Crônicas

  • Nelson Pereira dos Santos
    Arnaldo Niskier - 2018-10-12



    Membro da ABL desde 2006, o cineasta paulista do Brás Nelson Pereira dos Santos sentava ao meu lado, nas sessões plenárias da Casa de Machado de Assis.  Era um convívio extremamente amável e, por isso, inesquecível.

    Seu amigo e admirador, Cacá Diegues afirmou que Nelson inventou um cinema que somente poderia ser feito no Brasil.  Levado a assistir a longa-metragens por  sua mãe, no Cine Teatro Colombo, em São Paulo, acostumou-se com as obras de autores  como Graciliano Ramos(levou à telas obras como “Vidas Secas”(1963) e “Memórias do Cárcere”),  Machado de Assis(“Azylo muito louco”), Jorge Amado(“Tenda dos milagres” e “Jubiabá”), Guimarães Rosa (“A terceira margem do rio”), Nelson Rodrigues (“Boca de ouro”), Gilberto Freyre(“Casa Grande & senzala”) e Castro Alves (“Guerra e liberdade”).  Nelson costumava afirmar que era de uma geração formada por esses e outros escritores do modernismo.

    Vindo para o Rio de janeiro, tornou-se pioneiro do Cinema Novo, com o seu notável “Rio 40 graus”, de 1955.  Foi influenciado pelo neorrealismo italiano, de cineastas como Roberto Rosselini e  Luchino Visconti.  Mesmo tendo feito o curso de Direito na USP (concluiu em 1953) e exercendo atividades de jornalista no “Jornal do Brasil” e na “Manchete”, no Rio de Janeiro, estava predestinado a dedicar a maior parte de sua vida ao cinema.  Produziu “Rio, zona norte”, filmou  documentários 
    sobre a seca do Nordeste e, em termos de contracultura, filmou “Fome de amor”, “Quem é Beta” e a comédia carioca “El justicero”, sem esquecer o clássico histórico “Como era gostoso meu francês”.
     
    Nelson Pereira dos Santos foi fundador do curso de cinema da Universidade de Brasília e lecionou na Universidade da Califórnia e na Universidade de Columbia, em Nova York.  Como se vê, um intelectual de múltiplas qualidades, que o país perde e lamenta profundamente.

    Apesar de ter se dedicado também ao jornalismo, participou de atividades de cineclubes e de teatro amador, além de se envolver com política, tendo se filiado ao Partido Comunista Brasileiro, do qual se desligou em 1956.  Em 1949, viajou a Paris.  Durante dois meses, frequentou a Cinemateca Francesa, de Henri Langlois.  Ao voltar, filmou “Juventude”, média-metragem destinado ao Festival da juventude que ocorreria em Berlim.  Em 1952, foi assistente de Alex Viany em “Agulha do palheiro” e foi acumulando experiências necessárias.
     
    Extremamente criativo, Nelson Pereira dos Santos filmou, em 1976, o seu “Amuleto de  Ogum”, quando analisou as religiões afrobrasileiras e, em 1980, filmou o musical “Estrada da Vida”, baseado na trajetória da dupla Milionário e José Rico.  Ganhou muitos prêmios internacionais e  herdou de Humberto Mauro o título de “pai do cinema brasileiro”, até ter a sua vida interrompida por um câncer fatal.  Deixou a mulher Ivelise, quatro filhos e cinco netos, além de uma saudade infinita.
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