Crônicas

A arte de Magalhães Júnior
Arnaldo Niskier

 

Raimundo Magalhães Júnior foi um dos maiores intelectuais brasileiros de todos os tempos.  Escreveu com igual competência peças teatrais, contos, poesias, crônicas, biografias e livros de história, além de ter sido um excepcional jornalista.  Tivemos um convívio de mais de 20 anos, na revista Manchete, onde chegávamos sempre muito cedo , para dar conta das nossas tarefas.  O que não impedia que conversássemos com a maior intimidade sobre questões pessoais, ele preocupado coma educação da filha única (a vitoriosa carnavalesca Rosa Magalhães) e eu com a dureza do exercício de duas atividades concomitantes: o jornalismo e o magistério.  Devo-lhe uma soma incontável de bons conselhos.  
 
Magalhães, como gostava de ser chamado, tinha orgulho da esposa, a escritora Lúcia Benedetti, e era um pesquisador incansável.  Quase diariamente, depois de deixar a redação, dirigia-se à Biblioteca Nacional, onde sempre tinha um trabalho em andamento.  Foi um grande tradutor teatral, fazendo sucesso com Gata em teto de zinco quente , de Tennessee Williams; A Milionária e Dilema de Médico, de Bernard Shaw e Os Amores de Valentine, de Verneuil.  Sua atividade era tão intensa que, na época, corria uma piada, nos meios intelectuais, da  qual  ele próprio ria gostosamente.  Contava-se que o escritor norte-americano Tennessee Williams ainda estava escrevendo uma nova peça, mas o Magalhães já tinha traduzido para o português...
 
Lembro da sua memória prodigiosa.  Segunda-feira era dia de fechamento da revista, que ia para as bancas na quarta-feira.  Reuníamos logo cedo, para decidir com o diretor Justino Martins o que seria feito para dar vida e atualidade ao número.  Alguém lembrava uma data histórica.  Aprovada a sugestão de elaborar matéria, o Magalhães era encarregado de escrever dez laudas (ele chamava de “tiras”) sobre o fato.  Tinha um só olho e batia à máquina, na velha Remington, com um só dedo.  Em pouco menos de três horas, sem consultar se não a sua própria memória, lá vinha ele com o texto, como sempre impecável e cheio de preciosas   informações.  Um verdadeiro fenômeno.
 
Foi também homem público, dos primeiros a aderir ao Partido Socialista, pelo qual se elegeu vereador.  Na época, havia uma briga feroz contra a então Companhia Telefônica Brasileira (CTB), que prestava maus serviços à população.  Estabeleceu-se uma grande discussão em torno da empresa.  Vários edis foram acusados de receber propinas (já se vê que isso vem de longe), mas a  figura de Magalhães era intocável, dada a sua reconhecida retidão de caráter.  Foi assim também que se tornou, por muitos anos, presidente da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais(SBAT), moralizando o pagamento dos direitos autorais.  Tudo  isso – convém lembrar – sem a existência dos recursos tecnológicos hoje existentes.
 
 Magalhães foi  um grande historiador.  Escreveu Artur Azevedo e sua época, Impróprio para menores, Fuga e outros contos, Machado de Assis desconhecido, D.Pedro II e a Condessa de Barral, José de Alencar e sua época etc.  O grande acadêmico cearense morreu em 1981, atropelado por um carro na frente da Manchete.  Deixou uma obra respeitabilíssima.
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