Crônicas

O quase fim da UERJ
Arnaldo Niskier



Encontro um amigo e ele me cobra: “Você não se envergonha com a crise da UERJ?” É claro que depois de lecionar 37 anos na  Universidade do Estado do Rio de Janeiro, instituição a que dei o melhor dos meus esforços quando e após a sua criação, tenho que estar preocupado com o seu destino.  Até porque, como aposentado, não  recebo regularmente os meus vencimentos – e isso me é profundamente prejudicial.
 
Hoje, a UERJ tem mais de 3 mil professores. Ela não é só isso. Tem os alunos e professores do Colégio de Aplicação Fernando da Silveira, de que me orgulho de ser um dos fundadores, além de contar com mais de 30 mil alunos, compondo uma das principais instituições universitárias do país.  E tem mais: seus mais de três mil projetos de pesquisa estão hoje completamente paralisados, sem recursos para nada. Uma vergonha, que deixa muito mal o atual governo  do  Rio de Janeiro.
 
Se o que lhes disse é pouco, podemos alcançar a área biomédica. O Hospital Pedro Ernesto, que já foi uma boa referência em matéria universitária, trabalha com 92 leitos, quando na verdade  foi construído para ter 600. É fácil supor a vergonha com que os profissionais da UERJ, de  todas as áreas, se sentem humilhados com esse estado de pobreza e quase abandono, que teve origem no Governo 
Sérgio  Cabral, já batizado como verdadeira calamidade.
 
Em tempos normais, a UERJ abriga pouco mais de 32 mil alunos. É verdade que a excessiva politização a que se entregou tem muito a ver com  esses resultados, mas não se pode desejar o fim de uma instituição promissora e que abriga fundamentalmente a classe média carioca.  Tem que haver uma solução para a  UERJ, seus professores devem receber os seus salários, inclusive os aposentados que deram a vida a ela. É preciso que o governo  federal, mesmo respeitada a autonomia universitária, encontre meios e modos, quem sabe via MEC, de oxigenar a instituição.  Acompanhar o seu triste fim, sem uma ação concreta, é o pior dos resultados, na  verdade rejeitado pelos meios universitários e até pela  sociedade fluminense.
 
A UERJ  tem cursos superiores de notável qualidade, como são os de Direito (a famosa Faculdade de Direito do Catete), de Ciências Médicas e de Educação (nota máxima do MEC).  Como desperdiçar esse patrimônio cultural é algo que não se compreende.  Além disso, há uma tradição de grandes mestres que passaram pela instituição,  presidida por homens como Haroldo Lisboa da Cunha, João Lyra Filho, Ney Cidade Palmeiro e Caio Tácito.  É preciso respeitar a sua memória.

No momento em que se fala na ampliação das oportunidades de acesso ao ensino superior, conviver com esse tipo de crise parece um verdadeiro contra-senso e um desrespeito a um importante segmento da nossa população (classe média).  Há um silêncio injustificável cercando o fato, como se fosse natural tratar dessa forma o quase fim de uma respeitável Universidade, que, entre outras coisas, tem a melhor escola  básica do Rio de Janeiro, que é o seu tradicional colégio de aplicação, que tem servido de modelo para outras instituições do gênero.
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