Crônicas

O bom professor
Arnaldo Niskier

Pesquisas recentes demonstram que a habilidade de ensinar não é inata. Assim como os treinadores ajudam os atletas a melhorar em suas modalidades, os professores também podem ter suas vocações aprimoradas.
 
Sabe-se que o segredo para notas excelentes e estudantes bem-sucedidos não são os colégios elegantes, turmas pequenas ou equipamentos mirabolantes. São os professores. É a principal conclusão da matéria “Como fazer um bom professor”, publicada na revista The Economist, de 11 de junho de 2016.
 
Melhorar a qualidade do ensino passa pela ideia de melhorar o professor. No mundo todo, poucos professores são suficientemente bem preparados. Em países pobres, muitos recebem pouco treinamento. Um relatório recente constatou que, em 31 países, mais de um quarto de professores de escolas primárias não havia atingido o padrão nacional (mínimo). Em países ricos, o problema é mais sutil. Os professores se qualificam, seguindo um curso longo, que, normalmente, envolve discussões rasas sobre diversas teorias. Alguns desses cursos, inclusive mestrados em educação, não têm nenhum efeito sobre quão bem os alunos dos seus graduados acabam sendo ensinados. As escolas negligenciam os seus alunos mais importantes: os próprios professores.
 
É preciso aprender como transmitir conhecimento e preparar jovens mentes
 
para recebê-los. Bons professores definem objetivos claros, aplicam padrões altos de
 
comportamento e administram o tempo em sala de aula com sabedoria. Usam
 
técnicas comprovadas de ensino para garantir que todas as cabeças estejam
 
funcionando todo o tempo, como, por exemplo, fazer perguntas na sala de aula,
 
escolhendo o aluno que irá responder, em vez de perguntar e esperar uma resposta, o
 
que sempre leva a ter os mesmos alunos ansiosos levantando as mãos.
 
A aplicação dessas técnicas é mais fácil em teoria do que na prática. Com o
 
ensino, assim como com outras habilidades complexas, o caminho para a maestria não
 
é uma teoria confusa, mas sim uma intensa prática orientada, baseada no
 
conhecimento do assunto e métodos pedagógicos.
 
Os estagiários deveriam passar mais tempo em sala de aula. Os lugares onde os
 
alunos têm o melhor desempenho, por exemplo, Finlândia, Singapura e Xangai, fazem
 
professores inexperientes passar por um aprendizado exigente. Na América, as escolas
 
com alto desempenho ensinam os estagiários em sala de aula e dão orientações e
 
feedback a eles. Acertar nos incentivos ajuda. Em Xangai, os professores ensinam
 
somente de 10-12 horas por semana, menos que metade da média americana de 27
 
horas.
 
Estudos recentes da Universidade de Harvard destacam o poder do bom
 
ensino. Mas uma pergunta persegue os criadores de políticas: “Bons professores
 
nascem bons ou se tornam bons?” Preconceitos na cultura popular sugerem a última
 
opção. Professores ruins são vistos como pessoas preguiçosas e que odeiam crianças.
 
Edna Krabappel, de "Os Simpsons", trata as aulas como obstáculos para chegar aos
 
intervalos. Enquanto isso, professores bons e inspiradores são vistos como pessoas
 
dotadas de dons sobrenaturais. Em 2011, um levantamento sobre atitudes em relação
 
à educação verificou que essas visões refletem no que as pessoas acreditam: 70% dos
 
americanos acreditavam que a habilidade de ensinar resultava mais de talento inato
 
que treinamento. Elizabeth Green, a autora de "Formando Mais que um Professor",
 
chama isso de "mito do professor inato".
 
As instituições que preparam professores precisam ser mais rigorosas - assim
 
como um século atrás, em que escolas de medicina aumentaram o nível dos médicos,
 
introduzindo currículos sistemáticos e fornecendo experiência clínica.
 
Mudanças nos sistemas escolares são irrelevantes se não mudarem como e o
 
que as crianças aprendem. Para isso, o que importa é o que os professores fazem e
 
acham. A resposta, afinal, está na sala de aula.
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