Crônicas

O Poeta do Maracanã
Arnaldo Niskier

Em ocasiões especiais, como a despedida de Garrincha e os 1.000 gols de Pelé, os textos produzidos por Armando Nogueira, para a TV Globo, convenceram os nossos intelectuais de que era possível fazer literatura – e de boa qualidade – utilizando a telinha marcada pela superficialidade. O autor do feito, Amando Nogueira, embora escritor (“Na grande área”, editado pela Bloch, em 1966), gostava de se considerar jornalista esportivo, atividade na qual alcançou a culminância profissional.
 
Nossos caminhos cruzaram em algumas oportunidades. Primeiro, na revista Manchete, na década de 50, da qual ele era colaborador, o que se estendeu à Manchete Esportiva. Depois, no Diário Carioca, onde trabalhei um tempo na seção esportiva (1958). Armando já era um modelo de cronista.
 
Armando Nogueira teve uma vasta experiência jornalística, que passou também pelo Diário da Noite, pela revista O Cruzeiro e pelo Jornal do Brasil. Na TV Globo, foi responsável pela criação do Jornal Nacional. Participou, como repórter e comentarista, de todas as Copas do Mundo, a partir de 1954, e também da cobertura dos Jogos Olímpicos, a partir de 1980. Acumulou uma extraordinária experiência.
 
Chamado por Austregésilo de Athayde, fiz uma palestra, na Academia Brasileira de Letras, sobre “Literatura e Televisão”. Lembro que citei Armando Nogueira como exemplo de estilo. Recebi elogios do imortal Afonso Arinos de Melo Franco, que a tudo assistia, com muita atenção, sentado na primeira fila do Salão Nobre.
 
Autor de dez livros, torcedor fanático do Botafogo F.R., Armando Nogueira, natural de Xapuri, no Acre (mesma terra do médico Adib Jatene e do ex-ministro Jarbas Passarinho), notabilizou-se como “o poeta do Maracanã”. Quando se referiu a Zico, disse que “a bola é uma flor que nasce nos pés de Zico, com cheiro de gol”. Sobre Pelé: “Até a bola do jogo pedia autógrafo a Pelé.”. Garrincha: “Que Deus nos perdoe o pecado de desprezar um ídolo porque, pelo menos a mim, já me basta a pena de nunca mais voltar a ver nos estádios um drible de Garrincha.”
 
No poema que fez dedicado aos 40 anos do Maracanã, homenageou poeticamente outros grandes craques, como Gerson e Jair da Rosa Pinto, “que tinham no pé esquerdo o rigor da fita métrica”; e Nilton Santos, “futebol de fino trato, na majestade e no saber”; e o incomparável Zizinho, “que conhecia, como ninguém, todos os atalhos da geometria”. Não esqueceu Didi, nem Carlos Castilho, nem Ademir Menezes. Chamou o Maracanã de caprichosa imitação da sua vida, “com a melodia do teu doce nome.”
 
Faltou dizer que jogamos bola juntos, no clássico Diário Carioca x Última Hora, na preliminar de um concorrido Fla x Flu, no gramado do Maracanã. Tivemos o prazer de pisar o campo juntos e correr naquele templo sagrado do futebol, que hoje se entristece com a perda, aos 83 anos de idade, do seu grande e inspirado poeta.
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