Crônicas

Bulingar ou não, eis a questão
Arnaldo Niskier

Eu bulingo, tu bulingas, ele bulinga, nós bulingamos, vós bulingais, eles bulingam.
Parece coisa do outro mundo, mas é apenas uma inovação linguística, que ainda não figura em dicionários e muito menos no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, organizado na Academia Brasileira de Letras pelo filólogo Evanildo Bechara.
 
Estamos nos referindo ao verbo bulingar, que começa a aparecer nos noticiários da imprensa, uma forma aportuguesada da palavra inglesa bullying, hoje tão em voga. Não há dúvida: trata-se de uma atitude execrável, que tem origem em escolas de diferentes países, significando violência entre estudantes ou de estudantes contra professores (em casos mais raros, a dinâmica é a oposta).
 
Se o ambiente do neologismo é a escola, sobretudo no seu interior, não há como concordar com os exageros que são cometidos. Um ex-governador tirou das mãos de um repórter um gravador, apagou a fita, e logo se disse que isso era bullying. Nada a ver.
 
A palavra pode vir de bully, que significa “indivíduo valentão ou provocador”. O movimento, no gerúndio, poderia ter dado origem a esse termo da moda. De onde quer que venha a expressão, hoje soa como algo violento, que merece preocupação de pais e educadores. Outro dia, uma amiga foi chamada à direção da escola do seu filho, sob a alegação de que ele havia debochado de uma colega. Sabem qual era o deboche? Chamou a moça de “Charuto”, por ela ser morena e alta. Não parece aí residir um evidente exagero? Apelidos, nas escolas, existem desde tempos imemoriais. Aliás, não apenas nas escolas, mas em repartições públicas ou em ambientes diferenciados, como são as escolas militares. Há também muito disso em clubes de futebol – se não fora assim como reconhecer o Canhotinha de Ouro, o Pelé e o Garrincha? Se fossem chamados só pelo nome (ainda me lembro do Zizinho e do Didi), será que teriam alcançado tanta popularidade?
 
Não se pode afirmar que o verbo bulingar será adotado rapidamente em nossas escolas. Há certas coisas que dependem da chamada “voz do povo”, que é imprevisível. O que é desagradável, nisso tudo, é a exacerbação do fenômeno. Nem tudo pode ser classificado de bulingar, como querem algumas pessoas que ainda não entenderam a questão na sua amplitude. Banalizar a palavra pode ser uma forma de desviar do problema a atenção que a ele merece ser dispensada. É preciso não desmerecer  o que se está passando, com consequências lamentáveis, como ocorreu na tragédia de Realengo. Ali, sim, o criminoso havia sido atingido, anos antes, por diversas sessões de bullying, o que também não justifica a bestialidade do seu comportamento.

Ele deveria ter sido acompanhado, se tivesse uma família regularmente constituída. Não foi o caso. Todos sofremos com esse triste desfecho.
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