Família

As inesquecíveis fotos do amor e da timidez
Por Ruth Niskier

“Acho que meu encontro com Arnaldo foi coisa do destino”, diz Ruth Niskier, “e começou de forma muito clara, até porque nesse tempo não se fazia nada escondido, não havia chance para isso. A fiscalização era severa.
“Estava eu na casa de amigos (Família Voloch), em Teresópolis, onde havia uma festa e, no amplo quintal do casarão, uma piscina. Era fevereiro de 1960. Havia muitos amigos e conhecidos por lá, todos nós em grande animação.
“Arnaldo, sempre à distância, bancava o fotógrafo. De vez em quando fazia sua Rolley-flex funcionar diante dos grupinhos que se formavam. Claro está que reparei nele sem qualquer pretensão. Depois, percebi: mantinha-se à distância por ser tímido. Não gosta de falar disso, mas é socialmente um tímido. Dá aulas, faz conferências, é capaz de falar diante de 50 mil pessoas, mas, socialmente, repito, a timidez o domina.

“Depois de umas tantas fotos, entendi que se fixara em mim. Para onde eu ia com as amigas, todas nós na maior descontração, lá vinha ele com sua câmera. Depois de muito filme gasto, eis que pronunciou a famosa frase:
“– Onde posso entregar as fotos para você?
“Explicou ser amigo da Marli e do Arnaldo Cherzman que, por sinal, também eram meus amigos, iam casar nas próximas semanas (dia 4 de março). Eu disse que iria ao casamento, o fotógrafo também. Marcamos encontro na porta da Sinagoga, ocasião em que me entregaria as fotografias e, então, eu perguntei:
“– Como é mesmo o seu nome?
“– Arnaldo Niskier – disse ele, encabulado!

As fotos ficaram boas. Guardo-as até hoje no meu álbum. Depois de agradecê-las, mais uma vez ele ficou sem saber encompridar conversa. No dia seguinte, pelo que soube, procurou informar-se a respeito do meu pai. Queria saber se era bravo.
Com o Zevi Ghivelder, também da revista Manchete, pegou meu telefone e, então, os telefonemas começaram, estendendo-se pelo menos durante três meses. De março a maio, sistematicamente, todas as noites, a partir das 23 horas ficávamos ao telefone até às 2 da madrugada. Ao telefone até que ele parecia desembaraçado.
“Certo dia, minha mãe perguntou a respeito do rapaz que tanto me telefonava. Disse que era o Arnaldo Niskier e ela, então, sugeriu que perguntasse se ele tinha um irmão ou primo que estudou no Instituto de Educação. Perguntei, a resposta foi ainda mais curiosa: “– Quem estudou lá fui eu mesmo!
“Significa dizer que minha mãe Paulina fora professora de Arnaldo quando ele estava com cinco anos de idade. E lembrava mais: ia para a escola com a irmã Rachel ou o irmão Odilon, que recomendava:
“– Cumprimente a professora!
“E ele, obediente, dizia:
“– Boa tarde, professora!

“Veja você como são as coisas. Anos depois a vida nos uniria. Vou contar uma coisa muito engraçada. Durante o período dos telefonemas ele tinha uma vida complicada: trabalhava pela manhã e dava aulas na UERJ e na Cândido Mendes; terminada a aula, ia treinar no América. Por isso, só retornava a sua casa já bem tarde. Além disso, ainda escrevia artigos para a Última Hora. Meu pai, médico obstetra, às vezes se preocupava com o telefone ocupado tanto tempo. Se algum cliente quisesse falar com ele claro está que não conseguiria.
“Arnaldo falava da vida dele e das coisas todas que aconteciam na Manchete, pois a essa altura também trabalhava em Bloch Editores. Nesse período, as pessoas me chamavam para sair e eu não podia. Estava presa, com Arnaldo em longas conversas, embora jamais se animasse a marcar um encontro. Essa coisa do telefone ocupado pela madrugada adentro marcou-me muito e no dia 31 de maio de 1960, finalmente, ele tomou coragem e perguntou:
“– Você gostaria de sair comigo?
“Então, fomos ver uma peça que estava sendo encenada na Maison de France: Israel 10 anos depois. Tratava-se de um trabalho muito bonito do Marcos Levy. De outra parte, naquela época, o rapaz que fosse à casa da moça para sair com ela já se comprometia. Acontece que ele não quis subir para o apartamento onde eu morava. Pediu que eu descesse, pois preferia esperar embaixo.
Minha mãe resolveu acompanhar a filha. Queria ver se reconhecia seu antigo aluno, embora tenha inventado a história de que necessitava ir à farmácia ou coisa parecida. Reconheceu-o. Já estava bem diferente do garotinho que via todos os dias nas aulas do Instituto de Educação e, com uma agravante: era baixo, embora fosse considerado bom jogador de basquete. Seu amigo mais próximo era o Eliahu Chut, altão. Claro está que durante os jogos, Arnaldo não fazia muitas cestas, mas era ágil e, bom armador, elaborava jogadas para permitir que Chut e outros da altura dele fizessem pontos. Jogou durante bom tempo pelo Macabeus, América e Clube Municipal, onde sua equipe conquistou o título de Campeão Carioca de Basquete, em 1958. Arnaldo era capitão do time. A altura não fez a diferença!”

O casamento e os filhos
Por Arnaldo Niskier

Sob as bençãos do Rabino Rachmil Blumenfeld, no Grande Templo, no dia 3 de maio de 1962, casei com a minha querida Ruth. Chovia muito e todos disseram que era sinal de felicidade futura. Do casamento vieram três filhos adoráveis: Celso (1963), Andréia (1965) e Sandra (1968). Hoje, Celso está casado coma Andrea e fez doutorado informática no imperial college, depois de ter se formado em Engenharia e ter sido aprovado no mestrado da PUC/RJ.

A Andréia e a Sandra fizeram Psicologia na PUC/RJ. A Andreia trabalha comigo em Edições Consultor, e a Sandra, em 1998, tornou-se mestre em Teoria Psicanalítica pela UFRJ (Conceito A). Formamos uma familia muito unida, onde o amor está presente em todos os momentos, inclusive com as seis netas: Giovanna, Dora, Gabriela, Fernanda, Bruna e Paula.

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