Crônicas

Ser Mãe é padecer num paraíso
Arnaldo Niskier

Ao falar sobre Laudelino Freire, na Academia Brasileira de Letras, o poeta Lêdo Ivo comentou sobre a obrigação da Casa de Machado de Assis de desenterrar e reviver, por um instante que seja, os antecessores sepultados, e fazer lembrar o que está esquecido: “Cumprimos, assim, um dos nossos deveres: a evocação.”
 
Nesse caso se inclui a figura de Coelho Neto, um dos pioneiros do parnasianismo brasileiro, ao lado de figuras notáveis da nossa história literária, como Machado de Assis, Rui Barbosa, Euclides da Cunha, João Ribeiro, Afrânio Peixoto, entre outros. Com o advento do Modernismo, não se interrompeu o processo que Lêdo Ivo chama de “relusitanização da língua portuguesa”.
Por isso, não escondeu a sua estranheza com o aparente abandono, num certo período, da obra de Coelho Neto, um dos mestres de Guimarães Rosa, a quem ofereceu um “exuberante banquete vocabular”.
 
Quando assumiu o lugar de Coelho Neto, na Academia Brasileira de Letras, João Neves da Fontoura produziu uma das grandes peças literárias mais completas já vistas naquela Casa. E fez justiça ao seu antecessor, para ele uma das figuras da nossa literatura. Vindo do tumulto da vida pública, não lhe passou despercebido que a obra de Coelho Neto apresentava, como certas medalhas preciosas, duas faces de cunho raro. “Numa vereis – dizia ele – se a contemplares com olhos profundos, a imagem do seu tempo – boêmio, faminto, pobre, heroico, idealista – tombando, erguendo-se, subindo, descendo, para remontar afinal. Nela divisareis meio século de vida brasileira, dos últimos clamores da Abolição às primeiras luzes da segunda República.”
 
O novo acadêmico, então, resolveu ressaltar o percurso nem sempre reconhecido de Coelho Neto: “Aqui está o romance, invasor de almas e paisagens. Ali o conto, resumindo num relâmpago as paixões esquilianas, nas misérias burguesas, as tragédias sertanejas, as malícias fesceninas. Ao fundo, a rampa ilumina as personagens dos seus dramas e das suas comédias – condessas e pajens, pastores e feiticeiras, bobos e alquimistas, o ritmo da poesia no da música, amores infelizes, quebranto de venenos sutis, bonanças passageiras, nuvens que cobrem venturas domésticas, sátiras e charges, sonhos e pesadelo.”
 
Os aficionados de Coelho Neto, aí incluída a sua família, certamente ficaram envaidecidos com a justa homenagem, em que se afirma que “o verso da medalha ostenta, pois, o livro, a máscara, o jornal, a cátedra e a tribuna.”
 
Para fechar com o admirável e sempre repetido soneto sobre o amor materno: “Ser mãe é desdobrar fibra por fibra/ O coração; ser mãe é ter no alheio/ Lábio que suga o pedestal do seio/ Onde a vida, o amor, cantando, vibra.” E mais adiante: “Ser mãe é andar chorando num sorriso/ Ser mãe é ter um mundo e não ter nada/ Ser mãe é padecer num paraíso.”
 
Coelho Neto, afinal, um mameluco, considerava que na sua fantasia habitava a alma dos negros, dos caboclos e dos brancos. Ele próprio foi o resultado de uma bela e bem sucedida miscigenação.
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