Crônicas

O pintor de palavras
Arnaldo Niskier

Na Maratona Escolar de 2011, promovida pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, com o apoio da Academia Brasileira de Letras, o escolhido para motivar os trabalhos dos alunos do 6º ao 9º  ano foi o escritor gaúcho Erico Veríssimo.  Ao falar  na XV Coordenadoria de  Educação, em Santa Cruz, que abrange 90 mil alunos, abordei aspectos marcantes do autor de “O tempo e o vento”, a começar  pelo saudável hábito de ler com profusão autores nacionais e estrangeiros.  Daí ter se tornado “um pintor de palavras”.
 
Num determinado ponto da sua brilhante carreira, chegou-se a comentar que o seu estilo literário tinha certas semelhanças com a obra de Aldous Huxley, de que tinha sido um leitor voraz.  Nada confirmado, pois Erico era um gaúcho autêntico, totalmente identificado com as coisas da sua terra.  As referências topográficas, de costumes, climáticas e de linguagens surgiam naturalmente, sem qualquer exagero ou falsidade.
 
Com uma obra de altíssima qualidade, estranha-se que Erico Veríssimo não tenha sido membro da Academia Brasileira de Letras, mas é possível afiançar que  ele jamais desejou essa glória.  Preocupou-se muito mais com a sua obra altamente qualificada, com todos os desdobramentos vitoriosos na televisão e no cinema.  “O tempo e o vento” foi um sucesso na Rede Globo, com Tarcísio Meira (Capitão Rodrigo) e Glória Pires (Ana Terra) nos papéis principais.  No caso de Ana Terra, foi pintada pelo ficcionista como altiva, bela, com o destino muito triste.  

Bem poderia  ser, também, sinônimo de mãe, ventre, terra, raiz, paciência e coragem, “moça de olhos e cabelos pretos, rosto muito claro, lábios cheios e vermelhos.”  Foi antológica a interpretação de Glória Pires, no papel da heroína, que não tinha espelho em casa.  Admirou-se do seu rosto ao ver-se refletida num espelho  dágua.
 
Outra mulher muito bem retratada por Erico Veríssimo está no romance “Clarissa”(nome dado em homenagem a sua filha).  Ela surgiu em “Música ao longe”, ainda adolescente, trazendo dentro de si uma “inocência  menineira” como quis o escritor gaúcho, que a considerava  como das suas melhores obras de ficcionista.  Clarissa não se ambientou à capital, vivendo com permanente saudade da fazenda.
 
Ao falar na Escola Municipal Rachel  de Queiroz, no âmbito da Maratona Escolar, ainda a propósito de Erico Veríssimo, fui instado a revelar dois segredos do corpo de jurados, de que faço parte, na ABL.  Uma jovem do 6º no, movida pela natural curiosidade, quis saber quais eram os principais critérios de escolha dos premiados.  Não pude me furtar ao esclarecimento.  O primeiro critério é a limpeza da linguagem, escrever de modo correto, não utilizar palavras hoje comuns no discutível internetês (na escola deve-se sempre fazer uso da norma culta, pois é a que se exige, de futuro, nos concursos públicos).  O segundo aspecto considerado é  a criatividade, nem sempre devidamente considerada em trabalhos aligeirados e com excesso de dados biográficos.  De posse desses conselhos, quem sabe, daquele grupo de cerca de 100 jovens poderão sair novos  e bons escritores?
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