Crônicas

Mestres na arte de escrever
Arnaldo Niskier

 

Podem chamar o fenômeno de precocidade, mas o fato é que os jovens alunos da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro deram um verdadeiro show de competência, na arte de escrever, ao participar da Maratona Escolar Euclides da Cunha. Os cinco vencedores foram mestres, escolhidos por um júri da Academia Brasileira de Letras e consagrados em cerimônia presidida pela Secretária Cláudia Costin, no Teatro R. Magalhães Jr.
 
Vejam a descrição da aluna Vanessa de Oliveira, aluna da 8a série da Escola Municipal Barão da Taquara: “Ao chegar lá, percebi que a minha ideia estava completamente errada. Em vez de rebeldes, homens fortes e armados, eu vi crianças, mulheres, idosos e pessoas doentes querendo viver em paz.” Ela se colocou no papel de Euclides da Cunha e assim explicou a transmutação ocorrida no Arraial de Canudos, onde se passa a cena do primoso “Os Sertões”.
Outra redação classificada foi a da aluna Larissa Oliveira de Souza, da 9a série do CIEP Carlos Drummond de Andrade: “Sobre o homem, Euclides o descreve como sertanejo forte e corajoso, que não teve medo de deixar sua casa no sertão para seguir Antonio Conselheiro e guerrear em Canudos.”
 
Rosilaine Lima Batista Félix, da 9a da Escola Municipal Alcide De Gasperi, colocou na sua redação uma visão pessoal da obra do imortal Euclides da Cunha: “Foi um homem sofredor, mas não demonstrava isso em seu semblante. Preferia escrever onde se distraía e se envolvia com as palavras, era uma pessoa crítica que só queria ver o bem e a justiça do seu povo; desde cedo se revelou com inclinação para as letras, editando versos e escritos políticos e crônicas em jornais do seu tempo.”
 
É impressionante, como se viu no corpo de jurados, fazendo uma cuidadosa avaliação das numerosas redações enviadas, o grau de amadurecimento dos estudantes cariocas, pelo menos os que participaram do concurso promovido pela SME/RJ. Uma enorme desenvoltura, domínio do tema, segura orientação dos seus professores (aos quais se deve creditar muito desse mérito) – e assim se chegou a um resultado altamente positivo, que comoveu a Secretária Cláudia Costin.
Aliás, a emoção foi permanente, na sessão de encerramento, grandemente valorizada pela apresentação dos alunos da Escola Municipal Cuba, da Ilha do Governador, que encenaram uma peça teatral baseada em Euclides da Cunha.
 
Reparem no que escreveu outro classificado, o estudante Mizael Albuquerque, da 9a série da Escola Municipal Martin Luther King: “Bom republicano, partira com ideias contrárias aos rebeldes e sobre a razão do conflito, tomando partido dos republicanos. Mas lá chegando, após presenciar as injustiças sofridas pela população local, mudou seus preceitos. No livro “Os Sertões” relatou a situação vivida pelos nordestinos.” Lições admiráveis de acuidade, como encontramos no trabalho de Jackeline S. de Carvalho, da 9a série da Escola Municipal Pracinha João da Silva: “Afinal, o que dizer de Euclides da Cunha? Não há mais o que possa ser dito, há o que ser reconhecido.”
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