é a visão do mundo amazônico, a imaginação do homem e a fatalidade geográfica que o conduz ao mistério dos mitos e à poesia das lendas.
Peregrino Júnior, filho de professor, foi um apaixonado professor universitário. Suas palavras, sobre o papel da universidade, ditas em 1940, quando andava eu pelo Jardim de Infância do Instituto de Educação, revelam pelo magistério um sentimento do qual sempre partilhei:
“A situação do ensino não permite a timidez hesitante do conformismo, nem as atitudes estéreis de negação ou de resistência passiva. Todos têm o dever de cooperar para que o ensino universitário entre nós melhore progressivamente nos seus quilates culturais, quer dizer, no sentido perpendicular da profundidade e da altura. Para isto poderemos contribuir decisivamente todos nós, professores, se nos lembrarmos de que o professor moderno deve exercer, no organismo universitário, aquela prodigiosa função hormonal de que nos falava Marañon. É exatamente esta a função mais importante do professor: a função estimuladora, que leva ao espírito do estudante os excitantes específicos do entusiasmo, da fé, da confiança e do interesse científico. Sem esses hormônios espirituais, o ensino universitário será vão e precário: poderá preparar autômatos ou máquinas especializadas, mas não formará, jamais, médicos, pesquisadores, nem homens para o trabalho da cultura. Além de tudo, o problema da disciplina nada perde nessa orientação: ao contrário, a disciplina que nasce do respeito mútuo e da mútua estima é uma disciplina mais humana e mais sólida, porque emana de um ato gratuito de aceitação e de cooperação. É esta a disciplina voluntária que não humilha nem compromete a dignidade humana, porque deriva simplesmente da hierarquia do trabalho. É a ela que eu desejaria que todos na Universidade se subordinassem, no interesse da nossa harmonia moral e do entendimento pedagógico dos nossos cursos.”
Esse texto, além do pensamento de Peregrino Júnior sobre educação, mostra sua dimensão humana, que se reflete no contador de histórias, em que sobressaem o espírito crítico e o bom-humor, de que flui uma certa ternura. Foi com esse estilo que ele se tornou diretor da Escola de Educação Física da Universidade do Brasil (hoje UFRJ).
Para Rachel de Queiroz, sua grande amiga desde 1939, quando veio morar no Rio, Peregrino, diferente do paroara nordestino, trouxe outra espécie de ouro da Amazônia: a descoberta da beleza da terra, do mistério do grande rio, que até então só se conhecia literariamente como “inferno verde”.
Embora no conto Buenolândia, de A Mata Submersa, Peregrino Júnior diga que: “à luz morna da noite tropical, minha infância voltou, sorriu-me, com um perdão unânime, para todos os meus erros e debilidades, e envolveu-me num abraço manso, sem palavras...”, e que era preciso conhecer a Amazônia, “estuprá-la, dominá-la violentamente para poder possuí-la com amor”, também declarou ter sido nela que “o menino mofino, rapaz frouxo, homem sem disposição para a luta”, reforçou “o caráter e endureceu a alma”. A Amazônia foi a sua “aventura do mundo – a aventura da liberdade e da solidão”.
Peregrino, como escritor, no plano das letras puras, teve esta direção singular. Numa fase em que ainda predominava o esplendor verbal de Rui Barbosa e de Coelho Neto, buscou em Machado de Assis a afinidade natural do seu espírito. Escreveu com sobriedade, teve o gosto da forma simples, e foi direto e objetivo como compete a um genuíno homem de jornal.
Euclides da Cunha e Alberto Rangel, seguidos de perto por um mestre esquecido, Raimundo de Morais, ajustaram o estilo literário à riqueza amazônica. O estilo opulento, derramado, por vezes torcido na sua expressão procurada, como que simétrico àquela região que Euclides definiu como a última página do Gênesis, ainda por escrever. Muitos mestres que vieram depois, como o citado Raimundo de Morais, autor de vasta bibliografia amazônica, moldaram-se pelo metro literário de Euclides. Citarei ainda um exemplo, mais próximo de nós: Alfredo Ladislau. E também o saudoso Osvaldo Orico, autor do Vocabulário de Crendices Amazônicas.
Convém não esquecer que a literatura da região amazônica teria um mestre de outra linha, na prosa de José Veríssimo, notadamente nas Cenas da Vida Amazônica. A sobriedade estilística daquele que seria o grande crítico da obra machadiana, reconhecendo-lhe a preeminência no quadro geral da cultura brasileira, faria também seus discípulos, criando uma outra linha de escritores da região. Entre eles, Peregrino Júnior.
Ao transferir-se para o Rio de Janeiro, e aqui continuar seus estudos de medicina, Peregrino veio a ser, na Santa Casa de Misericórdia, um dos grandes discípulos do Professor Antônio Austregésilo, como Deolindo Couto, outro grande mestre, ao mesmo tempo em que desdobrou a sua atividade literária nestas duas direções: escreveu contos e crônicas, além de reportagens e artigos de jornal. O cronista social retomou aqui a sua pena de comentarista malicioso e atento, em cenário maior.
Peregrino Júnior se fez o grande repórter do Modernismo. Não se limitou a acompanhar a mudança de ordem cultural e social. Registrou essa mudança. Objetiva e corretamente. E de tal modo, que não se poderá recompor, hoje, a fase beligerante do Modernismo, sem aludir ao que Peregrino Júnior recolheu nas suas primorosas reportagens.
A rigor, ele soubera ser modernista, antes do modernismo. Mas, resguardando a sua independência pessoal. Não participou da liderança da Revolução, mas soube ser seu cronista – fino, polido, imparcial.
O Rio Grande do Norte ficou nele como a terra idílica, a infância, a idade do ouro. Dele extraiu as recordações mais poéticas: “Natal, cidade lírica e linda na sua humilde infância.../ E os banhos alegres e livres no sítio do meu avô na Rua do Morcego, onde cada cajueiro tinha um nome e cada coqueiro um dono...”
No espaço da saudade, a terra natal não apresenta defeitos. Já a Amazônia foi para Peregrino Júnior, como disse Manuel Bandeira, “um caso clínico”. Ele não a viu com deslumbramento, mas com observação. Com os mesmos olhos, viu o Rio de Janeiro, e, cronista social, registrou-lhe o movimento, em Vida Fútil: o recesso dos salões literários, o surgimento do arranha-céu, a extinção da sala de visitas.


A CRÔNICA SOCIAL

No entanto, a crônica social, para Peregrino Júnior, não foi mera obra do acaso. Seu estilo tinha algo de diferente – uma certa malícia, corroendo a aura que não pudesse envolver uma domingueira, uma festa no “set” ou um salão literário. Era o olhar do homem nordestino, cauteloso e crítico, que o fazia ter saídas como esta, contada por Josué Montello, no seu Diário da Manhã: “Corria em Belém a notícia de que o cronista social Peregrino Júnior, tendo caído do cavalo, havia fraturado o braço. Osvaldo Orico, seu velho amigo, foi visitá-lo no hotel em que então morava Peregrino, e o encontroou, realmente, com o braço engessado, na tipóia. Não conteve a pergunta:
— Peregrino, como foi que você caiu do cavalo, se eu nunca soube que você praticava equitação? E Peregrino, depois de passar a chave na porta:
— Osvaldo, eu não caí do cavalo, caí da rede. Mas não ficava bem a um cronista social cair da rede. Não diga isso a ninguém. Fica entre nós.
Espectador de uma sociedade que, segundo ele próprio, vivia com o coração e o pensamento em Paris, cujas “moças aprendiam História do Brasil e Doutrina Cristã, em francês, no Sion, e a cujos homens as “cocotes” da Glória e do Catete ensinavam, na sua doce missão, não só a arte de amar, também a de beber e de comer, e ainda o gosto de falar francês”, freqüentou os salões literários onde o parnasianismo ainda tinha vez.
Desse diálogo entre os Peregrinos de dois tempos surgiram ainda as Recordações de um Cronista Mundano Aposentado, que ele publicou no Correio da Manhã. O “rapaz de jornal” iluminava o ensaísta, como outra dimensão daquele espírito que mostrava afinidade com a ciência, com o magistério, com a literatura.
Peregrino registrou e registrou-se, imortalizou e imortalizou-se. Lendo-se o seu mosaico, é possível levantar as linhas de um homem, de um tempo, de um pensamento.


O ESTILO

Vamos exemplificar o estilo bastante pessoal do escritor Peregrino Júnior:

CARIMBÓ
O negro velho cochilava tranqüilamente no terreiro limpo da barraca, sem escutar a música dos carapanãs que lhe zumbiam nos ouvidos moucos.
O igarapé – alcatrão coagulado na sombra da mata virgem – era um espelho preto onde as estrelas do céu se debruçavam, com tremuras de medo, nas noites cheias de assombrações.
Zé Vicente morava ali há perto de sessenta anos. Agora, a sua cabeça pixaim começava a pintar. Bem que o povo dizia negro quando pinta, tem três vezes trinta... Ele ia caminhando para os noventa.
Erguendo-se do silêncio a sua memória, as recordações mais remotas saltam-lhe, tristes, diante dos olhos apagados. As suas lembranças mais longínquas, ele as perdeu do outro lado do mar, numa praia tranqüila, entre as palmeiras ondulantes do Congo, no dia em que conheceu a escuridão cabinda dos porões de um navio negreiro.
Já nem se recordava do último adeus da choça nativa, que lhe pusera uma lágrima de humilhação e de dor nos cantos dos olhos adolescentes.
De quando em vez, violando a solidão do igarapé imóvel, uma montaria agita-se macia e preguiçosa, sob a sombra estrelada da mata que escondeu o sol.
Zé Vicente possui as recordações melhores, mais vivas, mais novas, que lhe dançam, num ritmo brando, dentro da cabeça triste... Aquele remoto sorriso que a nhazinha moça lhe levava no eito, numa inconsciente bondade que o encantava... aquelas noites quentes de festa em que ele e Miquelina, no pátio largo da fazenda, umbigando e sapateando, em volta da fogueira, ao som monótono do carimbo, dançavam o samba e o zambê... aqueles amores clandestinos que eram felizes, sob a complacência do luar...
Depois, de súbito, a água morta das lembranças se encapela ao vir-lhe à tona das pupilas a afronta da bofetada que lhe deu o nhô branco...
Doía-lhe ainda nas entranhas a dor da humilhação!
Na ramaria assanhada da sumaumeira da barranca, onde fizeram o seu ninho entrincheirado atrás de três casas de formigas-de-fogo e de cabas, os japins cantavam contentes, numa algazarra de festa: “xá-ço-xa-ço”... Arremedando todos os pássaros, imitando todas as vozes da selva brava os japins conservam, através dos tempos, nas solidões amazônicas, as canções, os ritmos e os cantos do folclore ornitológico das matas virgens...
Vicente conhece a lenda, porque conhece tudo naquela terra, e espia com indiferença o “pau dos japins”, que na língua dos caboclos daquelas beiradas do rio se chama “miura lapi ciu”...
(De Puçanga, in A mata submersa, pp. 35-36)


CAUSOS DE BEIRA DE RIO
Não acontece nada. A vida parou, estagnada e podre. A cidade permanece adormecida numa calma resignação silenciosa. Terra de gente pobre – caboclos sem ambições, sem remorsos, sem problemas. Nem dramas de consciência, nem inquietações de coração. Ignorando seus direitos – que direitos? – e não sabendo o que vai pelo resto do mundo, as fronteiras do seu espírito coincidem com o horizonte curto dos seus olhos: a curva mansa do rio e o corte vertical da floresta. Nem alegria. Nem esperança. Esperança de quê? Liberdade, isso sim. A miséria não é afinal uma forma de liberdade? Mas para quê, se não sabem o que fazer daquela estranha liberdade das matas sem termo e sem dono, dos rios preguiçosos que não descansam?
Frei Jacó aparece por lá, vez por outra, com as Missões: casa, batiza, absolve, reza... dá presentes, ensina catecismo. É teimoso no ensino da doutrina cristã:
— Sois cristão?
— Sim, pela graça de Deus!
— Quem é Deus?
— Um soberano Senhor, criador do Céu e da Terra.
— Deus tem sempre existido?
— Sim, porque não teve princípio nem há de ter fim...
— E para que fim nos criou Deus?
— Para amá-lo nesta vida e gozar depois d’ele no Céu para sempre.
Frei Jacó – bom frade ingênuo, a cabeça branca, os olhos sem malícia, fica espantado com aqueles caboclos que vem do centro – meio do cerrado do seringal, do coração sombrio da mata calada. Chegam tímidos e nus. Índios mansos, tristes e miseráveis. Frei Jacó dá-lhes roupa e calçados, além de terços e santos. Impõe uma condição: que assistam à missa vestidos: “com a roupa de ver Deus”.
Concordam, com um aceno de cabeça. Vestem a roupa, calçam os sapatos – e endomingados, manquejando, os sapatos machucando os pés grossos, vão para a igreja. Mal terminada a missa – na própria calçada da igreja – descalçam os sapatos – ufa! que alívio! – e despem as roupas – Eta calor brabo! Depois atravessam dignamente a praça, nus, com a mais grave naturalidade, e voltam para as suas malocas, contentes e tranqüilos.
Frei Jacó benzia-se, perplexo:
— Não compreendo...
Que andassem descalços, concordava. Mas, nus, Senhor Deus, que indecência!
Não compreendia... Houve nova combinação: que fossem à igreja descalços, mas não tirassem depois as roupas.
Eles aceitam a concessão: vão à igreja de pés no chão; -mas vestidos – que sacrifício! – Acabam aceitando a imposição de Frei Jacó – não há outro jeito – para ganhar presentes.
(In A mata submersa, pp. 239-242).

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