Crônicas

Rock Astronômico
Arnaldo Niskier

Não se pode condenar o gosto alheio, em matéria de música.  Se há um grande número de jovens apreciadores do rock, em nosso país, isso é consequência da farta divulgação desse ritmo em mídias como o cinema, o rádio e a televisão, que, depois da II Guerra Mundial, explodiram em todas as partes.
 
Em consequência, não é de estranhar o sucesso da promoção intitulada Rock in Rio.  O seu faturamento é fabuloso, com um ingresso custando a bagatela de 350 reais por dia de admissão. Quando foi iniciada a pré-venda, em menos de duas horas 100 mil ingressos foram negociados, numa velocidade espantosa.
 
O que não  dá para entender é a necessidade de os seus promotores recorrerem às burras do Ministério da Cultura, para reforçar o caixa.  Para isso, a controvertida Lei Rouanet é utilizada, de forma estranha, quando se pensa que esse estímulo melhor seria se fosse reservado para projetos de atividades básicas ou incentivo a escolas especializadas.
 
A propósito, sabemos que a Escola de Teatro Martins Pena, no centro do Rio de Janeiro, uma das mais tradicionais da cultura fluminense, está vivendo inteiramente à míngua, com péssimas instalações e a ausência de professores qualificados.  Quando se toca no assunto, nos meios oficiais, o choro é sempre o mesmo:  não temos recursos financeiros, o orçamento da cultura é ínfimo, estamos pela hora da morte.
 
Dá para entender a diferença de tratamento, no mesmo estado, quando se  trata de cultura? Para uns tudo, até mais do que o necessário, para outros a miséria como companhia.  É essa a política cultural existente no estado e no país? Se o exemplo não é suficientemente forte, podemos  recorrer ao estágio dos nossos museus e até de alguns teatros, com instalações pra lá de precárias.  Não se tem a esperança de solução à vista.
 
A cada momento se ouve falar nas mudanças da Lei Rouanet.  Nunca de forma objetiva.  Os interesses são poderosos.  Tem gente ganhando dinheiro como nunca, não apenas nas bilheterias, mas também via recursos oficiais, desviados do que poderia ser uma nobre função.
 
O curioso nessa história toda é que não há o  mínimo respeito aos meios oficiais.  Quando a organização do Rock in Rio solicita o apoio da Lei Rouanet, a primeira coisa que se obriga é proclamar o preço do ingresso.  A informação ao Ministério da Cultura foi de que seria de 260 reais o ingresso/dia.  Pouco depois, sem pedir licença, o valor subiu para 320 reais.  Foi o preço cobrado, sem aguardar a autorização de quem de direito.  Alguém protestou? Que nada, fica tudo por isso mesmo, como se estivéssemos trabalhando na casa da mãe Joana.  Sinceramente, gostaríamos que houvesse mais respeito aos direitos dos nossos cidadãos, mesmo que se tratasse de um simples espetáculo de rock.
 
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