Crônicas

A grande dama da cultura
Arnaldo Niskier

 

Lily Marinho era conhecida pelo refinamento e a elegância em todos os seus gestos. Tive o privilégio do seu convívio durante os 14 anos em que viveu, feliz, ao lado do marido Roberto Marinho. Depois da morte do grande fundador das Organizações Globo, em 2003, passou reclusa boa parte da vida, sem deixar a bela casa do Cosme Velho. Costumava dizer: “Estando aqui, onde pretendo ficar até o fim dos meus dias, sinto menos a ausência do meu grande amor.”
 
O Brasil deve a Lily Marinho uma série incrível de eventos culturais. Exposições de obras originais de Rodin, Monet e Picasso passaram pelos olhos de milhares de pessoas, com um pormenor que jamais escapou à minha percepção: ela fazia absoluta questão de que houvesse sempre o comparecimento de estudantes, nas mostras, “para que eles possam apreender a importância e o gosto pela arte.”
 
Ao mesmo tempo que promovia excepcionais recepções em sua residência, reunindo reis, rainhas e presidentes, não deixava de dar atenção aos favelados que viviam nas proximidades. Mais de uma vez por ano, sobretudo no “Dia das Crianças”, ela subia o morro, alegre e sem qualquer tipo de receio, para distribuir brinquedos, roupas e livros às crianças, que por ela demonstravam a mais carinhosa adoração. Eram momentos de euforia, no doce coração da “tia Lily”.
 
Nas muitas idas à Academia Brasileira de Letras, para sessões solenes ou não,  e nas incontáveis viagens de helicóptero à bonita casa na praia de Mombaça (Angra dos Reis), eu e minha mulher Ruth pudemos testemunhar a bela comunhão desse amor maduro. “Você viu onde está a Lily?” perguntava sempre o jornalista Roberto Marinho, que a desejava sempre por perto, mesmo que ela estivesse mostrando as carpas coloridas do rio Carioca aos seus visitantes, ou que o pretexto fosse outro: o ballet cadenciado dos seus 150 flamingos, importados de Cuba e da África do Sul.
 
Nos encontros com os amigos mais íntimos, ela se revelava uma pessoa de apreciado bom humor. De uma feita, convidou pequeno grupo para um jantar e um dos convivas faltou, sem dar explicações. Ela pediu ao seu fiel mordomo Edgard que buscasse um urso gigante, que guardava no seu escritório do 2o andar, e colocou o bicho de pelúcia sentado na cadeira do faltoso. Os risos dominaram todo o jantar.
 
Quando dr. Roberto atingiu a glória dos 90 anos, ela organizou uma festa para 500 pessoas, no Cosme Velho. Nunca se viu tantas autoridades de todos os calibres, além naturalmente da família do homenageado, especialmente os seus três queridos filhos. Muita coisa daquela noite inesquecível foi surpresa para o diretor da Globo, especialmente o discurso com que foi saudado, na ocasião, e o imenso bolo repartido à beira da piscina. Ele agradeceu, com emocionadas palavras de improviso.
 
D. Lily perdeu, num acidente de carro, o seu único filho do primeiro casamento, com o empresário Horácio Carvalho Jr. Mais tarde, de forma premonitória, adotou o menino João Batista, a quem amou como filho verdadeiro. Ao falecer, aos 89 anos de idade, deixou imensas saudades, no espírito do filho, dos quatro netos e dos seus incontáveis e inconsoláveis amigos. Sentiremos muita falta da grande dama da cultura brasileira.
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