Crônicas

A Magia da Oralidade
Arnaldo Niskier

 

Diz-se que oral  é  tudo aquilo que não é ou não está escrito.  Portanto, oralidade, expressão tão em voga na literatura infantil, é a exposição oral ou o uso falado de uma língua.  É certo que ela precede, nas civilizações mais antigas, à existência de caracteres ou símbolos escritos, que vieram muito depois.
 
Pode-se dar como exemplo a civilização hebraica, originária do povo judeu, que comemora mais de 5.700 anos de existência.  A tradição oral, passada de geração em geração, incutiu valores que depois vieram a constituir a Torá, onde se encontra toda a doutrina judaica, admirada e respeitada por seus mais de 15 milhões de seguidores.
 
No Brasil, é possível que a poesia popular, carregada de verbalismo, tenha sido pioneira nessa forma de comunicação, que conta com exemplos marcantes na música.  O nosso folclore é muito rico e muitas vezes remonta  a tempos imemorais.  Quando surgiu e de quem é a autoria, por exemplo, do famoso “atirei  o pau no gato”?  E a “ciranda, cirandinha”?  Quem é  o  pioneiro do “bumba-meu-boi”?
 
Quero me fixar na tradição oral – e no seu valor – para transmitir a experiência vivida no Japão, particularmente na sua educação.  Em três viagens,todas de estudo, voltei impressionado com o fato de que os pais orientais, sem exceção, cobrem os filhos de cuidados especiais, na hora de ir para a cama.  Nenhuma criança japonesa deixa de ter a companhia da mãe ou do pai, antes de pegar no sono, com a leitura obrigatória ou a narração de uma história.  Aqui se conjugam os dois elementos, escrita e oralidade, para incutir no espírito das crianças o gosto pela leitura, muito mais do que o hábito, que seria uma imposição indesejável.
 
 No Brasil, felizmente, temos o registro do crescimento nas escolas do número de animadores culturais, competentes contadores de histórias.  Se fosse possível conjugar o fenômeno com o interesse maior dos pais (muitas vezes omissos na educação dos filhos), estaríamos  vivendo tempos melhores.  Temos uma riquíssima bibliografia infantil e muitas pérolas colhidas em nosso folclore poderiam servir à experiência de formar as crianças com a consciência do valor da leitura.
 
 De minha parte, como escritor e educador, tenho feito o que é possível. Já escrevi 40 livros  infantojuvenis e encenei cinco peças de minha autoria, além de outra de Rachel de Queiroz (“O menino mágico”).  Comecei a escrever para crianças em 1986, com a sátira política “A Constituinte  da nova floresta”.  Virou peça infantil, com 23 personagens, no Teatro Vanucci, ficando nove meses em cartaz.  Foi uma curtição ser parceiro de consagrada Bia Bedran em algumas das músicas do espetáculo.  Crianças adoram musicais.  Depois vieram “O boto e o raio de sol”, “O saruê astronauta”, “A misteriosa volta dos dinossauros” (com bonecos) e “O dia em que o mico-leão chorou”, livros e peças infantis, esta última com a participação gloriosa do ator Grande Otelo, no papel-título.  Era o Pajé Túlio.  Aos 73 anos de idade, dava cambalhotas no palco do Teatro Benjamin Constant, no Rio, como se fosse um garoto de 16 anos.  Espetáculo verdadeiramente inesquecível, valorizado pelas músicas do compositor Tom da Bahia.
 
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