Crônicas

Em primeiro lugar a nossa língua
Arnaldo Niskier

 

Uma das originalidades do romance “O triste fim de Policarpo Quaresma”, do escritor carioca Lima Barreto, lançado em 1915, foi o seu firme desejo de trocar a língua portuguesa pelo tupi-guarani. Segundo ele, seria mais legítimo porque tinha tudo a ver com as nossas raízes, antes mesmo do Descobrimento do Brasil.
 
Hoje, vive-se uma fase de globalização intensa. Tanto que, nos meios acadêmicos, discute-se muito a necessidade de domínio de um segundo idioma, no caso com larga preferência pelo inglês, o que é normal em virtude do progresso desmesurado do emprego do computador, na vida de cada um de nós.
 
A questão que se coloca é muito simples: boa parte da nossa população, que não tem bons conhecimentos da língua mater, está sendo induzida a aprender o inglês. É preciso enfatizar o aperfeiçoamento da língua portuguesa. Até para entender o estilo de escritores como Machado de Assis, de origem humilde, que se tornou o maior de todos, em nosso País.
 
Numa viagem casual, em avião de carreira, de volta de Brasília, conversamos detidamente sobre o assunto com o ministro Carlos Lupi, do Trabalho e Emprego. Do papo também participou o acadêmico Marcos Vilaça, que manifestou o seu entusiasmo quando o ministro confessou o desejo de dar um tratamento especial aos jovens aprendizes que, na idade entre 14 e 24 anos incompletos, estão em busca do primeiro emprego.
 
Concordamos que os incentivos hoje são vastos e que se registra um interesse crescente dos empresários pelas inovações legais. O que nos pareceu prioritário é criar condições para que os jovens recebam uma eficiente capacitação em língua portuguesa, o que será a base de tudo. Como poderão dominar outras matérias, como a Matemática, por exemplo, sem conhecer em pormenores os mistérios e as riquezas do idioma de Euclides da Cunha? Ou devemos voltar ao tupi-guarani?
 
A cada momento sofremos o choque das informações que hoje têm um nível de conhecimento crítico. Chegar a quarta série convencional sem dominar o idioma, com a capacidade de raciocínio prejudicada pela ignorância e a impossibilidade de apreensão adequada de conhecimentos é mais comum do que se deveria desejar. Pior é quando isso se revela na oitava série. O que esperar do futuro desses jovens?
 
É aí que entra o interesse oficial, aliás, revelado até pelo presidente Lula, na visita feita em setembro de 2008 à ABL, no sentido de priorizar o trato da língua portuguesa, a partir do Acordo Ortográfico de Unificação, assinado com as demais nações lusófonas. Vamos possibilitar a milhões de jovens brasileiros o acesso adequado a esse insubstituível instrumento de cultura. É a grande prioridade.
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