Crônicas

Antônio Houaiss, um homem Múltiplo
Arnaldo Niskier

É muito difícil definir o homem Antônio Houaiss, a partir de tudo o que fez e representou para a cultura brasileira. Filólogo, linguista, crítico, lexicógrafo, tradutor, perito-contador, gastrônomo, ensaísta, polígrafo, professor, biólogo, diplomata, enciclopedista, acadêmico, e muito mais. Multifacetado, ele sempre esteve pronto para assumir as atividades que a vida colocou à sua frente, e com a devida competência. 
 
Como bem definiu a acadêmica Nélida Piñon, Houaiss “é um homem múltiplo, polissêmico, uma mentalidade, uma cultura, uma visão de mundo polissêmica”.
 
Tudo começou em 15 de outubro de 1915, quando nasceu no Rio de Janeiro. Foi o quinto dos sete filhos de Habib Assad Houaiss e Malvina Farjalla Houaiss, imigrantes libaneses maronitas. A ascendência árabe em nenhum momento fez com que estreitasse laços culturais apenas com a história dessa origem. Ao contrário, ganhou o mundo, nas diversas funções desempenhadas na área diplomática, apreendendo ensinamentos e levando seus conhecimentos, sempre em busca de um mundo melhor para todos.
 
Em 1933, formou-se perito-contador pela Escola de Comércio Amaro Cavalcanti, onde teve como mestres Joaquim Matoso da Câmara Jr., então o maior linguista do país, e Ernesto de Faria. Logo depois, fez o curso secundário de madureza. Na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro) fez o curso de Letras, onde estudou com o filho de Antenor 
Nascentes, Olavo Aníbal Nascentes.
 
O seu trabalho crítico sobre a produção do Padre Anchieta, ainda nos tempos de estudante de Letras Clássicas, na então Faculdade Nacional de Filosofia, até hoje merece comentários dos estudiosos de sua obra. Esta poderia ser considerada a pedra fundamental da construção de um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve. 
 
Antônio Houaiss casou-se em 1942 com Ruth Marques de Salles e não teve filhos. A esposa faleceu em 4 de julho de 1988, e quase 11 anos depois, o acadêmico deixou o nosso convívio, no dia 7 de março de 1999, devido a problemas respiratórios. Uma perda até hoje sentida.
 
A presença de Antônio Houaiss na Academia Brasileira representou um benefício muito grande para a nossa cultura. De forma singela, ele chegou a comentar, em certa oportunidade, sobre a sua atuação na Casa de Machado de Assis:
 
“Um acadêmico é um mortal um pouco à margem das punições sociais. Eu pensei: se eu me fizer acadêmico, poderei continuar a ser o Macunaíma que sou, mas talvez um pouco protegido”.
 
Após ser eleito o quinto ocupante da Cadeira 17, da Academia Brasileira de Letras, em 1º de abril de 1971, para suceder a Álvaro Lins, Antônio Houaiss tomou posse no dia 27 de agosto do mesmo ano. Em seu discurso, fez referências amáveis a seus antecessores (Sílvio Romero, Osório Duque-Estrada, Roquette-Pinto e Álvaro Lins), e também ao patrono Hipólito José da Costa. Foi recebido pelo Acadêmico 
Afonso Arinos de Melo Franco, que assinalou a importância da chegada do novo membro da ABL:
 
“Por tudo isto é que, para mim, vossa obra de investigação e pesquisa, na Literatura e na Filologia, junta-se harmoniosamente, pela Crítica, em uma espécie de síntese, que vai se definindo melhor, à medida que os diversos trabalhos se sucedem. Objetiva e livremente, a vossa obra, abrangendo sempre temas estranhos à vossa pessoa, vai revelando, no entanto, a vossa personalidade. Vossa obra representa, toda ela, uma ascensão contínua da inteligência para o saber, da experiência para o conhecimento. Vossa personalidade corresponde aos fatores evolutivos de vossa formação”.
 
Sobre ele, disse Josué Montello e há o registro no livro Diário do Entardecer (1967/1977):
 
“Ora, o meu admirado Antônio Houaiss, candidato único à sucessão de Álvaro Lins na Academia, acaba de fazer chegar às minhas mãos o seu curriculum. Bem organizado. Bem impresso. Bem Antônio Houaiss. Preferi não ler. Como o recebi, guardei-o. No meu caso, não precisava converter em seu favor, quem já estava convertido. Houaiss é figura representativa da cultura brasileira. O que há de melhor. 
 
Álvaro Lins, neste momento, não poderia ter melhor sucessor”.
 
Este é o imortal cujo centenário de nascimento estamos comemorando.
 
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