Crônicas

A importância da Continuidade
Arnaldo Niskier

O primeiro governador do Rio de Janeiro, depois da fusão da Guanabara com o antigo Estado do Rio, foi o Almirante Faria Lima. Ele fez uma feliz escolha, ao entregar a Secretaria à professora Myrthes De Luca Wenzel, de assinalados serviços prestados ao setor, especialmente como diretora do Centro Educacional de Niterói. Ficou quatro anos na direção da SEEC, a ela se devendo iniciativas como o 
Laboratório de Currículos e o Centro de Tecnologias Educacionais.
 
Em 1979 o comando do Rio de Janeiro passou para o Governador Chagas Freitas. Ao ser nomeado para o lugar de Myrthes Wenzel, dele recebi a recomendação: “Não saia mudando tudo. O que estiver bem, mantenha.” Sabendo isso, dona Myrthes, na sede da Manchete, me disse no ouvido: “Graças a Deus é você o meu substituto.” Foi o que fiz, nos quatro anos seguintes. Dei força ao Laboratório de 
Currículos, entregue à competência de Fátima Cunha Ferreira Pinto, e prestigiei ao máximo o CTE, que passou a ser dirigido por Maria Eugênia Stein. Não mexi nas respectivas estruturas, mas dei um toque pessoal aos seus trabalhos, como a elaboração dos Cadernos Pedagógicos e a produção de 66 filmes didáticos, distribuídos às escolas públicas. A continuidade permitiu isso.

Mais recentemente, tivemos o exemplo de Wilson Risolia. Mesmo não sendo um educador de ofício (é economista), ficou quatro anos e dois meses no comando do sistema público de ensino do Rio de Janeiro. Nesse período, verdadeiramente inusitado (a média tem sido de um Secretário por ano), conseguiu melhorar a posição do Rio de Janeiro nos exames oficiais, saindo lá de baixo para o meio da tabela, na educação básica. Em entrevista ao jornal O Globo, Risolia atribuiu o sucesso da sua tarefa ao apoio de diretores e professores, aos quais conquistou no seu período de direção: “Se tivesse havido solução de continuidade, como é hábito, nada disso teria sido alcançado.”

O exemplo vale para todos os Estados e até para o governo federal. Ao sabor de discutíveis conveniências políticas, mexe-se em tudo, começando do zero cada mandato. Não há inteligência nesse processo.
 
Para resolver (ou atenuar) os graves problemas da educação é preciso implantar políticas de longo prazo. Veja-se o caso do magistério. Se nem o mínimo estabelecido em lei é respeitado em boa parcela dos Estados e municípios, mesmo com a proclamada injeção de recursos provenientes da exploração do pré-sal (já são 700 mil barris diários), as possiblidades de progresso, no futuro, são precárias.
 
As regiões em que a educação é tratada como prioridade, obviamente, são as que demonstram uma boa capacidade de reação e apresentam performances destacadas nos exames oficiais. Não pode ser outra a razão pela qual Minas Gerais e o Ceará têm se mostrado mais competentes, na oferta de serviços pedagógicos aos seus alunos. Há incentivos ao professorado e a ampliação do tempo de aulas, na direção da sonhada integralidade.
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