Crônicas

Crônica de uma tragédia anunciada
Arnaldo Niskier

 

Somos testemunhas que, na década de 80, o então Conselho Federal de Educação (hoje, Conselho Nacional de Educação) empenhou-se dramaticamente na criação de mecanismos de avaliação da aprendizagem. Chegou a ser elaborado, na Câmara de Ensino Superior, um belíssimo projeto de avaliação continuada do ensino superior, de autoria do professor Ib Gatto Falcão, arquivado em seguida nos escaninhos do Ministério da Educação. Mas a semente fora lançada.
 
Agora, com a vinda a público do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), prova inequívoca de maturidade do sistema, algumas verdades puderam ser registradas – e o resultado do Enem 2009 não foi dos mais animadores, como a imprensa divulgou com fartura de pormenores. O Ideb do ensino médio nas redes estaduais ficou em 3,4 (escala até 10). A rede particular alcançou 5,6.
 
A escola pública está sucateada em grande estilo, com algumas honrosas exceções, como é o caso, para alegria nossa, do Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que vimos nascer há 50 anos, e que tirou o primeiro lugar entre as escolas públicas fluminenses. Perdeu somente para os Colégios São Bento, A. Liessin e Santo Agostinho, todas escolas particulares que realizam trabalho notável. Um dos segredos do CAP, além da dedicação dos professores, é o tempo integral.
 
Das 20 primeiras escolas classificadas no Brasil, o Rio de Janeiro apresentou cinco delas, o que não deixa de ser um bom resultado. Onde o Estado fracassou, redondamente, foi no setor público, que assinalou uma tragédia anunciada. Só ganhou, em média, do Piauí. Tirou o penúltimo lugar nacional, para surpresa dos que ainda acreditam que o Rio de Janeiro é a capital cultural do país.
Ao se buscar uma causa, na verdade um somatório de causas, algumas explicações tornam-se claras. Baixos salários, poucos estímulos, deserção brutal dos mestres, falta de professores em matérias como matemática, física, química e biologia etc. Como pode um sistema de ensino operar com tais brechas? O atual Governo está há quase quatro anos no exercício do poder, tempo suficiente para corrigir essas distorções, se houvesse vontade política. Ao contrário, até certas conquistas do magistério, como as gratificações pelo falecido Projeto Nova Escola, foram suprimidas, com a promessa de incorporação aos salários, o que demorou três anos para ser feito – e assim mesmo em doses homeopáticas. Havia 16 milhões de reais, mensalmente, separados para isso. Que destino levou essa verba?
 
A primeira desculpa oficial para os maus resultados foi ridícula: “A culpa é dos governos anteriores.” Uma geração de alunos do ensino médio nasceu e se formou no atual período governamental, portanto a alegação não procede. Tanto era sabido que havia brechas homéricas no sistema que foi anunciada a contratação de 30 mil professores. Essas vagas surgiram de repente? Ou foi o resultado do acúmulo desordenado de desistências e aposentadorias? As maiores vítimas desse descaso são os alunos que perderam o seu poder de competitividade e agora têm poucas chances de recuperar o tempo perdido. Uma geração sacrificada.
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