Crônicas

Astronomia para todos
Arnaldo Niskier

 

Em noite enluarada, no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, a direção do Planetário, representada por Carmen Ibarra, realizou o lançamento do livro “Memória do Planetário do Rio”, com o subtítulo “astronomia para todos”. Trata-se de uma bem cuidada edição colorida, capa dura, com um atraente elenco de textos, como “a invenção do planetário”, “o céu como é visto da Terra”, “memória do planetário”, “o centro de ciências”, “o novo sistema solar”, além de um elaborado Mapa da Via Láctea, com nomes que soam agradavelmente aos nossos ouvidos como Órion, Plêiades, Andrômeda, Vega, etc.
 
Na ocasião, de forma emocionada, recordou-se a epopéia da escolha do local e da construção do planetário, presentes o arquiteto Renato Menescal (autor do projeto, com o irmão Ricardo) e o engenheiro Paulo Bancovsky, que dirigiu as obras. Havia diversas alternativas de localização: Lagoa, com um lindíssimo espelho d’água; Morro do Pasmado, com a vista mais bonita do Rio; Aterro do Flamengo, no local da Marina da Glória e até a Quinta da Boa Vista. Depois de muitos estudos e algumas decepções, o governador Negrão de Lima concordou com o então Secretário Estadual de Ciência e Tecnologia. Autorizou a construção no local onde se situava o Parque Proletário da Gávea. Removidos 1.080 barracos daquela imensa favela, foram os seus moradores abrigados no Conjunto Habitacional de Bonsucesso.
 
No simpático lançamento do livro “Memória do Planetário do Rio”, nas instalações ampliadas e moderníssimas da Gávea (trabalho elogiável do prefeito César Maia), recordamos passagens curiosas dos primeiros tempos daquele espaço cultural. Obtivemos o equipamento Zeiss-Jena, que projeta 5 mil estrelas, graças a um artifício: soubemos que o então ministro da Educação gostaria de doar dois planetários ao seu estado natal (Rio Grande do Sul) e armamos um escarcéu, para que um deles fosse desembarcado no Rio. Foi o que aconteceu, graças a um decreto presidencial, determinando a providência. O navio que trazia os equipamentos encontrava-se em alto-mar, depois de deixar o porto de Hamburgo, e seu comandante recebeu, via rádio, a mensagem para mexer nos porões e deixar a carga preciosa no porto do Rio (valor: 250 mil dólares).
 
De posse da preciosidade, não restou ao governador Negrão de Lima, belíssima figura de homem público, outra alternativa se não arranjar os dois  milhões para a construção. Como não queríamos gerir a verba, sugeriu-se repassá-la à Sursan, o que foi feito, tornando possível a inauguração do prédio no dia 19 de novembro de 1970, data escolhida pelo novo ministro da Educação, Jarbas Passarinho, para coincidir com o aniversário do seu filho mais velho. Quando o ministro visitou a cúpula, viveu forte emoção. O programa colocou no céu artificial a noite em que ele nascera, na cidade de Xapuri (Acre), com tudo a que tinha direito. Ele apertou o meu braço e cochichou no ouvido: “Assim você me mata!” São fatos que fazem parte da história desse importante espaço cultural.
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