Crônicas

O Mundo é de todos
Arnaldo Niskier

Adriana Macedo de Faria Silvestre, hoje aos 41 anos de idade, realiza plenamente as suas tarefas de educadora. Formada em Pedagogia, aos 28 anos sofreu o impacto de perder a visão, devido ao diabetes, mas jamais perdeu o entusiasmo pela vida e o interesse pela educação. É um extraordinário exemplo de determinação e força de vontade.
Começou a sua atividade profissional com um trabalho específico, só com deficientes visuais, ensinando o braille, orientação e mobilidade, para que os seus alunos tivessem autonomia. Atualmente, trabalha no Núcleo de Apoio Pedagógico Especializado (NAPES), tendo por base a proposta inclusiva.
 
No Núcleo estão os alunos com alguma deficiência, uma necessidade educacional especial, com acompanhamento nas escolas da rede estadual do Rio de Janeiro, incluindo-se a capacitação de professores e o apoio a esses alunos nas duas horas do chamado contraturno. Há salas de recursos, onde cada aluno com sua necessidade específica recebe o apoio indispensável para que possa se desenvolver, na escola, como os outros alunos. São atendidas todas as deficiências: cegueira, baixa visão, deficiência intelectual, transtorno global do desenvolvimento, surdez etc.
 
Ali se apreende que o braille é um código (na verdade 64 códigos) e a Libras, que lida com o surdo, é uma língua com todas as suas especificidades. O jovem surdo toma conhecimento da linguagem brasileira de sinais e a língua portuguesa ao mesmo tempo, vencendo as suas dificuldades.
 
Adriana esclarece que há vários computadores com sintetizador de voz, com programas diversificados, inclusive um que foi criado na UFRJ. Assim, é possível utilizar a internet, como fazem os alunos videntes, com acesso também a bibliotecas específicas para deficientes visuais, permitindo a sua adequada interatividade, garantindo a autonomia do deficiente visual. É a maneira de assegurar o uso pleno da educação inclusiva, que se faz na escola.
 
Se o deficiente convive com os outros alunos, ele deixa de se sentir “diferente”. As crianças não têm esses preconceitos, afirmou-nos a educadora, que é filha de professores: Roberto, de matemática e Lia Faria, que foi Secretária de Estado de Educação e hoje dirige a Faculdade de Educação da UERJ. Ela explica o que é Soroban, uma adaptação do ábaco para o aluno cego na matemática. Acontece que esses estudos acabam sendo úteis para todos os alunos da sala. “Meu pai, como bom professor de matemática, costuma dizer que não há espaços vazios.” Os alunos deficientes podem ser tão competentes quanto os outros. O mundo é de todos.
 
Adriana conta: “Incluímos um menino cego que, na alfabetização, fez a cartinha dele em braille e foi o orador da turma. Isso significa que ele era tão capaz quanto os outros.” Com ela abordei a questão dos livros gravados, elaborados pela Academia Brasileira de Letras, que passaram a se constituir num facilitador da aprendizagem, como são os CDs e os DVDs. Adriana concluiu: “Foi assim que pude conhecer a história da Helen Keller, que ficou cega e surda aos dois anos de idade. Depois, a história de Anne Sullivan. Acredito muito na inclusão e em todas as suas virtualidades.”
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