Crônicas

A atualidade dos sermões
Arnaldo Niskier

 

Estamos comemorando os 400 anos de nascimento do padre Antônio Vieira, figura emblemática da cultura luso-brasileira.  Entre suas obras há um destaque especial para os Sermões, numerosos, que fizeram sucesso nas prédicas realizadas aqui e no exterior.  Integram a  personalidade  corajosa do grande religioso, filósofo, político e orador, além de primoroso latinista.
 
 Sem hierarquizar, mas confiados na extrema atualidade dos conteúdos, queremos lembrar algumas dessas obras-primas da nossa literatura, como é o caso do Sermão sobre a mentira, uma sátira mordaz contra os nossos maiores, na afirmação de João Francisco Lisboa, increpando de mentirosos e maldizentes os procuradores do Estado que voltavam a Lisboa com novas leis contrárias à liberdade dos índios.  Recitou sobre a verdade e a mentira um longo discurso, demonstrando que “duas cousas não podem andar juntas: a verdade e a mentira.  E porque não podem andar juntas, por isso as  temos divididas:  a verdade no pregador, a mentira nos  ouvintes”.
 
Fixou-se no M de Maranhão, M de murmurar, M de motejar, M de maldizer, M de malsinar, M de mexericar e  sobretudo M de mentir; mentir com as palavras, mentir com as obras, mentir com os pensamentos.  Que de todos e por todos os modos se mentia.  “No Maranhão até o sol era mentiroso, porque, amanhecendo muito claro e prometendo um formoso dia, de repente e dentro de uma hora o céu se toldava de nuvens, e começava a chover como no mais entranhado inverno.  E daí já não era para admirar que mentissem os habitantes como o céu que sobre eles influía”.
Contra os poderosos da terra, seus  adversários, Vieira lançou o Sermão  pregado aos peixes.
 
 Exclamava em tom de ameaça:  “Eis aqui, peixinhos ignorantes e miseráveis, quão errado e enganoso é este modo de vida que escolhestes... Os que muito falam, blasonam e roncam denotam fraqueza... Assim, o melhor conselho é calar.”
 
 Vieram os Sermões do Espírito Santo e da Epifania, ao lado de um grande número de  Cartas enviadas com riqueza de detalhes a El-Rei.  O primeiro dos  Sermões citados foi pregado em São Luís, na igreja da Companhia de Jesus, por ocasião da partida de missão ao Amazonas.  Teve que lidar com índios naturais que não sabiam ler nem escrever, mas falavam o que o religioso chamava de línguas brutas, como o nheengaíba, o junina, o tapajó, o teremembê e o mamaianá.  Só os nomes já lhe causavam horror.
 
 No Sermão da Epifania, pregado em Lisboa, no dia 6 de janeiro de 1662, depois de ter sido expulso do Maranhão, Vieira assinalou que era preciso trabalhar  com os dedos, escrevendo, apontando e interpretando por acenos o que não era possível alcançar por palavras.  “São acentos duros e estranhos.”
                                                 
Ardoroso defensor da justiça, embora tenha  advogado a  escravidão dos africanos, Vieira  foi  ainda  autor do Sermão da Sexagésima, de  1655, quando defendeu a idéia de que “pregar é como  semear”.  Combateu os excessos  cometidos pela Inquisição, o que lhe valeu uma prisão de mais de dois anos. 
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