Crônicas

Crise de inteligência
Arnaldo Niskier

 

Há momentos em que é preferível calar diante de certos fatos políticos. Já se disse que há elegância no silêncio. Por questões de temperamento, no entanto, é preferível tornar público o que pensamos, sobretudo quando se exerce com muita honra uma função jornalística. Nesses casos, a amizade não pode servir de obstáculo. Razão e coração nem sempre são bons companheiros.
No Rio de Janeiro, com tantos problemas, vivemos uma fase de perplexidades. Temos imensos e visíveis problemas sociais, mas verbas federais são devolvidas por falta de bons projetos. No ranking dos estados que perderam recursos preciosos, em 2008, figuramos um lamentável 24o lugar, em assistência social.
 
Sofremos problemas com os nossos aeroportos, depois de milhões de reais investidos. Foi dinheiro público. Quer-se privatizar o Galeão, sem dar ao simpático Santos Dumont, com a sua extraordinária localização, a chance de servir mais adequadamente aos cariocas, com o restabelecimento de voos para as capitais, como seria natural que ocorresse. Nesse caso, a Anac está com a razão.
 
Para não ir longe demais, citamos o que se passa com a área remanescente da construção do bem sucedido Shopping Leblon. Com a autoridade de quem cuidou do assunto, durante quase três anos, ao exercer a Secretaria Estadual de Cultura, podemos afirmar que, dentro da mais absoluta legalidade, previmos a existência de um grande centro cultural naquele terreno do Estado, como contrapartida à cessão de parte da área para o empreendimento comercial.
Não foi uma discussão fácil. Houve conflitos de interesses e, num dado momento, chegamos a embargar a obra, por intermédio de uma ação do Inepac (Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural), como pode testemunhar o especialista Marcos Monteiro, um grande defensor do interesse público.
 
Separados os espaços destinados à cultura, nomeamos Ciro Pereira para gerenciar a execução das obras. A empreiteira fez a sua parte, o Estado ficou nos projetos, um dos quais, de nossa particular simpatia, seria a montagem de um bem equipado “Ateliê das Crianças”, no primeiro andar, repetindo o que faz grande sucesso no Centro Georges Pompidou, de Paris. Meninos e meninas de três a sete anos brincando e se instruindo, inclusive por intermédio da mídia eletrônica, numa espécie de iniciação cultural, orientada por animadores concursados.
 
Havia também a previsão de um Clube de Cinema, com três salas, além de dois teatros de 150 a 200 lugares, para peças experimentais, complementando o que se faz no Teatro Casa Grande, onde hoje brilha a montagem de “A Noviça Rebelde”. Inclusive essas salas, administradas pela Secretaria Estadual de Cultura, conforme nosso projeto, poderiam abrigar ensaios e leituras de peças, espaços de que carece a Zona Sul do Rio de Janeiro.
 
O argumento financeiro, diante disso tudo, numa cidade que se orgulha de ser a capital cultural do país, é quase uma agressão à nossa inteligência. A Prefeitura gastou 600 milhões para fazer a Cidade da Música e o Governo do Estado abre mão da joia da coroa, num bairro predestinado a esses projetos, pela bagatela de 70 milhões. Não é uma contradição? Voltaremos ao assunto.
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