Crônicas

Tem espetáculo no Céu
Arnaldo Niskier

Ao folhear a revista com a programação cultural de um jornal de grande circulação do Rio, vimos uma foto estampada na capa do Museu de Astronomia. Era matéria especial sobre a Semana Nacional dos Museus e destacava os principais espaços da cidade do Rio. Logo nos veio à lembrança o Planetário da Gávea, que agora tem o seu Museu do Universo, que se propõe a ser um museu temático, cuja base conceitual “é a relação do homem com o seu espaço físico, ambiental, cultural e, especialmente, com o universo”, como informa um luxuoso release. 
 
Foi possível relembrar, então, a saga que foi a construção do Planetário da Gávea, no local onde havia uma favela (Parque Proletário da Gávea), em 1969, quando ocupávamos o cargo de Secretário de Ciência e Tecnologia da Guanabara. Recebemos a doação do equipamento por parte do Ministério da Educação, na época avaliado em US$ 253 mil. Todo o equipamento foi montado por quatro peritos, que instalaram o projetor Zeiss-Jena Spacemaster no centro da cúpula. Ao criar o espaço, pretendíamos na verdade estabelecer um campo específico de investigação científica. O projeto dos irmãos Renato e Ricardo Menescal era dotado de uma arquitetura que consagrava a leveza e a graça.
 
Buscamos nos arquivos e encontramos a edição especial da revista Epopéia, que o amigo Adolfo Aizen, da Editora Brasil-América, lançou, para celebrar o empreendimento, com o sugestivo título: “Tem espetáculo no céu”. Folheando a publicação, recordamos os belíssimos desenhos de Eugenio Colonnese e o texto inspirado de Pedro Anísio. Emocionante reler a corujinha anunciando na primeira página da revista: “Hoje tem espetáculo! Não percam! No Teatro do Céu, os maiores artistas do Universo!”.
 
Apesar das dificuldades de assumir uma Secretaria pioneira, os resultados mostraram que foi uma iniciativa vitoriosa, com atrações e projetos que marcaram a administração do Governo Negrão de Lima. Em 1969 e 1970, por exemplo, criamos a Mostra Internacional do Filme Científico, cuja segunda edição, no Museu de Arte Moderna, apresentou 64 filmes e teve como um dos coordenadores o cineasta Nelson Pereira dos Santos, que hoje também pertence à Academia Brasileira de Letras. 
 
Voltando à revista, para nossa decepção, lá estavam retratados diversos museus, como o Museu da Imagem e do Som, Museu Histórico Nacional, Museu Nacional de Belas Artes, Museu da República e Museu Carmem Miranda, e outros mais recentes, como o Museu da Maré, que procura manter viva a memória da comunidade através da celebração de histórias (um belíssimo exemplo de manifestação cultural espontânea que deveria ser seguido). Mas não havia uma linha sequer sobre o Planetário e o seu museu.
 
Ficamos com o gosto amargo de saber que o Planetário da Gávea merecia um maior reconhecimento. Não sabemos onde houve ruído na comunicação: se no jornalista, que não apurou, ou na administração do espaço, que não disponibilizou as informações para a imprensa. É uma boa opção cultural que não deveria ser esquecida. Quem perde com isso é o povo carioca.
 
 
 
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