Crônicas

O tribunal do livro
Arnaldo Niskier

 

Enquanto se discute de quem é a culpa pela baixa qualidade da educação brasileira, avaliada no exame internacional do Pisa, variando as versões entre os que vitimam os alunos, os professores, os pais e as escolas, um fato que mereceu notável destaque: descobriu-se o Quirguistão, país que bravamente superamos, na última olimpíada do conhecimento (ciências, matemática e leitura).
 
Fica na Ásia Central, faz fronteira com o famoso Sin-kiang, que integrou a antiga União Soviética (era uma das suas quinze repúblicas). Tem uma população de cerca de cinco milhões de habitantes. A capital? Bishkek. Não houve quem deixasse de recorrer às melhores enciclopédias para se atualizar sobre o país que derrotamos, embora tenhamos ficado numa das últimas colocações das provas realizadas com a participação de alunos de 15 anos de idade, testando 57 países.
 
O ministro da Educação, Fernando Haddad, aceitou convite para visitar a Academia Brasileira de Letras, onde, numa rara sessão plenária, debateu democraticamente com os imortais sobre a problemática que enfrentamos. Ouviu pacientemente as questões levantadas, anotou sugestões, como a volta da literatura brasileira aos currículos do ensino médio e a possível publicação de obras de grandes escritores – em edições populares – para uma farta distribuição às escolas públicas, com vistas à valorização do gosto pela leitura. Não deixou de registrar que seria uma boa idéia oferecer o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, produzido com exclusividade pela ABL, para figurar nas bibliotecas públicas.
 
O ministro disse que deseja estimular o pensamento reflexivo no espírito dos alunos e mandou reservar 1 bilhão de reais do orçamento de 2008 para aplicar em obras de escolha das próprias escolas. Inquirido sobre o que está ocorrendo com os livros didáticos, cuja operação é alvo de críticas da nossa sociedade, respondeu com veemência: “Querem que eu institua um tribunal para censurar os livros. Isso não farei de jeito nenhum!”
 
Manifestou desejo de cuidar melhor da capacitação de professores: “O sistema relegou essa prioridade ao quinto plano. Vamos tratar do assunto como uma carreira de Estado, sob responsabilidade do governo federal. Só assim poderemos dar melhor assistência, inclusive salarial, aos quase três milhões de professores que cuidam dos nossos 50 milhões de alunos”. Foi aplaudido.
 
O debate prosseguiu com a abordagem da questão da qualidade do ensino. O ministro Haddad revelou que há sinais de aperfeiçoamento nas tarefas de alfabetização, seguindo dados de 2003 e 2005. “A minha maior preocupação é o ensino médio, por isso, de forma pioneira, estamos distribuindo livros gratuitos aos estudantes das escolas públicas.”
 
É claro que concordamos que nada em educação se resolve da noite para o dia. Gostamos de ouvir que os métodos fonéticos foram em outros tempos mal substituídos, que sofreu de uma doença epidêmica intitulada “piagetismo”. Parece que adotamos uma dinâmica inversa – e isso é saudável.
 
Fernando Haddad não concorda com a demonização do ensino superior, como querem alguns críticos de plantão. “Devemos aperfeiçoá-lo e não destruí-lo.” Ao final, recebendo das mãos do presidente da ABL duas certeiras contribuições para a valorização da língua portuguesa, prometeu uma intensa cooperação com a Casa de Machado de Assis, “para que os alunos compreendam e não apenas decodifiquem a língua portuguesa.” Louve-se o estilo do ministro da Educação, que não se aborreceu com as críticas ouvidas. Prometeu soluções, na execução do Plano de Desenvolvimento da Educação. Desejamos que não lhe faltem recursos financeiros – e que sejam eles muito bem aplicados.
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