Crônicas

Como é boa a hora do reconhecimento
Arnaldo Niskier

 

Todos sabem que a profissão do magistério traz imensos benefícios. Seria falso, no entanto, afirmar que não tem lá suas compensações, que costumamos valorizar quando elas se casam com o exercício pleno de uma verdadeira vocação.
 
Vejam o que aconteceu no domingo passado, no conturbado Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Passageiros, agitados, reclamavam do costumeiro cancelamento de voos programados, o que beira à desumanidade. Tudo em nome de uma discutível economicidade, mas essa é outra história.
 
Bateu a fome, depois de tanta incerteza, e fui me consolar na fila do pãozinho de queijo. Minha mulher Ruth ao meu lado. Na hora do pagamento, sou gentilmente interrompido por uma senhora:
 
— Acho que o sr. foi meu professor no Instituto de Educação.
 
— Desculpe, minha senhora, mas do Instituto fui apenas aluno. Aliás, foi minha primeira escola, no começo da década de 40. Era aluno da professora Paulina, mãe da Ruth aqui ao lado.
A conversa foi-se tornando mais animada. A fila não andava mesmo. A senhora, fora da fila, avançou na dúvida:
 
— Então, acho que o sr. foi meu professor – e também da minha colega (apresentou-me outra senhora) na Universidade Federal do Rio de Janeiro ou na Universidade do Estado da Guanabara (UEG). Curso de Geografia.
 
A segunda senhora foi mais enfática:
 
— O sr. foi nosso professor de Administração Escolar na UEG, década de 60. Lembro bem das suas aulas. Eram muito claras.
 
Aproveitei o papo para esclarecer que todos os alunos da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (antiga Faculdade de Filosofia do Instituto La-Fayette) eram obrigados a passar pela cadeira que eu havia herdado do professor Figueira Machado, um dos fundadores da instituição e que havia se aposentado. Embora eu dividisse as aulas com o frei Cassiano de Vilarosa, meu assistente, ainda assim era um trabalho descomunal. Vocês imaginam o que era corrigir as provas dessas centenas de alunos, com a preocupação de não cometer nenhuma injustiça?
 
As ex-alunas concordaram e resolveram, então, se apresentar: uma era da Justiça Federal e membro do Ministério Público; outra era doutora em Geografia pela UFRJ. Confessaram:
 
— Acompanhamos a sua carreira com muita alegria, inclusive a entrada para a Academia Brasileira de Letras. Sentimos orgulho de termos sido suas alunas.
 
O que dizer depois disso tudo? Que terá valido a pena o sacrifício? Ainda há pessoas, de boa índole, que são reconhecidas e sentem o prazer do reencontro, como se não houvesse algo em torno de 50 anos de tempo decorrido.
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