Crônicas

Os primeiros cursos Superiores
Arnaldo Niskier

 

Ao chegar ao Brasil, contemplando o por-do-sol tropical, com Marte e Mercúrio visíveis no céu vespertino, D. João encontrou problemas cruciais. Um deles, que o emocionou mais, o absoluto atraso em matéria de educação. Havia muitos analfabetos, sobretudo entre os escravos, e nenhuma escola de nível superior. Se algum jovem abonado quisesse adquirir conhecimentos profissionais mais elevados, o destino seria a Universidade de Coimbra, onde se formaram 527 brasileiros entre 1772 e 1800.
 
O ensino fundamental era dado por ordens religiosas aqui instaladas, como os beneditinos, os franciscanos e os carmelitas (depois da expulsão da Companhia de Jesus, por decisão do Marquês de Pombal), reforçados por professores leigos que eram pagos pela coroa portuguesa.
O primeiro passo para mudar esse quadro foi dado por D. João, que, em 1808, criou as escolas de Medicina em Salvador e no Rio de Janeiro.
 
Apaixonado por música sacra, trouxe ao Brasil um famoso grupo de cantores líricos italianos. Foi construído o Teatro São João, com mais de mil lugares, para receber esses eventos. A ele se deve também a vinda da Missão Artística Francesa, em 1816, com duas figuras de destaque: Debret, pintor da corte, e o arquiteto Grandjean de Montigny, que projetou a Academia de Belas Artes e foi o introdutor do neoclassicismo na cultura brasileira.
 
A cidade do Rio de Janeiro tornou-se a mais populosa e rica do Brasil, só perdendo no Reino para Lisboa. Foram abertas ruas, igrejas, armazéns, fábricas, etc. Valorizou-se a produção agroindustrial (açúcar, cachaça, farinha, café, arroz), além da extração aurífera e de pedras preciosas. Sem falar no nefando comércio negreiro. Explosivos trazidos da Europa colocaram abaixo morros e rochedos, facilitando a circulação do ar e da água, para benefício dos 60 mil moradores da cidade, dos quais 20 mil eram escravos.
 
Deve-se ainda a D. João a manutenção das enormes fronteiras do país, impedindo que ele fosse repartido em três ou quatro nações, como ocorreu com os nossos vizinhos hispânicos. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, da Academia Brasileira de Letras, “se o príncipe regente tivesse decidido ficar em Portugal, o Brasil, como hoje o conhecemos, certamente não existiria, pois a colônia se fragmentaria, como aconteceu com a América ibérica.”
 
É claro que há opiniões divergentes, como a do escritor pernambucano Evaldo Cabral de Mello, para quem  “o Rio de Janeiro se transformou numa cidade portuguesa, enquanto uma corte parasitária explorou de forma desavergonhada as províncias.” A Independência do Brasil teria sido “um projeto da burocracia da corte e das elites econômicas do centro-sul.”
 
Preferimos ficar com o pensamento do estudioso paulista Antônio Penteado Mendonça, da Academia Paulista de Letras: “Longe de ser um gênio, D. João VI foi um hábil sobrevivente, que desde pequeno se habituou à adversidade e a transitar por ela da forma menos dolorida para si e o seu povo.” Não fora assim, João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís Antônio Domingos Rafael de Bragança, dom João VI, não teria morrido aos 59 anos de idade, em Portugal, em paz com a sua consciência.
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