Crônicas

400 anos de fraternidade
Arnaldo Niskier

 

 

Com a destruição do templo de Jerusalém, por parte dos romanos, no ano 70 d.C., os judeus dirigiram-se à península ibérica, no que a história denominou de Diáspora ou dispersão.

De início na Espanha (Sefarad), onde foram bem acolhidos, deixaram fortes marcas culturais da sua passagem, de que talvez tenha sido o maior símbolo o médico e filósofo Maimônides, cujos 613 preceitos são até hoje lembrados, todos lastreados no amor a Deus acima de todas as coisas.

Sabe-se que, no ano de 1492, os reis Fernando e Isabel expulsaram os judeus do seu território, com a violência que caracterizou a Inquisição na Espanha. Acolhidos inicialmente pelo rei português D. Manuel, o Venturoso, os judeus, com os seus conhecimentos científicos e náuticos, foram figuras decisivas nas descobertas marítimas. Pode-se lembrar a importância do astrolábio, invenção de Abrahão Zacuto, na Escola de Sagres, para facilitar essas conquistas.

Com o Tribunal da Inquisição chegando a Portugal, de novo houve perseguições, mortes e conversões forçadas, que deram origem aos cristãos-novos, bastante numerosos, e aos cripto-judeus, que mantiveram a sua devoção de forma oculta.

Quem vai a Toledo ou Córdoba sente as marcas da presença judaica na Espanha. Fomos ao interior de Portugal – e ali a memória está mais presente, em sinagogas e museus que existem até hoje em cidades como Belmonte (Sinagoga Beith Eliahu, doada pela coletividade israelita de Marrocos, especialmente a família Azoulay), Tomar e Castelo de Vide, para só citar essas três. Na primeira das cidades, uma grande descoberta: a mãe de Pedro Álvares Cabral, Gouveia de solteira, era cristã-nova.

Em Tomar, entrevistei a administradora da sinagoga, Teresa Carvalho, que se apresentou com uma luzidia estrela de Davi no peito. Perguntei qual a sua religião. Ela pareceu espantada: “Sou judia!” Completou: “Aliás, a minha mãe também era, e os meus avós.” Quis saber o sobrenome dos ancestrais. Ela foi rápida: “Todos Carvalho e todos nascidos aqui em Tomar. O meu marido é judeu, chama-se Luís Vasco, e tem origem espanhola. Sua família nunca teve outra religião.”

Fiquei fascinado com essas informações, que se repetiram ao longo da viagem. Com uma particularidade que ressaltei na comunicação feita à Academia Brasileira de Letras: “As judiarias e as mourarias existiram em Portugal, lado a lado, durante cerca de 400 anos, e sempre com muita amizade. Tratavam-se como irmãos, que eram mesmo pelas origens comuns: o patriarca Abrahão.”

Há muitas lembranças desse tempo de liberdade religiosa que infelizmente não perdurou para sempre. O que fica em nosso espírito, depois de uma visita dessas, é a tristeza por verificar que essa comunhão entre árabes e judeus foi lamentavelmente interrompida. Quem sabe, pode estar próximo o dia em que será reestabelecida, especialmente no Oriente Médio. A paz beneficiaria todos os povos daquela região.

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