Crônicas

Um buraco na parede
Arnaldo Niskier

 

Conta-me a professora Sueli Maia, de Santos (SP), um fato ocorrido na Índia e que mostra como podem ser alteradas, para melhor, as relações entre uma fábrica e o seu entorno. Cercada por uma enorme favela, produto das conhecidas contradições indianas, a fábrica sofria permanente processo de depredação. Os seus dirigentes, numa primeira reação, construíram muros altíssimos, mas a violência não foi interrompida.
 
Foi quando, segundo relatou o cientista Sugata Mitra, pensou-se no projeto “Um buraco na parede”: os muros foram equipados com computadores de última geração, em aberturas à altura dos olhos humanos, para oferecer programação de nível aos filhos dos favelados. Eles foram se chegando aos poucos, tornaram-se dezenas, e as relações com a comunidade acabaram se normalizando. Houve respeito de parte a parte, com um enorme ganho em matéria de educação.
 
Vale a pena acrescentar a esse fato a circunstância de que a Índia é uma das três maiores produtoras mundiais de softwares educativos, de grande valor no mercado internacional. Não seria difícil despertar o interesse dos seus filhos. É o que nos angustia, quando sabemos que o Brasil ganhou o seu sistema de TV Digital, mas não se ouve falar de maiores preocupações com a programação dos canais abertos, que contam com os recursos tecnológicos de alta definição e de interatividade. Será que os atuais filmes de violência importada vão prevalecer?
Participamos, em Santos, da sua VI Feira Nacional do Livro, abrangendo as cidades da Baixada Santista. 
 
Visitamos as empresas expositoras, os eventos do Café Cultural e os shows do Espaço Cultural. Assim foi possível verificar a vibração dos jovens com o robô totalmente construído por  alunos de engenharia da Universidade Santa Cecília e tomar conhecimento de outras atrações que comoveram mais de 70 mil pessoas. Em conversa com a professora Maria Julieta Farah Lanças, de Bertioga, ouvimos o relato do que na cidade se faz pela preservação da cultura guarani. Há  46 alunos do ensino fundamental, todos daquela tradicional tribo, que fornece os professores. Aulas são dadas em português e guarani, sendo notável a atração dos alunos pelos recursos modernos da internet. Um admirável conjunto de ações, sem dúvida alguma.
 
Na hora do debate, a questão mais candente referiu-se à educação à distância. Enquanto muitos acreditam no potencial da modalidade, outros manifestaram descrença em virtude do baixo nível de alguns cursos. Todos concordaram que o MEC precisa efetuar uma fiscalização mais cuidadosa nos cursos oferecidos, que são abundantes na Baixada Santista. O Brasil já tem mais de 1,5 milhão de estudantes de EAD, não sendo justo nem razoável que se perca esse potencial pela irresponsabilidade e ganância de uns poucos aventureiros.
 
Os salários dos professores e as perspectivas do ensino técnico também foram objeto de considerações. Elas ainda abrangeram aspectos da literatura infanto-juvenil e a necessidade de barateamento dos livros, de modo geral, para torná-los acessíveis à população.
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